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quinta-feira, 27 de abril de 2006

Acerca de uma nota ao romance de Emília Freitas (Nilto Maciel)


Em 1980 saiu a 2ª edição (a 1.ª é de 1899) do romance A Rainha do Ignoto, de Emilia Freitas. Como obra literária, não merece ser posto ao lado de romances como A Normalista, de Adolfo Caminha; O Simas, de Pápi Júnior; Luzia-Homem, de Domingos Olímpio; e, sobretudo, Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva, todos mais ou menos da mesma época e cearenses.

A singularidade de A Rainha do Ignoto, no entanto, não pode ser negada. É, sem sombra de dúvidas, o primeiro romance fantástico escrito no Brasil, embora sua autora o chame de romance psicológico.
 
Na apresentação crítica da edição de 1980, diz Otacílio Colares: “Trata-se de um romance que tem base no regional e que parte, de modo inteligentemente programado (embora nem sempre perfeitamente levado a efeito), para os domínios do fantástico”.

Negar-lhe, porém, valor literário é impossível. Daí o empenho com que se houve Otacílio Colares, no sentido de redescobri-lo, tal como o fez há alguns anos Lúcia Miguel Pereira com o magistral romance de Oliveira Paiva.

A segunda edição de A Rainha do Ignoto traz, além da citada apresentação crítica e de duas curiosas fotografias com legendas, 119 notas de pé de página, escritas por Otacílio Colares.

A atualização ortográfica é indispensável em obra literária antiga. E Otacílio Colares também cuidou disso. A nota de n.º 8, no entanto, merece reparos. Vejamo-la: “Por uma peculiaridade de pronúncia, em certos lugares do Ceará e do resto do Nordeste, dizia o vulgo xentes!” Refere-se o anotador à fala de uma personagem: “– Gentes! que vejo?”

Ora, se a romancista grafou “xentes”, não poderia o anotador esquecer-se de uma nota explicativa, posto que o leitor comum de hoje certamente não iria atinar com o significado do vocábulo. Mas que respeitasse a grafia original. Além do mais, o texto da citada nota parece ter sido elaborada apenas para explicar a indevida “atualização ortográfica” feita. Porque foge totalmente à verdade histórica.

Segundo Antonio Saraiva, o português foi, nos seus começos, o galego falado ao sul do Minho. Existiu uma lírica galego-portuguesa. Os portugueses que colonizaram o Nordeste brasileiro trouxeram, portanto, uma língua nascida do galego. Além do mais, não foram poucos os naturais do Norte de Portugal, sobretudo de Entre Douro e Minho, que se instalaram no Ceará e no resto do Nordeste. O galego “xentes” incorporou-se ao português primitivo e foi trazido ao Brasil sem qualquer modificação gráfica ou de pronúncia.

Vejamos este trecho de uma cantiga do trovador galego Nuno Eanes Cerceo, que viveu no século XIII: “Agora me quero en xa espedir / da terra e das xentes que í sou”.

De Álvaro Gomes, poeta galego da mesma época, são estes versos: “De profasar a xente sandia / non habedes por qué vos embargar”.

Lê-se numa copla de Frai Martin Sarmiento, que viveu entre 1695 e 1772: “A xente da volta / do mercado feito, / foi muita, foi tanta, / que eu nona coñezo.”

O atual “oxente” é apenas uma forma aglutinada da expressão antiga “ó xente” ou “ô xente”, transformada em interjeição.

Portanto, “xente” não se deve a “uma peculiaridade de pronúncia”, como quer Otacilio Colares, mas à herança legada pelo galego ao português primitivo e transmitida ao linguajar nordestino por este.

Nota: Os textos em galego, bem como a referência a Antonio Saraiva, foram extraídos do livro Antoloxia de Poesia Galega – Dos Devanceiros ao Dezaoito, de Xosé Landeira Yrago, Editorial Calaxia, Vigo, Espanha, 1975.
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