Pesquisar este blog

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

O filão de Luciano Barreira (Nilto Maciel)

Os escritores de Brasília são provenientes das mais diversas regiões do país. Apesar disso, alguns deles têm buscado elaborar obras que retratem a cidade. Uns porque candangos, outros porque chegados maduros no oficio literário. Um deles, porém, conseguiu a proeza de ir mais longe, ao pintar com tintas fortes a Brasília que não aparece nos cartões postais, a Brasília da periferia. Trata-se de Luciano Barreira. E a pintura chama-se Feliciano, o brasileirinho (equivocado) que sonhou com a felicidade. Não é apenas um retrato das cidades-satélites. Porque o Distrito Federal cresceu como as demais grandes cidades brasileiras. Felicianos existem aqui, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Recife, em Belo Horizonte.´

O romance conta a história de um cearense como tantos outros nordestinos, goianos, mineiros. A história de seu sonho: deixar o campo, onde tudo parece ainda na Idade Média, e buscar a cidade, o progresso, a civilização. Conta a história do fim desse sonho.

A narrativa está repleta de descuidos de estilo, chavões do regionalismo e do realismo, sem nenhuma inovação técnica, na trama. Sua estrutura tem cem anos de atraso. O livro é dividido em 29 capítulos (contando-se o tradicional epílogo). Nos dois primeiros capítulos o autor narra o tempo que vai do nascimento de Feliciano à sua decisão de ir para Brasília, equivalente a uns 15 anos. Nos demais capítulos é narrado o resto da vida do protagonista: dois anos.

Fosse Luciano Barreira menos apegado às velhas e ultrapassadas técnicas de narrar, poderia ter escrito um prólogo, que contivesse os dois primeiros capítulos. Ou poderia ter utilizado o flashback. O personagem principal vai aos poucos desaparecendo de cena e dando lugar a outros, para, pela metade do livro, reaparecer ao lado de uma figura sempre crescente – Fátima, a heroína tardia.

O romance relata, com fidelidade jornalística, com amargura, amor e ódio, a vidinha de um rapaz, seu rápido passar pela vida. De tanto ouvir falar em “gigante pela própria natureza”, Feliciano ousou sonhar com uma vida melhor. O menino de Quixadá, sertão do Ceará, tornou-se adolescente, aprendeu a ler e a consertar carro, e um dia subiu à boléia de um caminhão e partiu para conhecer de perto a “capital da esperança”. Hospedado, como filho, na casa de outros migrantes nordestinos, na Ceilândia, experimentou ser mecânico e depois camelô.

As cenas do confronto entre mecânicos e policiais, bem como as cenas em que camelôs são perseguidos pelo “rapa” se gravam na mente do leitor, apesar de vulgares.

Impedido de trabalhar, roubado pelos fiscais do governo, o rapazinho acaba seduzido pela conversa de outro jovem. Dá-se o primeiro roubo, e está selada a sua sorte. Nasce mais um assaltante, um monstro, uma fera, no dizer de certa imprensa e dos policiais.

Contudo, Feliciano pára no meio do caminho, desiste da marginalidade. A imprensa, no entanto, precisa de sensacionalismo, enquanto a polícia necessita atender os reclamos dessa imprensa medíocre e bandida. Fabricada a fera, mister se faz eliminá-la. E um batalhão de homens bem armados e medonhos assassina um brasileiro expulso do campo.

A história de Luciano Barreira é um libelo contra o latifúndio e todo o sistema agrário brasileiro, o abandono do Nordeste, a marginalização do migrante na cidade grande, a tortura e o assassínio de entes humanos levados ao crime e ao desespero.

Feliciano termina otimista, nas palavras e nos gestos da personagem feminina: “Fátima depositou sobre o caixão já pronto para baixar ao jazigo uma coroa de flores brancas e vermelhas”.“– Meu amor – disse ela com os lábios a tremer – que tua coragem passe toda para mim. Quero ter forças para lutar por um mundo de amor e justiça! – Ela então num gesto maquinal tocou o ventre e disse por entre uma torrente de lágrimas que já não podiam ser contidas – eles pensam que te mataram de todo... mas você, Feliciano, vai voltar a viver na vida do nosso amor!”

O romance chega a ser terno. Entretanto, fica a indagação: o filho de Feliciano e Fátima será um brasileiro feliz ou não passará de mais um brasileirinho equivocado que sonhará com a felicidade e acabará marginal e assassinado como um porco?

Foi servindo-se, basicamente, do drama da seca no Nordeste que a literatura brasileira alcançou seus grandes momentos. São inumeráveis os romances do ciclo da seca. Com a escola naturalista-realista, o drama das populações nordestinas entrou para as letras, quando nossos ficcionistas e poetas se voltaram para sua gente e sua terra, deixando de lado as torres de marfim onde cantavam musas antigas de terras distantes e desconhecidas e mesmo nosso passado já morto – o indígena de Alencar, Gonçalves Dias e outros. Na verdade, o drama da seca é anterior ao homem José de Alencar. Registra-se nos anos de 1710-1711 a primeira grande seca no Nordeste. Isto, contudo, não traz nenhum demérito para o criador do romance brasileiro. Porque, sabe-se, o deserto criado em terras nordestinas tem sua origem no genocídio praticado pelos fazendeiros contra nossos naturais, na busca criminosa de terras para a criação de gado. Este processo começou no Nordeste ainda no século XVII. E assim foi possível fazer daquela região, outrora tão rica em sua flora, fauna e rios caudalosos, num autêntico deserto, propício às grandes secas periódicas.

Luciano Barreira, ao publicar Os Cassacos, romance sobre a seca, estaria batendo em teclas desgastadas? Não, porque o drama da seca ainda existe. Além disso, os temas não se esgotam, mesmo que não exista mais a sua causa material, como no caso do cangaceirismo, que também gerou rica literatura. Os Cassacos, apesar de seus defeitos notórios, é bem estruturado. Os personagens são gente viva e real. Sertanejos lutando desesperadamente para não morrer de fome. O enredo é rico, trilhando o romancista os caminhos da narrativa tradicional, até com o clássico happy end. O uso de técnicas antigas, por si só, não significa ser antigo, como no exemplo do soneto. Uma obra literária pode ser renovadora ou revolucionária, na forma, e não passar de uma mediocridade. A literatura está cheia de mediocridades por isso mesmo.

