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sábado, 18 de março de 2006

O oráculo (Nilto Maciel)




Guilhermartins orgulhava-se de sua sem par biblioteca, que de vez em quando aparecia na imprensa. Dizia o colunista social: O intelectual Guilhermartins, dono da mais rica coleção de alfarrábios, jantava ontem ao lado da bela Antonieta Brochado. O repórter vulgava: Chega-se a duvidar da existência do Tratado do Amor do Diabo, de Abulcámim Abdelhákem, tal a sua raridade.

Ao lado das fileiras de franceses, brasileiros, javaneses, acumulavam-se pilhas de revistas e jornais: O Chauffeur Moderno, Revista do Foot-Ball, O Positivista Mineiro, Diário da América, Gazeta do País, Revue des Cinq Mondes, Il Fanfulla, La Hacienda, The Marine Engineer e outros.

Perguntado em que cousas gastara seu tempo enquanto vivera, disse que lera desde A Aarônica Aba Ababá, novela mentirosa sobre os costumes dos índios ababás, escrita pelo cearense José de Alenquer, até Zwinglio Zuruó, biografia moleque de autoria do soviético Alexey Chirikov.

Perguntado quanto tempo havia que era leitor, disse que havera oitenta ou setenta e nove.

Estas e outras perguntas e respostas encontram-se publicadas nos jornais, assim como as segundas, um tanto modificadas, como afirmações de outras pessoas, em periódicos mais antigos. Por exemplo, é da edição de 27 de novembro de 1937 do Diário da América o seguinte trecho do pesquisador Salomão Souto: “A Aarônica Aba Ababá, novela fantástica sobre os costumes dos índios ababás, foi escrita por José de Alenquer.”

A primeira refeição de Guilhermartins consistia de café com manchetes. Um gole aqui, um golpe ali, um sorvo agora, um corpo morto no canto da página, uma sorvedura apressada, uma ditadura derrubada. Dos títulos passava às matérias e o golpe se enchia de sangue, estrelas, tanques nas ruas, pronunciamentos, prisões, decretos, viva o general.

Esse hábito de não comer pão nem mamão, leite ou azeite após o sono se constituiu ao longo de décadas de falta de tempo para fazer uma refeição mais rica, porque apetite não lhe faltava, nem sua fazenda parecia pequena.

Vivendo assim, não podia sonhar senão realidades, quer dizer, realidades futuras, fatos vindouros, porém logicamente relacionados aos do passado dia. Assim, se antes de pegar no sono lia sobre o nascimento do filho da princesa, no sonho lhe aparecia a relação dos prováveis nomes reais do infante às mãos do príncipe. Pulava da cama, agarrava os jornais e ria de mais um crime da imprensa – todos copiavam seus sonhos.

Entre suas previsões mais assombrosas citam-se o lançamento do Sputnik, a destruição de Israel, a publicação de A Cachoeira das Eras, de Carlos Emílio Corrêa Lima, e a morte de Stalin.

Um crítico, de sua amizade, chegou a chamar-lhe de o oráculo da era atômica. Guilhermartins riu e explicou: a História é uma novela; o novelista, um gênio anônimo. Os teístas o insultaram. O gênio tinha nome, sim senhor: Deus. Os ateístas defenderam-se: não existia esse tal gênio.

Disse mais Guilhermartins: considerava-se apenas o mais atento e inteligente espectador, daí poder ler o próximo capítulo antes de publicado. E recusou convites para polemizar. Faltava-lhe tempo para falar. Mandava um pequeno texto sobre a questão. Discutissem-no à vontade.
De fato, estafetas e jornaleiros não paravam de bater à sua porta, sobraçando pacotes das mais variadas procedências. Jornais da Jordânia, revistas revanchistas alemãs, boletins de laboratórios farmacêuticos, informativos panteístas, publicações de guerrilheiros e terroristas, relatórios acadêmicos e divulgações de seitas novas.

Não se esquecia de si mesmo Guilhermartins. Colecionava tudo o que a imprensa publicava sobre sua pessoa. Na primeira folha do álbum, a notícia de seu nascimento. A partir daí, entrevistas, artigos, crônicas, reportagens.

Uma dessas crônicas, do poeta Carlos André, começa assim: “Há quarenta anos conheço e pratico esse raro Guilhermartins, e ainda não me arrependi de o ter achado. Pois o achei, posto que o procurasse sem o conhecer. Valeu como achar a edição príncipe de O Grande Pânico, de Airton Monte."

Tomam três ou cinco folhas as reportagens sensacionalistas sobre seu divórcio. Num deles, sua mulher o chama de maníaco, leitor inveterado, comedor de traças, intelectual onisciente, o diabo.

Um dos artigos mais pomposos sobre sua pessoa intitula-se “O Mago Guilhermartins” e o equipara a Wronski, o inventor da máquina de predizer.

Apesar da enorme quantidade de publicações que diariamente recebia, Guilhermartins sabia de cor os nomes de todas elas e até os dias em que deveria recebê-las. Deu-se então de um dia o estafeta esquecer-se de levar-lhe o Informativo Cabalístico. O assinante vomitou insultos: irresponsável, inimigo da informação, mulherengo, nazista. E o entregador de jornais perdeu a paciência: maníaco, judeu, alienado, filho de satã. E saiu aos brados.

Fulminado por tão duras palavras, Guilhermartins sentou-se sobre os pacotes, abatido, triste, decepcionado.

– Eu, maníaco? Sim, por que não? De que me serve o conhecimento? Para que passo a vida a ler, a me informar de tudo? Tenho vivido aqui, cercado de livros, revistas, jornais, envelhecido diante de tudo isso. Que fiz afinal da vida? Ou ainda é tempo de mudar, de fugir dessa caverna, de sair do ovo, de pular para o mundo?

E saltou para a rua, a gritar que sabia de tudo, conhecia tudo, o passado e o presente e até um pouco do futuro. Cercaram-no curiosos e ele subiu a uma janela. Pôs-se a falar de guerras e pazes, enchen-tes e secas, golpes e revoluções, tudo sem nenhum sentido, misturado, confuso.

– É o sábio Guilhermartins.

– Um doido varrido.

– O diabo em pessoa.

Pouco a pouco, todos se afastaram e ele se calou. Coçou a cabeça, arregalou os olhos, sorriu. E correu aos jornais e emissoras. Noticiassem: Guilhermartins convocava a população para uma conferência sobre o conhecimento humano. Na maior praça de esportes da cidade. Entrada franca. A partir do fim da tarde. Sem horário previsto para o encerramento. Podiam decretar greve geral. Assim, todos estariam livres para comparecer ao espetáculo.

Não falaram de greve, porém milhares de pessoas se atropelaram desde o começo da noite diante do estádio. A cavalaria não sossegou de pisotear a multidão.
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