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terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

O desafio de Facundo (Nilto Maciel)


Vicente ria, porque me via apreensivo, toda vez que o bebedor de coca-cola se aproximava de mim.

– Você está com medo desse doido?

Eu realmente demonstrava inquietação, bastasse ver o maluco da rua.

Meu interesse em conversar com loucos é puramente literário. Prefiro observá-los de longe, descobrir suas manias a luneta. 

Com o bebedor de coca-cola afoitei-me.

– Por que você bebe tanto isso?

Sua resposta me deixou tonto, perplexo e, ao mesmo tempo, penalizado dele: É para me lavar por dentro. Ando sujo, como todo mundo. Não bebo cachaça, com medo de perder o juízo.

Antes de se embriagar e se tornar triste, revoltado, pessimista, Vicente passava por duas fases: na primeira, parecia alegre, contava seu mais recente passado, o dia findo, a semana, no máximo; na segunda, se achegava ao mais presente do presente e até arriscava prever os próximos minutos.

– Eu quero é cegar da gota-serena se o Helvécio não estiver falando mal de mim. Quer apostar?

Numa dessas olhadas para o seu derredor, quis saber minha opinião a respeito do dono do bar.

– Um tipo quase pitoresco, como aquele doido que bebe coca-cola como se bebesse cerveja.

Gostou do pitoresco e do resto da frase, mas não podia esperar uma resposta como aquela. Porque existem tipos interessantes em demasia. Eu mesmo podia ser tido como um deles. E se perdeu num labirinto de considerações e descrições, esquecido já do próprio Helvécio.

Antes de abrir a boca, eu havia estruturado outra frase: um judeu dos primeiros tempos do capitalismo. A figura do maluco me surgiu ao imaginar um judeu europeu dos séculos passados e resolvi não pronunciar as palavras inicialmente escolhidas, apenas para evitar que Vicente passasse a discursar em voz alta: a merda desse capitalismo...

Não sei se antes ou depois disso, Helvécio denegria alguns de nossos conhecidos, entre eles Vicente.

– Um bebarrão ignorante. Fala mal de todo mundo e não repara nem as dívidas que faz.

Não me pediu opinião. Apenas parou de esbravejar e se pôs a olhar para mim, como se me inquirisse: É ou não é?

– Eu não compro fiado, mas também meto o pau no governo.

Achei por bem não me referir diretamente a Vicente, nem tocar em bebida, apesar de as palavras engolidas terem sido: “Bebarrão, não, porque, se for assim, seus filhos são bebarrões também.” “Não insulte meus filhos, veja como se expressa.”

– É, mas você não fala à toa, sabe distinguir o certo do errado.

Aquela minha audaz indagação feita ao doido, arranjei-a e aprimorei-a durante mais de um mês. A primeira versão dizia: você gosta dessa porcaria? Talvez ele não a entendesse e até ficasse calado. Podia imaginar que eu me referisse à sua vida. Ou mesmo à cidade, ao bairro, à rua onde morávamos. Modifiquei-a, a seguir, para: você gosta de beber essa porcaria? Se ele bebia, era porque gostava de coca-cola ou porque gostava de bebê-la. Poderia me responder simplesmente: Gosto. E eu não saberia de que gostava.

Fui reconstruindo a pergunta: por que você gosta de beber es-sa porcaria?, por que você gosta tanto de beber essa porcaria?, por que você bebe tanto essa porcaria?

O não mencionar o nome da bebida grudou-se-me feito nódoa na camisa. Bastava ver o pobre doido para me sentir alvo de sua loucura. Poderia me rachar a cabeça com uma garrafada. E Vicente fez a pergunta como se me acusasse de um crime. Não olhava para meus olhos ou minha boca, mas fitava meu peito, como se ali estivesse o segredo, a solução. E ria sempre, como se suas palavras ecoassem: medo medo medo.

Ri também e me controlei. Organizei a resposta: a loucura só dá medo ao sistema.

Tencionava discorrer sobre a relação entre poder e anarquia, ordem legal e desordem social. Um discurso violento e radical. E calaria a boca dele. Nenhuma ordem temia o discurso anárquico de qual quer bebedor de cerveja. O álcool dos rebeldes não incomoda a lucidez dos poderosos.

– Andei mexendo com ele.

– Tirou coca-cola da boca do coitado?

– Não sou perverso. Seria o mesmo que tomar mamadeira da boquinha de nenen.

Muito mais tarde, compreendi a vulgaridade dessas duas frases e imaginei um diálogo inteligente, a partir da segunda indagação de Vicente, se houvesse respondido assim: o tratamento dado por um homem rico a um pobre, estudado a um rude, de alta estatura a um de baixa, etc., é comumente maléfico, por mais humildes que sejam os primeiros. Há sempre perversidade nessa relação, por mais humanistas que sejam o burguês, o diplomado, o gigante. Porque analisar, estudar, perquirir, tentar conhecer outrem é, em essência, um ato bárbaro, egoísta, desumano.

– Então, o que você fez?

Se outro o rumo dado por mim à conversa, qual a importância da especificidade de minha ação? O egoísmo existe na mãe ou na babá que corta ao meio o prazer bucal da criança; no burguês que dá uma esmola; no escritor que se compadece da personagem, sua ou de outro, que nunca bebeu champanha; no homem que alisa os cabelos do menino.

Esperei eras pelo momento de ver no bar do Helvécio o Vicente e o doido. Minha intenção: embriagá-los e fazê-los abraçarem-se, ao som de um baião. O cenário: fotos do Padre Cícero, da Seleção Brasileira e aquele imenso cartaz da Coca-Cola. Não seria apenas a encenação. Eu fotografaria o instante para capa de um romance: O Reino do Verbo.

Ao vê-los, não paguei nenhuma bebida. Desafiei-os para uma partida de bilhar. Eu contra os três.
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