Em Os Cassacos se vêem ainda outros defeitos: os discursos descritivo e analítico. Veja-se o exemplo do trecho seguinte: “Dele (de Castro Alves) elas jamais souberam que lutou ardorosamente pelas idéias mais avançadas de seu tempo” (pág. 174), quando o autor claramente participa da história, como se escrevesse não ficção, mas um ensaio. Outras vezes pinta o caráter dos personagens, embora seja isso prática comum, como na oração: “Zuca não era ambicioso" (pág. 139). Além disso, o narrador comete o pecado da onisciência, sabendo e relevando até os pensamentos de seus personagens.

Luciano Barreira, neste romance, retrata não apenas o drama de uma seca, a de 1958, mas a vida do homem sertanejo, especificamente do homem do interior do Ceará, apresentando, tal como um técnico, as soluções para tal problemática, pelas palavras e ações de alguns personagens. Não são soluções revolucionárias, mas reformistas, dentro do próprio sistema capitalista, qual seja, a de industrializar a agro-pecuária.

No epílogo, o romancista casa o operário Zé Mundola e a camponesa Ducarmo, personagens que aos poucos vão assumindo as características de protagonistas. Antes criara uma série de acontecimentos aparentemente desnecessários ao corpo do romance, como a viuvez de Mundola, a cobiça de Pedro Nonato e a morte de Manuel, para, assim, conduzir a trama dentro das limitações de sua criação. Os personagens tornam-se, destarte, meras marionetes em suas mãos. Com isso, consegue desenvolver uma simbologia marxista: Zé Mundola representa a classe operária e Ducarmo, o campesinato. O próprio narrador não deixa escapar mais uma pitada de discurso analítico, tal se fosse o crítico de sua própria obra, ao dizer que talvez aquele casamento representasse a famosa consigna revolucionária. Apesar de todas as limitações da obra, o livro tem muito mais profundidade do que a apresentada no título. Como afirma Jáder de Carvalho, o título do livro parece restringir o romance ao aspecto da existência dos cassacos quando reflete muito mais do que isso – o amplo panorama da seca. Seguindo o rastro dos naturalistas e do romance de 30.
/////

Perdas e ganhos (Nilto Maciel)



Perde-se o lenço,
ganha-se a lágrima.
Perde-se o dente,
ganha-se a sisudez.
Perde-se a vergonha,
ganha-se dinheiro.
Perde-se o amor,
ganha-se outro.
Perde-se o dedo,
ganha-se o anel.

Perde-se o emprego,
ganha-se a dívida.
Perde-se o jogo,
ganha-se a desilusão.
Perde-se a paciência,
ganha-se o infarto.
Perde-se a esperança,
ganha-se o desengano.
Perde-se a cabeça,
ganha-se a calvície.
Perde-se a virgindade,
ganha-se a experiência.
Perde-se o trem,
ganha-se a espera.
Perde-se o poema,
ganha-se a insônia.
Perde-se a bolsa,
ganha-se o medo.
Perde-se a guerra,
ganha-se a ruína.
Perde-se a crença,
ganha-se a dúvida.
Perde-se a liberdade,
ganha-se a solidão.
Perde-se o tempo,
ganha-se a eternidade.
Perde-se a vida,
ganha-se a saudade.

/////

O campeão (Nilto Maciel)


Terminada a competição, o repórter encontrou o campeão. Queria uma entrevista exclusiva. E pôs-se a fazer os mais levianos elogios ao vencedor. Comparou-o aos deuses da mitologia greco-romana. Chamou-o super-homem.

Para surpresa sua, no entanto, o campeão não só recusou os louvores, como tratou de depreciar o próprio feito. Tudo obra de truques.

O repórter sorriu, certo de estar ouvindo uma brincadeira de mau gosto. Afinal, estava no exercício de sua profissão. Porém, o entrevistando fazia questão de estragar a festa, degradar a competição.

O jornalista mal sabia, no entanto, que realizava a mais importante entrevista de sua carreira. 

– Minha vida está no fim.

Nada mais podia ser feito. Todos os exames denunciavam a doença mortal. Os mais eficazes remédios só adiariam a morte.

Questão de dias.

– E como você sente tudo isso?

– Eu me sinto como o viajante com hora marcada para partir. Todos nós vamos viajar um dia. A diferença entre uns e outros está em saberem ou não saberem o horário da partida.

Embasbacado, o repórter não fazia mais perguntas, enquanto o outro falava, sem parar.

– Quem compete se arrisca a trair, mentir, fraudar. E quem compete tem consciência disso. Muitas vezes os melhores não participam de competições. Preferem ser os melhores apenas para si mesmos. E para aqueles que não vão às arenas aplaudir os gladiadores. Assim, o melhor poeta não é o ganhador do Prêmio Nobel.

Com certeza o homem delirava ou enlouquecera. Talvez a emoção da vitória tivesse perturbado os mecanismos centrais de seu cérebro. Precisava repousar, dormir.

– Não quero falar da Igualdade, porque ela se confunde com a Utopia. No entanto posso continuar falando da mentira, da traição, da fraude. Posso dizer, por exemplo, que nas compe-tições todos se igualam: competidores, julgadores e espectadores.

– Vá dormir, campeão.

– Há ainda a competição primordial, entre o ser e o não-ser. E esta é sem significado, completamente inútil.

– .............................................................................

/////

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

José Lemos Monteiro: Crônica de uma era monstruosa (Nilto Maciel)



O título do segundo romance de José Lemos Monteiro dá-nos a impressão de ser uma obra amena, quase lírica, espécie de memórias da província. Trata-se, no entanto, de romance de denúncia dos mais vigorosos aparecidos nos últimos anos do século XX no Brasil.

As primeiras páginas de A Serra do Arco-Íris dão-nos a entender que estaremos diante de uma simples história repleta de aventuras na selva. Ou das angústias de um piloto perdido nas matas, após desastre aviatório. As aventuras serão narradas e as angústias encherão algumas páginas, é certo. Entretanto, o personagem-narrador, antes aviador e pai de família comum, irá narrar não a sua desgraça pessoal, porém toda a crônica do lugarejo perdido no mapa e que, pouco a pouco, irá se transformando em metrópole moderníssima. O romance é essa crônica.


Se nos vier à lembrança Jari, ninguém verá na criação de José Lemos nenhum absurdo. Entretanto, não importa se o romancista teve por modelo essa ou aquela realidade. Interessa que Liberlândia lembra Jari e os interesses econômicos estrangeiros, Serra Pelada e a exploração de minérios, sem que a população nativa dela tire qualquer proveito. Lembra as obras suntuosas, o desastre ecológico de Sete Quedas, o Brasil “modernizado”.

