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terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Carlos Augusto Viana: Voo ao fundo do verbo (Nilto Maciel)

(Carlos Augusto Viana)



Quando Carlos Augusto Viana estreou em livro, com Primavera Empalhada, a crítica o saudou como uma revelação na poesia cearense. Dimas Macedo, no artigo “Uma Nova Dicção na Poesia Cearense”, fala de “um livro cheio de metáforas e de símbolos, e que traz, na sua textualidade, algo de novo para comunicar ao mundo”. Mais adiante, o crítico afirma: “Seus poemas estão repassados de evocações e de sutilezas semânticas, ao mesmo tempo em que ricos de sugestões e significados”. Passados 20 anos, Carlos Augusto apresentou seu segundo livro: Inscrições dos Lábios. Ao leigo pode parecer que o poeta andou este tempo todo longe da Poesia ou do fazer poético. Na verdade, Carlos esteve sempre dormindo e sonhando, caminhando e descansando, comendo e bebendo com a Poesia, lendo e ouvindo Poesia. Exigente ao extremo, não se deixou conduzir pela mão da facilidade, da pressa e da vaidade. Anos a fio, teceu e desteceu túnicas e mais dalmáticas, pintou-lhas, recortou-as, lavou-as – até sentir prontas as obras da sua tecelagem.
Apesar da paciência de Penélope, este tecelão de palavras e versos não é um resignado e, muito menos, um amealhador de migalhas. Não repele formas eruditas, como a do soneto, a metrificação dos mestres, a estrofe clássica e a rima, sem demonstrar jamais se ter aprisionado às regras. Todo verso parece ter sido elaborado com naturalidade, isto é, sem ceder às tentações de amoldar as palavras dentro das fôrmas. Poesia, como se sabe, nada tem de natural, espontâneo, de sem trabalho. O poema, para ser composto, requer do poeta dedicação, mão-de-obra, suor. É marcenaria, tecelagem, ourivesaria.

Num dos poemas, o poeta chega ao requinte de escalar toda a escada de grupos de versos, partindo do dístico, passando por tercetos, quadras, quinários, sextilhas, sétimas – num crescendo – até atingir a estrofe de 13 versos. E neles não se vê um adjetivo posto por imposição da medida.

Carlos Augusto Viana não é um poeta resignado, submisso. Não veio ao mundo para viver de olho no próprio umbigo. Conhece e venera outros poetas, os mais variados temas, a poesia da poesia. Vai do amor filial ao amor à mulher. Inicia o livro com uma “Cantiga de Desconsolo” – lembrança do pai –, completada com “Visita a Meu Pai”. Canta o amor num lirismo de namorado: “Teu corpo / incendeia os hectares da canção” (p. 20). Vai da casa (a origem, o útero, as “vigas da infância”) ao mar, ao vento, ao crepúsculo, à noite. “Memorial da Noite” é um monumento de versos e imagens, com seus “cardos de espanto”.

Dedica a nove poetas de sua predileção e amizade verdadeiros salmos. De Jorge Tufic lembra o “gume cego das letras”, o grande rio, os pássaros, as árvores. Leitor voraz de Francisco Carvalho, celebra-o num poema memorável, autêntico banquete para deuses, no qual se cantam (com guitarras mouras) os temas mais caros ao poeta de Quadrante Solar. José Alcides Pinto é cantado pelo rio Acaraú, pelos abutres, pelos siris, pelo dragão, pela insônia, pelos cantos de Lúcifer, pelos patrupachas e outros temas contidos na vasta e prodigiosa obra do poeta de São Francisco do Estreito. Linhares Filho é homenageado pela voz das coisas, por suas andanças e marinhagens, pelo amor e outros temas. Artur Eduardo Benevides é lembrado como príncipe (“O sonho é teu império”) em poema majestoso: “Tua poesia é um circo / engravidando a tarde”. Seguem-se Campelo Costa, Martônio Vasconcelos, Ricardo Lincoln e o saudoso Rogaciano Leite Filho, em “sono sem tréguas”.

Carlos Augusto Viana não é um amealhador de migalhas – nada em sua poesia é miúdo, minúsculo, pequeno. Ao contrário, ele amealha tesouros, jóias cobiçadas por piratas e princesas encantadas: o mar, a noite, o sonho, a poesia. O poeta não amealha, mas oferta iguarias do mais requintado banquete de poesia: palavras, versos, imagens, poemas de sabor dionisíaco.

Inscrições dos Lábios é um hinário de poesia. Tudo nele é voltado para a palavra poética, a poesia. E, ainda assim, um instante de dúvida: “O que cantar? Os outros poetas / já confiscaram todos os rios, / beberam / o último mel da infância” (p. 23). No poema a Jorge Tufic a referência à poesia é constante. Assim também em poemas “menores”, como “Dos Crimes Impuníveis”: “No poema, a palavra / nunca se resume a si mesma” (p. 72), ou “A Falta”: “Um verso / como um crime” (p. 74).

Um dos momentos substantivos deste livro é o longo poema “A Letra de Francisco Carvalho”, obra harmoniosa, sinfônica, composta por quem leu e bebeu da mais alta poesia, que é a do poeta de Os Dias Maduros – e dela se embebedou, definitivamente.

A poesia abissal de Carlos Augusto Viana, em Inscrições dos Lábios, pode ser lida e tida como um vôo ao fundo do verbo e do verso, nos dois sentidos: para o alto – o cimo da poesia – e para o fundo, onde jazem a luz e a treva, o silêncio e o canto, o claro e o escuro, o cognoscível e o indecifrável.
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