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sábado, 28 de janeiro de 2006

Gesta do Jaburu (Nilto Maciel)




De longe, todo cristão crismava de tapera aquela cabana, não fosse ela coito de capangas desses coronéis de meia pataca – fortim pelas armas em que se sustentava e pelos cabras que abrigava. E pra invadir tão bem arrumada arapuca, nada como a manha de um velho caçador de cangaceiros, neto de bandeirantes. Primeiro a obediência muda, porque palpite é coisa boa de dar, feito cascavel dentro de balaio. Fosse acreditar no que a vista enxerga, não tinha passado dos cueiros. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, a não ser a quem não os toma.

Coronel Pedro Ramos rabiscava no grande chão a estratégia que não traçou aos pés – um pra cá, rifle em ponto de bala: Cafinfim; pelos fundos corresse Jão Birro; se postasse pra esquer-da Zé Moreno; opostamente, Chico Preto; mais atrás perto ficasse Zé Luís. E Caetano? Arrodeasse a mira aos papocos, mas só na hora do sinal.

Cercava-se a casinha de Manéu Calixto.
***
Terreiro limpo, batido de pé de galinha, focinho de porco, samba de sanfona. Ao derredor, gravetos velhos, empatando ver a mataria, pai e mãe. Romão e Tinha corriam bichos, cavalo atrás do boi, línguas de fora, espinhos que não tocavam gibão nem couro de rês. E nem viam os sete cavaleiros do outro mundo tomando conta das cercanias – relincho besta acabou com a brincadeira.

O boi parou o cavalo-vaqueiro, tudo virou verde, a mata estremeceu. Visage, sinha Tinha. Grito não saiu de nenhuma boca e o ensaio terminou pros assistentes.

O bando sem louvar nem rabicho nem tungão nem aboiador rodeou Romão e Tinha. O coronel perguntou pelo dono do tijupá. Engoliram a língua, os moleques.

Nada se mexia no mundo: cabana fincada no meio do terreiro salpicado de bichos e povo, terreiro cercado de mato feito roçado, galinha, cabra, pato aqui e acolá, Romão pé ante pé, mão grudada na da irmã, coronel bigodudo, durão, em cima do cavalo, Cafinfim à moda de capataz, Jão Birro mais atrás, Zé Moreno na aba esquerda, Chico Preto na direita, Zé Luís assim meio com medo, Caetano caía não caía em riba do animal rodopiando.

Romão correu puxando Tinha pros fundos da casa e, na confusão, alvoroçados, sapateavam e relinchavam os cavalos de verdade. Não sei quantas veredas se abriram detrás dos cavaleiros, que uniram as ancas dos animais, formando um setestrelo. Em upas e upas, fizeram um montão de capim descomido no meio do aglomerado, soterrando um galo escanchado numa galinha.

Os olhos do mato queimavam as ventas dos cavalos. Da fogueira recendia a tarde cedo. Correr atrás daqueles dois pestinhas. O coronel sofreou o capitão Cafinfim, homem corajoso como o diabo. No vai não vai, desgrudou-se a estrela de sete cabeças e o mundo virou uma barafunda. As de Jão Birro espantaram as galinhas, soltando nomes feios pelas fuças. A janelinha de espiar histórias de trancoso convidava Zé Moreno e seu fogoso animal pra uma fugida. Entrar por aquela brecha aos emboléus. Melhor do que janela era o telhado de palha pro Chico Preto atear fogo. E Zé Luís saiu trotando, tremendo o chão, cercando o tempo de olhos. Caetano desapeou, correu pra um canto, acocorou-se e acendeu um cigarro. Não ia haver nada, não, seu povo!

***
O cavalinho e o boizinho esticaram pra de junto do pai. Que diacho era aquilo, seu Deus do céu? Manéu cruzou uma perna noutra e escorou as costelas no cabo da enxada. Cobrinhas correram com medo da estrepolia. Iam era pro mato. Quem espera por tempo bom é vazante.

Não havia cuspe que melasse aquelas línguas de papagaio, nem cantador no mundo que ensinasse palavra àqueles capetas. E Manéu querendo saber tintim por tintim uma história bem de verdade contada por aqueles olhos de quem viu assombração. Sacolejava o cabrinha e a cabrinha e só via choro e latido do Paturi.