A Serra do Arco-Íris é um documento literário em que a questão social é levantada sem evasivas, de forma clara e mesmo a partir de uma ótica pessimista. Mais que isso, o narrador descobre as razões das demissões em massa, da recessão, do desemprego, do consumismo, do medo a tomar conta de cada um, num verdadeiro diagnóstico social.

Por isso mesmo, A Serra do Arco-Íris vem a ser romance atualíssimo, extremamente fiel à realidade brasileira, não cabendo ver-se-lhe qualquer sintoma de fantástico ou absurdo. O capítulo dos patins, por exemplo, mal terminou, apesar de tratar-se de mais uma moda. O das pernas-de-pau é uma sátira às modas em geral, por mais absurdo que pareça. No entanto, quem duvida do engenho do capitalismo? Além do mais, é lícito ao ficcionista utilizar-se da sátira e, com isso, antecipar-se aos fatos. Sabemos lá o que se inventa nos gabinetes da burguesia! São fantásticos e absurdos esses burgueses. Não lhes importam a natureza nem o homem. Que se matem os rios, morram os peixes, as florestas, o homem. Que tudo mais vá para o inferno, se seus lucros se multiplicarem. Eles precisam do poder para viver. E se acreditam super-heróis, capazes de inventar substitutivos aos rios, às árvores, aos homens. Tudo de plástico, isopor, metal. Microamazônia de plástico, robôs, cascatas em tela, feitas a pincel e tinta. Para isso não lhes faltarão operários, cientistas e artistas. Todos seus escravos.

Um grande ironista esse José Lemos Monteiro. Ou o personagem-narrador. Aliás, a ironia e a metáfora andaram sempre juntas nos últimos anos do século XX no Brasil. Na literatura, em todas as artes, na própria imprensa. Formas distintas de discurso. Talvez a ironia da imprensa esteja no sorriso do repórter. Porém quem há de negá-la? No romance ora comentado são inúmeros os trechos em que a ironia aparece com muita nitidez. Como neste: “Entretanto, as demissões em massa continuaram logo no dia seguinte. Os empresários se angustiavam porque tomavam aquelas medidas pelas circunstâncias”.(pg. 78)

A Serra do Arco-Íris compõe-se de oito capítulos. Em todos eles o narrador se volta para o passado, a relembrar a família. E também escreve a crônica de sua nova experiência como sobrevivente do desastre aviatório no lugarejo Liberlândia, que aos poucos se vai transformando numa supercivilização industrial. No último capítulo, ao eclodir a tempestade, ele aprimora sua angústia, afunda nos abismos da introspecção, transforma seu discurso em poesia, para finalizar em desengano e pessimismo.

Apesar de ter dado ao personagem a condição de narrador dos fatos, a liberdade para falar de si mesmo, angustiar-se e expor opiniões, transformando-o em cronista-crítico de um tempo e um espaço imaginários, às vezes aparentemente absurdos, perguntar-se-á o leitor, ainda assim, se o autor não quis deixar claro a sua discordância das conclusões tomadas pelo personagem. Ou seja, apesar de todos os crimes praticados contra a natureza e homem, a burguesia perecerá no novo dilúvio e uma nova era se aproxima. Na nova arca, fabricada com os próprios restos da era industrial, só caberão as vítimas da monstruosidade burguesa. Aliás, os profetas mais sensíveis e inteligentes da raça humana têm dito: a nova civilização se erigirá sobre os escombros da anterior. Portanto, é loucura destruir-se tudo, até por anarquismo. Afinal, a anarquia é a base na qual se assenta a própria burguesia.

Assim, A Serra do Arco-Íris termina sendo um grande romance de denúncia e, ao mesmo tempo, de anunciação do fim de uma era monstruosa.
/////

Soneto crepuscular (Nilto Maciel)

Para: Francisco Carvalho

Nos campos de meu pai antigamente
as chuvas inundavam meus pensares
e do pomar do céu pingavam frutos.

Ventos ninavam aves repousadas
nas árvores vigias de seu sono,
sentinelas da luz crepuscular.

As ovelhas baliam suas crias,
os vaga-lumes alumbravam tudo
e a solidão das vacas nos currais.

Duendes se assustavam co’os trovões.
Na escuridão dos quartos o perfume
do amor gemente à sombra dos lençóis.

Invernos que de mim se evaporaram
nos campos de meu pai antigamente.

(2.9.97)
/////

Gaio e a solidão (Nilto Maciel)


 

Na casa havia um papagaio. Gritava o dia todo. Insultava seres e coisas. Para alegria de todos.

Sua própria alegria, porém, ia silenciando, pouco a pouco. Se ainda gargalhava, imitando o dono da casa, o fazia por puro hábito. Quase sempre triste em sua prisão, vivia a cochilar, feito um velho doente. Sem a menor vontade de conversar.

A família se reuniu para diagnosticar o mal do pobre Gaio. Doenças aéreas, moléstias aladas, enfermidades penosas vieram à baila. E nada encontraram para causa real da tão drástica mudança no comportamento do animal. Não, só um especialista em papagaio saberia definir a desgraça da pequena ave.

– Eu sei – gritou Jeová, do alto de sua caçulice.

Dona Sara quis rir, mas fez cara feia. Seu José tentou mudar de assunto. A filharada, porém, achou sensato o juízo de Jeová. Sim, Gaio precisava de uma companheira.

***
Autorizados, os meninos vasculharam as redondezas do sítio, à cata de uma papagaia. Em vão. Ali não havia disso. O próprio Gaio viera de muito longe. Trouxeram-no ciganos ou mascates. Seu José comprou-o por uma bagatela, a um desconhecido que passava diante da porta. Puxava um burro repleto de mercadorias. Talvez roubadas.

– Era um cigano, pai? – quis saber Jeová.

– Não lembro mais. Talvez o cigano tenha me vendido um chapéu de feltro. Ou um cavalo velho.

Os filhos maiores foram mais longe. Vararam serras e sertões, buscaram as mais famosas e distantes feiras. E nada de pa-pagaias.

***
A dolorosa melancolia de Gaio levou José e Sara a falar em novos filhos. Ela sorriu. Por acaso ele não sabia o significado de menopausa? Pois desde o nascimento de Jeová cessara nela o poder de procriar. Mais fácil terem netos.

E a ideia chegou aos ouvidos dos filhos. Sim, alguns já andavam na idade de casar. Onde, porém, encontrar moças e rapazes? Ora, nos sítios vizinhos. No de Seu Machado, por exemplo, vivia uma dezena de belas moças e fortes rapazes.

