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terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Esses abraçadores da morte (Nilto Maciel)


Ao cimentar o último pedacinho de chão do quintal, o pai do inocente Joãozinho teve a primeira grande raiva de seu prodigioso filho.

– Por que você fez isso?

– Para acabar com os formigueiros, ora essa. Assim, elas (elas, quem?), as formigas nunca mais vão encher meu saco.

– Pois eu gostava muito delas.
O homem fechou a cara, datou seu trabalho, assinou, mandou o menino calar a boca e sumir.

A resmungar, guardou a colher, deu mais uma espiada para o antigo quintal e correu a lavar-se.

– Pai, quando eu crescer quero ser zoólogo.

O dono da casa só faltou correr nu pela casa. Não ia criar gente para estudar bicho. Mudasse de idéia imediatamente, se não quisesse apanhar.

A criança tremia de medo, chorava, agarrava-se à saia da mãe.

– Deixe de brutalidades, homem. Parece até que o coitado disse alguma heresia.

E não parou mais de falar. Quem sabe, o menino ia revolucionar a Ciência, descobrir a origem do homem.

Seu primeiro livrinho dos animais, Joãozinho devorou num instante. Queria outros, mais difíceis.

– Esse nem de formiga fala. Ou formiga não é animal?

Vieram as enciclopédias, e o futuro zoólogo aprendeu mais. Desejavam que falasse sobre tamanduás? Teve vontade de conhecer todas as espécies de tamanduás e necessitava de enciclopédias especializadas. Adquiriu-as seu pai.

Desconfiado dos ensinamentos enciclopédicos modernos, reclamou as obras antigas, raras, clássicas da zoologia. Relacionou-as: Maravilhas da Criação, de Posser; História Natural do Brasil, de Marcgrav; História Natural dos Três Reinos da Natureza, de Lourloup e Duval; Climats, Geologie, Faune et Geographie Botanique du Brèsil, de E. Liais. Redescobriu autores há muito esquecidos: Walppoeus, Martius, J. Luccook.

Passados uns trinta anos, sua mãe já morta, seu pai caduco, ainda lia sem parar, ainda gastava tudo com livros de zoologia. Desde há alguns anos se havia voltado para o estudo específico dos tamanduás. Gavetas, pastas, estantes, malas cheias de apontamentos. Prometia dar a lume o mais completo estudo sobre os tamanduás. Não uma enciclopédia, mas um ensaio revolucionário que solucionasse para sempre a polêmica: seu alimento natural, instintivo eram formigas ou cupins?

Não chegou a escrever o ensaio, porém um esboço dele publicou-o num jornal.

“Este animal, cujo nome é de origem tupi (tamãdu’á), é de natural admiração: é um mamífero desdentado, aliás o único desdentado verdadeiro, da família dos mirmecofagídeos (Myrmecophaga tridactyle L.), segundo alguns especialistas (e aqui reside toda a minha dúvida, como vou expor mais adiante, ou a parte mais importante de minha tese, posto que mirmecófago quer dizer “que se alimenta de formigas”, e outros estudiosos afirmam alimentar-se ele de cupins). O tamanduá é do tamanho de um grande cão, mais redondo que comprido, de acordo com vários zoólogos, ou de corpo alongado, conforme outros, e o rabo será de dois comprimentos do corpo, além de preênsil, e cheio de tantas sedas, ou seja, pilosa, que pela calma, e chuva, frio e ventos, se agasalha todo debaixo dele sem lhe aparecer nada. Outra característica sua está em que a cabeça é pequena, o focinho delgado ou longo e tubuliforme, nem tem maior boca que de uma almotulia, redonda, e não rasgada, e a língua protrátil, delgada, comprida e cilíndrica será de grandes três palmos de comprimen-to e com ela lambe as formigas ou os cupins de que somente se sustenta: por isso mesmo, é diligente em buscar os formigueiros ou cupinzeiros, e com as unhas, fortes, embutidas nas patas, que são do comprimento dos dedos da mão de um homem o desmancha, tal qual um gato sobre uma ninhada de ratos, e deitando a língua fora, uma língua finíssima, daí também o terem chamado os tupis de cumbiri, pegam-se nela as formigas, ou os cupins, feito moscas no mel, e assim a sorve, gulosamente, porque não tem boca para mais que quanto lhe cabe a língua cheia delas; ou deles. O tamanduá, além disso, é de grande ferocidade, se atacado, e acomete muito a gente e animais. As onças lhe hão medo e ele também devota horror a esses felinos, tanto que, ao avistar tais carniceiros, deita-se de costas e abre os braços. A fera salta-lhe ao pescoço, crente de poder estrangulá-lo facilmente, e ele dá-lhe um apertado e furioso abraço, desesperado, e ou morrem ambos ou ela não escapa. É o chamado abraço de tamanduá. Têm-lhe medo, por isso, tais feras e os cães sobremaneira e qualquer coisa que tomam com suas unhas espedaçam; aos tamanduás, porém, não se comem, e ai de quem os comer, nem prestam pa-ra mais que para desençar os formigueiros ou cupinzeiros, e são eles, uns e outros, tantos na terra, que nunca estes animais os desbaratarão de todo. A menos que se tomem providências para a sua infinita multiplicação.

Pretendo brevemente resolver a questão do alimento básico, natural e instintivo dos tamanduás, a partir de alguns apontamentos. Se eu optar pelos cupins, o poeta Porto Alegre e seu poema “Colombo” estarão definitivamente destruídos. Pois todos hão de conhecer pelo menos estes versinhos:
“Hirsuto tamanduá saltando a língua
à formiga, flagelo da cultura.”

Escreverei então o “Novo Colombo”, quando arranjarei versos como os seguintes:
“Peludo tamanduá saltando a língua
aos cupins, os horrores das alturas.”

De uma forma ou de outra, terei cumprido minha missão e todos poderão me chamar de o criador da tamandualogia, o primeiro tamanduálogo ou tamandualogista.”

A publicação deste artigo, transcrito aqui em parte, foi o estopim da desgraça de João Formiga Filho. No dia seguinte, seu próprio pai o conduziu à força a uma clínica psiquiátrica. O Doutor Gentil diagnosticou: havia enlouquecido o promissor estudioso dos tamanduás.

Na imprensa, nas revistas especializadas em zoologia, na Associação dos Zoólogos estourou a polêmica. Um ferrenho defensor da tese de que os tamanduás se alimentam basicamente de cupins culpou os formiguistas (designação pejorativa dada aos seus opositores) e as próprias formigas pela demência de João. Um dos difamados, em defesa de seus pares, chamou os cupinistas de gênios do mal, destruidores de talentos, inimigos da Ciência e da sanidade. E aos cupins de depredadores da natureza vegetal e humana, praga inominável da vida. Um terceiro grupo, formado por estudiosos de formigas, cupins e outros insetos, desculpava formiguistas e cupinistas e acusava não a homens nem a insetos, mas tão-somente aos tamanduás, esses abraçadores da morte. E explicavam: foram eles, esses monstros desdentados, que levaram o cientista João Formiga Filho à loucura. Sua pobre mente humana não suportou tantos amplexos de traição e padeceu sufocada. E por que isso?
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