***
Atubibados pelo não sabiam quê, o coronel e seus cabras basculharam as cercanias da terra. Existiram ou não houveram um menino e uma menina? Um garantia que caipora podia até ser. E pediram fumo? E só quem tinha uma lasca era o Caetano, aquele peste, em tempo de desgraçar a vida deles. Mandasse o coronel o metido pros infernos, antes que cometesse outra desavença. Fugir de lá enquanto fosse tempo. O coronel até riu do despropósito – fugir com medo de assombração, só se não tivesse nascido daquele jeito. Ou havia debaixo daqueles tungões quem não fosse macho? Mostrassem os ovos. Ou queriam vestir saia? Cabra seu tinha que ser homem indo e voltando.

Nem caipora nem caipira. Todo mundo no seu posto: fulano aqui, sicrano ali, beltrano acolá, olho na tapera. Enquanto um olhasse pra frente outro visse pra trás, se não desse pra cada um enxergar pros dois lados ao mesmo tempo. Ou despregar um olho da testa e grudar na nuca. Zé Luís pestanejou: aquelas malfeitorias no organismo costumavam cegar os viventes. Mas o coronel não queria ouvir bom-dia a cavalo. A postos, porque deviam chegar homens armados de tolas las bandas. E, pensando bem, melhor era fazer como os cavalos e se ajuntarem de bunda. Dava na vista e pegava mal. Bando de bestas, aquilo não devia ser soletrado ao pé da letra. Conheciam os parangolés da Bíblia? Que Deus o perdoasse se dizia heresia. Entrassem de arriê pra dentro da cabana e cada um assumisse um ponto estratégico: ele mesmo subia pra cumeeira; Cafinfim vigiasse a porta da frente (levava a primeira bordoada, se os tocaiados resolvessem entrar sem um “ôi de casa”); Jão Birro se postasse à janela da frente, feito moça donzela esperando prinspo encantado; Zé Moreno ficasse de tocaia na porta da cozinha; Chico Preto se recostasse na janela do oitão da banda do sol; Zé Luís feito égua na mira da janela da outra parte; Caeta-no no meio do caminho, mascando fumo pra caipora.

***
Na beira do rio, Cordulina esfregava roupa nas pedras, per-nas de fora, cachimbo fumegando e de longe escutou a gritaria de Manéu. E a récua de gente, de cabeça baixa, feito cassacos, se chegando. Inda mais aquela! Coisa mais parecida com desgraça! Fosse ver, era conversa de menino!

Cheia de espuma nas mãos (mãe vinha de mão branca), Cordulina pegava parelha com o rio. Na outra direção, os quatro gesticulavam e engoliam vento: cabras armados, do Coronel Chico Bento, com o diabo nos couros. Não podia entender patavina do que diziam aquelas matracas e papagaios na areia quente. Ciscavam a ribanceira. Mas não havia tempo a perder – ficassem rezando por sua alma que ele Manéu ia sozinho espiar que rebuliço era aquele. Não fosse só, não senhor, chorava a mulher, esperneavam os filhos, latia Paturi.

O Jaburu cabriolava dourado no meio da tarde.

***
Surgido da mata, um bicho avançou sobre o bando do coronel, pronto a tudo esfolar. Dedos ensebados nos pinguelos, a artilharia preparou-se pra pipocar o sertão. A terra tremia na sezão da hora.

Um galo perseguia uma galinha feito um barbatão. Pêi.

***
Manéu apareceu na última curva do caminho, coragem apontada na mira dos pés, gato na hora de enfiar as unhas nas asas do passarinho. Miau, cabra safado. Pisava nos gravetos, feito sabiá enrabichado por cobra. Crau, crau. Fosse, seu bichinho, bicar a ponta do olho aceso da perdição.

Caetano pitava de olhos fechados, montado na carabina de derrubar sanhaçu. Manéu sofreou o passo, puxou a brida dos pés, em tempo de engolir o cano da pica-pau cachimbenta. Boas-tardes, dona cobra. Sondava o estranho, que Paturi acuava. Calmasse lá, caçador de preá. Ia pra onde aquele cabra topetudo? Fazia o quê armado no seu caminho aquele papangu? Vira e mexe, o solzão esquentou os pés de Manéu e a carabina de Caetano. Largasse aquela porcaria e amarrassem as pontas das camisas. Como eram mesmo as graças de um e outro?, ia indo, fosse com Deus.