***
Num domingo, a caravana chefiada por José invadiu a casa de Machado. Alegria de ambos os lados pelo reencontro. Há tempos não se viam todos juntos. Como andavam crescidos os meninos! Que belas moças! Que bonitos rapazes!

– Jeová, então, está um homenzinho.

– E o papagaio?

Houve princípio de choro em alguns olhos. Coitadinho de Gaio! Talvez não durasse mais uma semana.

– Faz tanto tempo – observou José.

Os meninos já corriam para lá e para cá. As moças e os rapazes trocavam olhares e palavras tímidas.

– Por pouco não comprei o bichinho – ponderou Machado.

– Não me lembro mais de nada – lamentou-se José.

Na verdade, o papagaio fora vendido a Jeremias por ciganos ou mascates. Depois, aconteceu uma desgraça e o velho caiu na miséria. Perdeu quase tudo na enchente do rio. E se viu obrigado a vender até o papagaio.

Por acaso Machado e José chegaram juntos à casinha do pobre Jeremias. Exclusivamente para comprar o papagaio. Por insistência dos filhos.

E aconteceu uma espécie de leilão.

– Ofereci uma galinha e você uma cabra.

– E o velho cresceu os olhos.

– Ofereci uma vaca e você uma casa.

Lá fora os meninos brincavam, sem nenhuma preocupação com o passado. A um lado, os rapazes e as moças pareciam mais animados. Sara e a dona da casa falavam de namoros e casamentos.

– Precisamos unir mais nossas famílias – considerou José.

– Sim, meus filhos gostam muito dos seus – completou Machado.

Mais algumas horas de brincadeiras e conversas, e ninguém falou mais no papagaio.

Ao se despedirem, alguns acordos estavam selados. Mais visitas de uns a outros e autorização para fulano namorar sicrana ou beltrana.

Havia olhos e lábios para todos os gostos.
/////

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Glauco Rodrigues Corrêa: Literatura policial com L maiúsculo (Nilto Maciel)


À leitura de Crime na Baía Sul, de Glauco Rodrigues Corrêa, vem a pergunta: o que vem a ser literatura policial? Seria aquela em que o crime aparece como centro motivador da narrativa? Contudo, Dona Guidinha do Poço nunca foi tido como romance policial. Seria, então, a literatura que se circunscreve a narrar crimes? São inumeráveis as obras de ficção, mesmo na fase romântica, que narram, embora às vezes disfarçadamente, fatos criminosos. E aqui tratamos de crime em sentido amplo, ou seja, o ato que fere a moral de uma sociedade. Neste caso, toda a obra machadiana, calcada na infidelidade conjugal, seria rotulada de literatura policial. Aliás, soa mal a expressão “literatura policial”, a não ser que o rótulo servisse apenas àquelas obras onde policiais contracenam com criminosos, vítimas e afins de ambos. Assim, Bar Don Juan será romance policial? Muda apenas a ótica ideológica do autor, pois, neste caso e noutros, a polícia é o bandido e o criminoso vira herói. No entanto, existe outro rótulo: literatura política, de protesto, engajada.

Em verdade, literatura policial é um subtipo de literatura, onde o suspense, o mistério e o crime a ser desvendado são componentes indispensáveis na narração. O leitor permanece “enganado” até o fim, envolvido pelo prazer abstrato, matematicamente calculado pelo autor, no dizer de Temístocles Linhares.

O livro de Glauco Rodrigues Corrêa é, realmente, uma novela policial. A conclusão do leitor, desde o início da leitura até as penúltimas páginas do livro, é a de que o criminoso é aquele sobre quem recaem as maiores suspeitas, embora não seja acusado de nada. Fiel aos lugares-comuns do suspense, o leitor absolve de imediato os primeiros acusados.

Indubitavelmente, Crime na Baía Sul é todo uma perfeita trama. Não do assassino, mas do novelista. Aparentemente, estamos diante de uma verdadeira novela policial, a começar pelo título e pelo próprio rótulo dado pelo autor. A seguir, pelos subtítulos e pelo estilo do personagem-narrador Jerônimo, leitor de livrinhos de bolso, servidor ocioso dos correios na cidadezinha-subúrbio de Santo Anastácio do Roçado, maníaco por escrever uma história como as que lia na repartição.

Até o mais exigente leitor não deixará de ler o livro com atenção e gula. E certamente procurará outras novelas policiais, crente de que sua suspeita não passava realmente de um preconceito.

Sem comparações, Crime na Baía Sul é tão subliteratura como Angústia, de Graciliano Ramos, e outros romances em que o crime é a espinha dorsal da ação romanesca. Trata-se, em verdade, de uma boa novela psicológica e de costumes, atualíssima e cheia de vida.

Tudo estaria bem dito a respeito do livro de Glauco, se transcrevêssemos trechos da crítica feita por Temístocles Linhares ao romance Quem matou Pacífico? Entretanto, basta um trecho: “Mas não estamos – é preciso ir logo esclarecendo – em face apenas de simples romance policial. Há aqui o humano autêntico, o vivido imediato, alguns aspectos essenciais da vida brasileira no interior. O livro é antes uma mistura de romance policial com muitas outras coisas”.

Crime na Baía Sul se diferencia do comum dos romances policiais. Ao contrário destes, a obra em análise tem um personagem criminoso que não deve ser revelado num artigo, a bem de uma leitura inteligente.
/////

De desaparições e de ruínas (Nilto Maciel)



Quando os dragões sumiram
por trás dos montes,
eu me quedei,
olhos fitos nos horizontes empardecidos.
Anoiteceu e ainda pude ver
suas sombras se diluindo,
e, com elas, toda a coorte do castelo:
princesas, fadas, bruxas e duendes.
Incontinenti, ruíram as muralhas
e um pó sem cor se fez no ar,
feito nuvens de tempestade.
Busquei sonhar.
No entanto, o leito não me comportou
e eu me senti tão só
que a noite nunca teve fim.
Tudo desapareceu,
tudo ruiu:
ruas e casas que habitei
e com elas meus passeios;
cadernos de caligrafia
e com eles meus rabiscos;
verbos no pretérito
e com eles o presente e o futuro;
bares onde me inebriei
e com eles meus devaneios;
amigos e seus ais
e com eles a sede de dizer;
amadas e seus olhos
e com elas a fantasia;
meus irmãos e suas vozes
e com eles os motivos de lutar;
meu pai e minha mãe
e com eles o sentido de viver.


Tudo desapareceu,
tudo ruiu,
até que o próprio Deus sumiu.
E então tudo o que fora sólido
se espedaçou;
tudo o que fora festa
se estiolou;
tudo o que fora enigma
se elucidou;
tudo o que fora nobre
se banalizou;
tudo o que fora belo
se embaçou;
tudo o que fora doce
se amargurou;
tudo o que fora sacro
se aviltou;
tudo o que fora eterno
se findou;
tudo o que fora vida
em morte se tornou;
tudo o que fora meu
roubou-me o tempo
e eu afundei num poço
em que não creio.

(9.8.97)
/////

O pião (Nilto Maciel)




O menino atirou à distância o pião e puxou o cordão. O objeto alcançou o chão, com violência, e se pôs a girar. E tão velozmente girava, que Us imaginou estar ele parado. No entanto fazia voltas no chão, num movimento de translação ao redor de um ponto imaginário.

Aos poucos, o giro se fazia mais lento e Us pôde perceber o movimento de rotação do pião.
Mais alguns giros, e o objeto perdeu o equilíbrio. Entrou em desordem, rolou deitado e foi repousar longe do lugar onde originalmente caíra.

O menino atirou-se em busca do brinquedo. Certamente enrolaria de novo o cordão ao redor do pião e reiniciaria a brincadeira. Us, porém, não esperou o novo espetáculo. Devia se sentir satisfeito. E correu para casa.

– Mãe, compra um pião pra mim.

A mulher resmungou sim ou não e mudou de assunto. Fos-se o filho tomar banho. A hora do almoço não tardava. Se não se apressasse, ia chegar atrasado à escola. Us tomou banho com o pião girando em sua cabeça. Duran-te o almoço falou do brinquedo. A caminho da escola repetiu o pedido à mãe.

Mal teve início a aula, a professora chamou a atenção de Us. Deixasse a conversa para a hora do recreio. Ele falava a um amiguinho sobre o pião que iria ganhar.

Para sua mãe, no entanto, aquilo parecia muito perigoso. Mas ele não via perigos, só via piões. E sonhava esquisitices. Um mundo de piões. Todos girando. Nas calçadas, nas ruas, nos telhados, nos ares. A Lua, um pião enorme e lindo. As estrelas, piões do céu, brinquedos dos anjos.

E se a Terra também fosse um pião gigante a rodopiar no espaço? Brinquedo de Deus, aquele ser poderoso das aulas de religião e das missas de domingo.

Mas como os sonhos durassem pouco, durante o dia Us não se continha e fugia de casa para o país dos rodopios. Esquecia-se do tempo, dos estudos, da mãe. Aprendia a soltar piões. Olhos atentos às mãos dos outros meninos. Daqueles felizardos. E pedia, humílimo, para ao menos enrolar o cordão. Negavam-lhe esse favor, essa caridade. Comprasse ou mandasse fazer um pião.

Ora, a mãe jamais lhe daria dinheiro para comprar tão perigoso brinquedo. De qualquer forma, iria ao carpinteiro. Talvez não custasse tanto um pequeno pião. Não custou nada. O carpinteiro com certeza se apiedou do pobre Us.

E toda a felicidade humana se incorporou ao menino. Tão feliz se sentia, que não carecia de platéia nem de elenco para seu espetáculo. Só de palco, do pião e de si mesmo. E se isolava nos becos, nas pontas de rua, nos terrenos baldios.

Havia, porém, um espectador oculto a ver todo o seu sonho rodar no chão. Um velho escultor. Entalhava uma estátua de Deus-homem, e só lhe faltava o coração. Aquele pião talvez ser-visse.

O menino se assustou e agarrou o brinquedo. Não, não venderia nem daria seu pião. Custara-lhe caro. O homem sorriu. Via mentira nos olhos de Us. Contasse a verdade. Ele também tinha sua via-crucis para contar.

Fizeram-se amigos. E o pião de Us acabou incrustado no peito do Deus do velho escultor.
/////

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Carlos Emílio Corrêa Lima: epopéia e mito (Nilto Maciel)



É sabido que os missionários europeus para cá vieram com o fito de exercer a missão precípua de “catequizar” nossos nativos, isto é, extirpar do indígena tudo: idiomas, costumes, crenças. E, em consequência, impor-lhes novo sistema de trabalho, nova língua, novos costumes, nova religião – a cultura dos europeus. É também sabido que a dissensão havida entre o poder político e o poder religioso dos dominadores teve origem na disparidade de métodos de integração do indígena à civilização européia.

Os mitos aborígines foram combatidos primeiro pela persuasão da palavra e, a seguir, pelos castigos corporais, como açoite e castração, e pela morte pelo fogo. Os indígenas, ao mesmo tempo em que assistiam a missa e rezavam orações, continuavam praticando suas abusões.
Os mitos dos antigos habitadores desta terra, que os primeiros navegantes europeus acreditaram ser o paraíso terrestre de que falavam outros mitos, desapareceram, assim, sob o tacão das hordas comandadas pelos monarcas cristãos. Esta seria um pedaço da desaparecida Atlântida – reino que há milênios já se comunicava com as civilizações de outros planetas. Depois veio o apocalipse e tudo voltou à estaca zero.

Em A Cachoeira das Eras: a Coluna de Clara Sarabanda, romance de Carlos Emílio Corrêa Lima, uma coluna desce “os sertões brasílicos na direção do sorvedouro do Renascimento” para reescrever aquele passado mítico. Integram-na Antônio Luís (um ex-bêbado que conhece um macaco) e seus quatro companheiros: João José Ribamar (“Defini-lo, aprisionar sua alma para descrevê-lo é tarefa improvável”), Eduardo Bravo (“Tinha uma vasta criação de coelhos”), Mário Almeida (“ligado secretamente com animais e plantas”) e Augusto Lopes (“uma vez relatou para uma audiência maravilhada que havia irremediavelmente adquirido a doença da carnaúba, uma enfermidade terrível que o levaria para fora do tempo e do espaço presentes”). Há um outro “companheiro de jornada”, que “está ausente”. Seu nome é Ludovico, “filho espúrio do célebre professor austríaco Ludwig Schwennhagen”.

Os integrantes da coluna partem da ilha de São Luís do Maranhão para uma viagem tempo e espaço adentro, no afã de reescreverem a história antiga desse país mítico descoberto por fenícios, árabes, portugueses, espanhóis e franceses. “Olha que isso vai ser um fenômeno igual ao da Coluna Prestes, nossos exércitos, se não agirem logo, vão perseguir por muitos anos uma coluna de fantasmas que levará o país aos fundos de um abismo”, informa, espavorido, o secretário de planejamento do governo.