Manéu deu um passo e mais outro e nem um espere aí. No seu lugar pitava e mais pitava aquele cururu de goteira.

Antes que uma bala plantasse sua cruz na beira da estrada, Manéu inventou de arriar as calças e entupigaitou no mato. Olhou de viés pra trás: Caetano chupava o fumo e resmungava. Que diabo andava querendo aquele cabeça de bater sola? Espiou pra um lado e pra outro, enfiou a carabina no sovaco e abriu a braguilha.

Cordulina, meninos e cachorro avistaram aquilo de longe. Não tinha jeito de Manéu. Fazia parte do bando, jurava Romão. Invenção mais besta! Cristão ariado, necessitando de orientação.

***
Manéu avistou a casa queta, no lugarzinho de antigamente. Mas que bicho era aquele em riba da cumeeira? Devia ser agouro. Ora, mais essa, é um mama-na-égua escanchado na janela, olhando o tempo.

Escondeu-se detrás de um jatobá. Bem capaz de ser verdade a história dos meninos. Zé Luís apontou a arma na sua direção e chamou pelo coronel. Os cabras do Jaburu estavam cercando o sítio.

Alarmados, os capangas largaram seus postos e, no vai e vem, esbarraram um no outro, entre a sala e a camarinha. Ia sair bala à toa, quando o coronel despencou do telhado, feito um saco de farinha, e quase achatava o magote de cabras.

Na zoadeira, toda a mata despertou, e Caetano, sem mais querer saber de conversa com Cordulina, correu no rumo da casa. Manéu ainda quis impedir que a família se metesse no salseiro, mas a mulher encambitou atrás do capanga, arrastando filhos e cachorro, e não ia ele ficar plantado detrás do jatobá, esperando o mundo pegar fogo.

No meio das palhas que arrastou na queda, o coronel limpava os olhos e a barba, atordoado. Jão Birro oferecia o lenço ao patrão, Zé Moreno perguntava se podia matar um cachorro que vi-nha latindo no rumo deles, Zé Luís escondia-se detrás do coronel e Cafinfim assumia o comando provisório da tocaia. Todos a postos: entrava no fortim, arrastando a arma, Caetano, seguido de Cordulina chorosa, Romão de pedra na mão e Tinha de olhos esbugalhados.

Refeito e raivoso, o coronel voltou a arma pros estranhos. Parassem na soleira da porta e dali voltassem, se não quisessem fazer a última viagem. Manéu, que chegava, se viu cercado de carabinas e gritos. Onde andavam os outros cabras? E o cachorro do patrão? Fossem logo arriando as armas, para evitar carniça. Manéu perdeu a fala, amarelou, e Chico Preto encostou o cano em seus peitos. Ficasse pra um canto até que o patrão dele aparecesse. A mulher e os meninos batessem perna, que aquilo não era briga de marido e mulher, não. Agarrados à saia da mãe, Romão e Tinha não queriam deixar o pai sozinho. Manéu recuperou a fala e chamou o coronel de patrão. Calasse o bico e respeitasse: Coronel Pedro Ramos não acoitava cabra frouxo. A fala escorregava pelos cantos da boca do dono da casa, mas esbarrava no pedregulho das carabinas: não desse um pio e escapulisse, se não quisesse ir parar nos infernos. Ao menos arrumar a trouxa, carregar alguns cafiotes. Sim, mas aviasse e nada de manha. Conhecia muito bem aquela raça de bezerro desmamado. Quando menos se espera, o choro vira valentia.

O velho morador do Jaburu retirou-se, arrastando mulher e filhos. O coronel, desconfiado, mandou Cafinfim e os outros vasculhar a região, à cata de capangas do dono daquela tiborna de sítio. Queria logo se apossar de mais um pedaço de terra. E gargalhava e permitia que os cabras se esgoelassem de rir.

***
Rompendo as fronteiras do Jaburu, Manéu arranjava explicações para o gesto do patrão: só se já caducava e não conhecia mais seus agregados, ou então andou escutando intriga de invejoso, ou, quem sabia, ficou doido de uma hora para outra e deu pra tomar as terras dele mesmo. Ou estava com o diabo nos couros?
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