No decorrer da história vão aparecendo os personagens mais incríveis, como Roberto Carlos, “aquele louco da avenida, sempre metido em latas e calotas de automóveis”, que perambula pelas ruas de Fortaleza; como o Dr. Ociru (o Dr. Urico, jovem psiquiatra); como Albimirom; Heródoto; Alexandre da Macedônia; Saint-Exupéry; Ludwig Schwennhagen; Prestes; e muitos outros. Tudo numa linguagem espantosamente elaborada, num caudal de frases sonoras.

A coluna invencível, de loucos e predestinados, percorre este mundo de mitos, ressuscitando-os e insuflando os povos dos sertões a uma viagem mágica e mítica pelos interiores do tempo. A nova Prestes é Clara Sarabanda, a pitonisa da fulgurante roda-viva, a regente da música do universo em contínuo ir e vir. E o tempo vai rolando e rodando como uma cachoeira.

Recriando os mitos perdidos e elaborando novos mitos, Carlos Emílio se converte numa espécie de feiticeiro e conclama contra si os catequizadores modernos, como a televisão, a serviço dos novos monarcas. Conclamará ainda aqueles que, de outra forma, falam a mesma língua dos inquisidores e, travestidos de santos missionários, pregam a idolatria a deuses estrangeiros.

Com A Cachoeira das Eras a literatura se renova, porque na forma volta às grandes epopéias e no conteúdo retorna ao sistema ideológico de Gonçalves Dias e José de Alencar. Por um lado, faz da literatura algo mais do que mera crônica, por outro, dá à matéria literaturada a dimensão que só a arte pode dar – a dimensão mítica.

É bastante difundida a opinião segundo a qual toda grande obra literária tem seu lugar reservado na Biblioteca Universal. Daí a imortalidade de Camões, Cervantes, Dante. Mesmo não sendo escritores de preferência do leitor médio. As empresas editoriais teriam sempre interesse na edição dessas obras. No entanto, entre editar Petrarca e um Ken Follett qualquer, aquelas empresas preferem este. Afinal, objetivam o lucro, acima de tudo. São fabricantes de livros, como poderiam ser de canetas ou punhais.

A sociedade não tem como exigir a reedição de livro nenhum. A menos que seus organismos específicos se fizessem editores. Como as academias de Letras e os sindicatos de escritores. Porque, via de regra, é o autor o principal interessado na publicação de sua obra. Morto, sua obra dificilmente será editada ou reeditada.

/////

Mônada (Nilto Maciel)

Piscina, águas.
Peixes não nadam,
tudam ninfas.
Bosques apenas
nos meus sonhos.
Corpos se agitam
de pudor despidos.
As águas se alegram
de serem relva.
O vento me lembra
que sou mortal,
líquido pensante,
afeito a dores e desejos
de oceano ser
a morada de vida,
o quase tudo.

(1.11.97)
/////

domingo, 25 de setembro de 2005

Jornal de domingo (Nilto Maciel)

Escondido atrás do jornal, o professor Luiz Vaz passava o domingo. E catava pedras preciosas, por puro deleite. Ou para exibi-las a seus alunos.

Fora-se o tempo de Virgílio, Camões, Bilac. Agora só queria os novos poetas. Nada de vertitur interea coelum*.

Olhos enfiados no chão da folha, Vaz sonhava. Nunca o chamariam velho. Antes, o eterno jovem. O mestre da língua viva. Polêmico, moderno, brasileiríssimo.

Súbita emoção. Arregalou os olhos. Um poema de Noto de Sissa! Leu o título. Uma beleza! O primeiro verso. Um primor!

Com sofreguidão, percorreu todo o poema. Voltou ao título, ao primeiro verso. Releu tudo, cheio de entusiasmo.

***
Na sala de aula, Luiz Vaz freou sua emoção. E amarrou a rubra língua no céu da boca. Queria um comentário escrito de cada aluno ao poema que copiava no quadro-de-giz.

***
Riu na cara dos alunos. Não aprendiam nada. Pareciam idiotas. Especialmente a "crítica" feita por Oton.

– Uma barbaridade!

E se pôs a falar os versos de Noto de Sissa. Pequena obra-prima da poesia épica.

A maioria dos jovens abriu a boca e queda ficou. Um, porém, não concordou com a análise do mestre. E defendeu com língua e dentes sua opinião.

Irritado com a presunção de Oton, o professor tratou de humilhá-lo. Não passava de um aluno, um fedelho. Longe ainda se achava de atingir os primeiros degraus do saber. Enquanto ele, Luiz Vaz, já alcançara o ápice da cultura literária. Ora, exercia a crítica e a cátedra há trinta anos. Escrevia para revistas estrangeiras. Correspondia-se com pessoas do tamanho de Barthes, Foucault, Jakobson.

Oton de Assis nada mais falou. Na verdade, não podia se comparar àquele homem.

E continuou anônimo entre os colegas. Seu lirismo, porém, ainda germinaria páginas tão belas como as publicadas no jornal daquele domingo.

* Entretanto o céu gira. Virgílio, Eneida, Livro II; 250.

/////

Jacob Maciel: Chuva branca (Nilto Maciel)

Antes de ler Chuva Branca, de Jacob Maciel, um dos maiores romances da tragédia do "homo amazonenses" e quiçá um dos momentos mais significativos da literatura americana, ouvi de Adrino Aragão: “Dizem alguns críticos ser Jacob mais um copiador de Guimarães Rosa”. É comum receberem os escritores de província acusações deste teor, mesmo quando conseguem apenas se parecer com os monstros sagrados da literatura, de tal forma que, se outra fosse a situação, diriam: “Vejam como Guimarães Rosa copiou Jacob Maciel!" Chuva Branca é o monólogo interior de um homem perdido na selva amazônica, misturando, na sua doideira de homem-virando-bicho, passado, presente e futuro. É o monólogo interior de um jovem também perdido, mas agora de si mesmo, porque vagando dentro das recordações, dos medos, perseguido pelos fantasmas que o ameaçam de castração, fantasmas incestuosos, malignos. Um homem perdido não só no meio da selva, mas num ponto, num porto-seguro do deserto, do sertão – a casa de seus tios – ele que sempre fora homem-bicho, descobrindo, por meio das confissões do padre (o cristianismo é tão avesso ao nordestino quanto ao índio, porque o nordestino é, antes de tudo, o sucessor do antigo dono deste deserto que antes foi floresta) que "quem tiver coito com animal, será morto", como diz o Êxodo.

/////

sábado, 24 de setembro de 2005

Culpado (Nilto Maciel)


Por que devo, no mesmo dia,
me lembrar dela, tomar café,
escrever poema,
pagar contas, dirigir carro
e, ainda assim, me sentir culpado de tudo?
Por que não posso pensar apenas em outras mulheres,
ficar em jejum, dormir dez horas seguidas,
sem medo de morrer?
Por que tantos compromissos
em tão curto tempo?
Por que tanta pressa, tanta urgência?
Não será possível deixar
tudo para depois?
Lembrar-me dela no outro mês,
tomar café amanhã,
deixar o poema se fazer durante um ano,
as contas em atraso e não sair de casa tão cedo?
Não será possível me sentir sem culpa de nada,
da morte de deus, do fim do mundo?
/////

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Miguel Jorge: Veias e vinhos (Nilto Maciel)

O primeiro romance de Miguel Jorge, Caixote, é livro de um personagem sofrido, constituído de recordações entremeadas de diálogos do presente. Todo o passado ora está contado por um narrador onisciente, ora pelo protagonista-narrador. O presente, tão ou mais povoado de mistérios e sonhos que o seu passado mais rico, não é narrado: são diálogos teatrais, onde os dois personagens conversam, perguntam e respondem, dizem ou tentam adivinhar o exterior do pequeno quarto onde estão confinados. Obra densa, como uma tragédia. Ou uma escultura, uma sonata.

Nas peças O Visitante e Os Angélicos, reunidos num só volume, Miguel Jorge faz reaparecer as personagens sofridas do romance Caixote, em briga de morte com seus pesadelos, seus sonhos, suas mesquinharias, suas covardias. A primeira peça poderia ter sido escrita por Sartre. Não há nela o homem goiano, não estão nela os diamantes nem o monchão. Estão o Anjo, o Demônio, o estranho visitante, o esperado visitante, o príncipe encantado dos loucos, dos perdidos na escuridão da Esperança. A outra peça e bem diferente desta. Já não são duas personagens perdidas num mundo de alucinações e esperas. A técnica de diálogo já não é a mesma de antes. Sobressaem a loucura construída pelo crime dos enriquecidos, a leviandade dos novos ricos, a estreiteza mental e moral dos herdeiros, a hipocrisia. Numa das cenas o pai conta para o criado o crime que cometeu há muitos anos. Como na linguagem cinematográfica, a narração se transforma em cena.


O tema da loucura também é fundamental no romance Veias e Vinhos. Em “Psiquiatria e Subdesenvolvimento” (Revista O Saco nº 2, junho, 1976, Fortaleza, Ceará), José Jackson Coelho Sampaio afirmou: “Nós somos, apenas, receitadores de psicotrópicos do CEME, prescrevedores de eletrochoques, dependências e solitarizações”.

Quando profissionais da medicina se reconhecem “receitadores de psicotrópicos”, da mesma forma como o foram os missionários europeus em sua relação com os povos nativos de outras partes do mundo, apenas desmitificam suas próprias funções.

Sendo a doença mental conseqüência da miséria social, ao diagnosticá-la, ao medicar o paciente e determinar sua internação, o psiquiatra alimenta as causas dela, doença mental, enlouquece de vez o doente, já fisicamente enfraquecido pelo trabalho exaustivo, pela fome, pela inacessibilidade ao lazer. José Jackson escreveu mais: “Caso nosso grupo social permaneça como está, daqui a pouco a mais lucrativa indústria será a da loucura”.E conclui o ensaio: “Ou acabamos com as raízes da loucura, agindo de uma maneira objetiva e revolucionária, ou a loucura acabará por nos transformar num mundo de alucinações e delírios, paixão e morte, som e fúria, choro e ranger de dentes – espectro de mundo”.

Porém a psiquiatria não pode ser confundida com determinada prática psiquiátrica. Falamos daqueles médicos que, em conluio com a direção da empresa, a pretexto de curar o alcoolismo, por exemplo, receitam drogas ao paciente e terminam fazendo desenvolver nele doenças mentais incuráveis. Livra-se, assim, o patrão do trabalhador de baixa produtividade, espécie de animal de carga já sem préstimo. Ganha a previdência estatal mais um dependente.

E onde fica o técnico da psiquiatria? Recebe o pagamento pelo serviço prestado. Mas, se tem consciência da mesquinhez de sua função, pode perfeitamente abandoná-la, sem renunciar à sua ciência.

Aos padres, para se redimirem de seus crimes, cabia cuspir na coroa do rei, queimar a batina, pintar-se de urucu e desferir flechas sobre a soldadesca branca. Ou nem precisavam desnudar-se, como o fazem alguns deles.

A polícia, instituição repressora por excelência, ostenta o emblema de guardiã da segurança pública, mas aos seus servidores não resta outra opção senão abandoná-la, se não quiserem continuar exercendo a função de carrasco.

A discussão que emerge da leitura do romance Veias e Vinhos, todavia, não chega a ser esta. O livro não trata dessa desmitificação, tema mais ideológico do que político. Não vai tão a fundo, permanecendo na crítica à prática da ideologia da repressão. Não condena a polícia enquanto instituição ideologicamente repressiva, mas enquanto instituição afastada de sua função principal. Não aborda a questão essencial, ou seja, a de que esse afastamento não é ocasional ou característica desse ou daquele país. A polícia, se comete erros, se pratica injustiças, se encarcera e tortura inocentes, se escamoteia os crimes praticados por seus servidores, não o faz apenas aqui e ali, dependendo do grau de corrupção de seus quadros, mas por sua própria natureza. A segurança por ela perseguida é a que garante a sobrevivência do sistema.

Assim, cometida a chacina que dizimou a família de Matheus, com exceção da pequenina Ana, à polícia cabia encontrar o criminoso e entregá-lo à Justiça, sobretudo porque o crime alertou a população. Para que o mito não se desfizesse, urgia capturar o criminoso. Contudo, como fazê-lo, se o facínora é policial de alto escalão? Surge, então, a necessidade de se encontrar um bode expiatório.

Tenha se servido Miguel Jorge de fato verídico, para a partir dele elaborar a história, tenha imaginado tudo, não interessa nem ao leitor nem ao crítico. Na verdade, a clássica figura do bode expiatório escamoteia a verdadeira face da polícia e da Justiça.

Ao escrever Veias e Vinhos, o romancista seguramente pisou nos calos da instituição polícia. No entanto, terá despertado o leitor para o subterrâneo da repressão, tal como o fez aquele filme do cidadão acima de qualquer suspeita? Aliás, o próprio título tocava a chaga encoberta, o mito.

O grande mérito do romance de Miguel Jorge está na sua elaboração, na caracterização dos personagens, do ambiente, do tempo em que é narrada a história. A figura de Ana, por exemplo, aparece como uma das mais exuberantes de toda a literatura de personagens infantis, sobretudo porque criança de berço, sem vocabulário ainda. O romancista consegue transformá-la em personagem significativa, de força, utilizando o monólogo interior, numa descoberta excepcional para a literatura. Ana e Mário, seu irmão adolescente, se mostram como os personagens mais firmemente criados por Miguel Jorge. Além deles, as figuras de Matheus, Antonia, Pedro e Altino da Cruz aparecem nitidamente no enredo.

Veias e Vinhos é, assim, realmente um retrato brasileiro, pois elaborado a partir de personagens e ambientes brasileiros. Nesse aspecto, um romance de combate também. Seria, porém, ufanismo às avessas chamá-lo de retrato brasileiro, apenas por narrar a história de um crime hediondo e suas conseqüências.

A figura do capitão, grotescamente pintada em alguns capítulos, não deixa de ser semelhante à de qualquer policial, por sua truculência, sua imponência, seu poder. Sendo caricatura, talvez por isso deixe de ser o personagem principal que é. Encarnação do diabo, causador de toda a trama infernal que levou à morte, à prisão, à tortura, à loucura tanta gente, aparece sem alma, sem a aura de sua função. Ao leitor, apresenta-se como um personagem satânico. Esse satanismo, entretanto, não é representado como conditio sine qua de sua função, como se o inferno fosse obra de um satanás. Na verdade, o inferno mitológico existe não por obra de diabos. Pelo contrário, estes se criam para povoar aquele. Da mesma forma, a Terra não existe porque existe o Homem. Pelo contrário, este é produto dela.

Por silogismo, dir-se-ia: Miguel Jorge inverteu os papéis. Um capitão do diabo teria sujado de sangue o nome da polícia e da Justiça, quando, na verdade, simplesmente se excedeu na prática da repressão. Insultado – e é crime insultar um policial, sobretudo o de alto escalão – restava punir o insultante, o criminoso Matheus. E o puniu como lhe pareceu melhor. Puniu como policial. Sem cometer crime algum, segundo sua compreensão do mundo.

/////

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Noturno de Chopin (Nilto Maciel)


Invisível pianista
dedilhava de Chopin
um noturno, e era dia.
Eu talvez tivesse apenas
oito anos ou bem menos.
Debruçava-me no muro,
para a serra me voltava,
sem saber de melodias.
Entretanto, vi minh’alma
e o tormento dela em mim.
Cães vadios pela rua,
no quintal galinhas, bichos;
alto o Sol a nos brilhar.
Parecia imensa a igreja
de onde Deus nos espiava.
Ó desejo de tocar
o invisível instrumento,
de noturno me tornar,
ser Chopin, chorar talvez.
Em verdade eu lastimava
desenganos do porvir.

28/7/2001
/////

domingo, 18 de setembro de 2005

A reunião (Nilto Maciel)

Os homens se acomodaram ao redor da grande mesa. Falavam baixo, cochichavam, mãos postas sobre a tábua ou os papéis. Que notícia traria o Presidente? Teria alguma relação com a morte do vereador de Sapoapé? Não, Sapoapé não – Cipoaté. Ou com o nascimento do cabrito com duas cabeças? Possivelmente não. Aquilo interessava muito mais aos biólogos do que aos políticos.

Um ou outro alisava garrafinhas com água e copos. A luz das lâmpadas no teto não provocava sombras. Súbito a grande porta se abriu e por ela entrou o Presidente, boca cheia de sorrisos e bons-dias. Os ministros se levantaram de uma vez, como se tomados de repentino susto. Estrépito de cadeiras arrastadas no chão. O coro de vozes roucas retribuiu a saudação. A autoridade maior se sentou e, com um aceno, autorizou o sentar-se de seus auxiliares. Olhos fitos no rosto do comandante, os homens nem sequer piscavam, paralisados, imóveis, inertes. O que diria o chefão? Sapoapé, Cipoaté, cabrito, vereador? Olhar vidrado, ele engolia palavras, sem mastigar. Um ou outro ministro cruzava as mãos suadas. Nenhuma sombra se mexia sobre a mesa, nas paredes, no chão. E nada de o mandachuva abrir a boca. Ao longe, garçons cochilavam, surdos e mudos. A ponta do sapato de um cupincha encontrou a ponta do sapato de outro cupincha à sua frente. Arregalaram os olhos. Qual o significado daquilo? Estaria ficando louco? Retirasse o pé dali, imediatamente. Deixasse de gracinhas. Alguém ousou levar as mãos a um copo. Reprimenda geral, com os olhos. Não fizesse aquilo. Deixasse a autoridade se servir primeiro. O silêncio fazia ouvirem-se os mais remotos e insignificantes ruídos: na boca de um, nos lábios de outro, a respiração de fulano. Olhares se cruzavam de ponta a ponta. O do vizinho à esquerda do chefe fulminava o sétimo à direita dele. O terceiro à direita piscou discretamente para o quinto da coluna frontal ao frontispício central. Por que o homem não falava nada? Teria perdido a fala? Estaria dormindo? Seria sonâmbulo? Teria enlouquecido? E se o interpelassem? Quem o faria? Não, ninguém ousaria interromper o sono do Presidente.

A mim cabia somente filmar a reunião. E também nada dizer ou perguntar.

Fortaleza, agosto de 2005.
/////

sábado, 17 de setembro de 2005

Se me chamares fogo (Nilto Maciel)

Se me chamares fogo
eu te labaredas.

Se me quiseres água
eu te correntezas.

Se me julgares vento
eu te tempestades.

Se me disseres pedra
eu te porcelanas.

Se me chamares chão
eu te profundezas.

Se me quiseres noite
eu te estrela Vésper.

Se me julgares pássaro
eu te vendavais.

Se me disseres corvo
eu te Allan Poe.

Se me chamares serpe
eu te paraíso.

Se me quiseres corda
eu te Tiradentes.

Se me julgares diabo
eu te tentações.

Se me disseres anjo
eu te candelabros.

Se me chamares deus
eu te eternidade.

Se me quiseres louco
eu te poesia.

Se me julgares santo
eu te crucifixos.

Se me disseres vida
eu te funerais.

Se me chamares mito
eu te tecelões.

Se me quiseres pródigo
eu te ancestrais.

Se me julgares hoje
eu te amanhã.

Se me disseres sempre
eu te nunca mais.

Se me chamares vem
eu te seguirei.

(28.12.1999)


////////////////////////////////