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segunda-feira, 3 de abril de 2006

O sonho do meliante Guimarães (Nilto Maciel)



Acordo sempre suado, o coração fogoso, gritando pela mulher, como se ela pudesse me acudir e evitar minha queda. Ela se revira, me chama de danado, foge de minhas mãos trêmulas, pula da cama, acende a luz, chora e berra. É sempre madruga-da, tem chovido fininho e faz um frio bom para se dormir.

– Como foi o sonho? Você sonhou comigo, Guimarães? 

Perco o medo, sento-me, olho para aquela mulher comum e enjoada, e conto tintim por tintim o sonho.

Da primeira vez fiz um barulho medonho. Gritei feito um doido e ela só começou a entender o desastre depois que me viu estatelado no chão.

– Caiu da cama?

Nunca fui besta para dormir junto ao penico. E por que caí? Ela era burra, uma pedra. Ainda tive coragem de medir as frases, escolher as palavras, essa mania de querer ser mais inteligente do que ela, humilhá-la, deixá-la de queixo caído, fazendo perguntas.

Muito alto, quase os píncaros do céu. Meus cabelos se confundiam com as nuvens e as fumaças das fábricas. De repente anoiteceu e meus olhos brilharam como estrelas e em minha boca despontou uma lua negra e do fundo da goela saltou uma labareda, que só faltava queimar o caixão onde você dormia desgrenhada, os seios para cima, para não os amassar. Besteira sua, pois a subida era íngreme e por pouco a cama não despencou lá de cima com você e tudo, apesar de minhas patas peludas se agarrarem aos buraquinhos da parede. Embaixo, multidões berravam e erguiam os braços, à moda muçulmana, como querendo nos aparar. Eu não entendia tanto delírio e ora chamava aquela malta de fascistas, ora me apiedava deles, cren-te de que nos invejavam, impossibilitados de deixar o chão.

Não sei mais direito a ideologia da história, mas pos-so ainda engendrá-la à custa de uns apontamentos feitos horas após o sonho. Além disso, no momento em que o narrava à mulher, perdi o fio da meada e, para não demonstrar incapacidade, inventei outros enredos. Eu era uma enorme aranha que carregava às costas um caixão e dentro dele a mulher nua e dormida, fugia de uma catástrofe, os prédios ruíam, o povo arribava para as montanhas e, ao ver a aranha abalando no rumo dos cimos gelados, além de onde voavam as espaçonaves, punha-se a jogar grandes anzóis para o alto, picaretas que feriam o calcário, na tentativa de salvação. No entanto a pedra poucas vezes agarrava a isca, e a maioria daquele povo desesperado deixava de lançar seus instrumentos, embora conti-nuasse a olhar na direção do inseto, a erguer os braços e a blasfemar, rogando a Deus que escorregássemos e caíssemos em seus tentáculos. Queriam meu sacrifício, para depois me sepultar aos pés da parede.

Na segunda noite o sonho se encheu de detalhes e simbologias. Eu via a aranha escalando o muro e ao mesmo tempo eu era o bicho.

– Homem-aranha – arengou a mulher.

– Muito horrível, você entende?

Ela não entendia. Apenas me achava para lá de doente, mais feio, preto e cabeludo.

– Essa sua barba suja de baba vai me emporcalhar toda.

Eu pedia: traga o médico, e ela me falava de dificuldades. Onde iria procurá-lo? Melhor irmos os dois aos hospitais, às clínicas, aos apartamentos, aos clubes, aos estádios, às ruas. Impossível achá-lo por acaso. Ao me verem naquele estado, os moleques iriam me atirar pedras, laranjas podres, ovos de galinha. No tumulto, a polícia terminaria me levando preso, me espancando, talvez me assassinando.

Passava os dias enfurnado em casa, procurando aranhas pelos quatro cantos, para matá-las e queimá-las com cigarro aceso.

Agravava-se meu estado e terminei procurando o psiquia-tra. Toquei com as pontas dos dedos peludos a maciez do divã e me arrepiei. Melhor ficar de pé.

– Aranha não se senta em divã, doutor.

Fez-me contar um a um os sonhos. Queria tudo detalhado, límpido. E tomava notas com a mãozinha vermelha. Ao final, achou-me perfeitamente são, normal, pronto para voltar ao trabalho e ao convívio social.

– Eu mesmo sonho sempre fazendo amor com uma egípcia, no alto da Torre Eiffel.

Procurei um padre. Só não suportava ouvir histórias bíblicas. Ele sorriu, benzeu-se e quis me tocar. Tive medo e me afastei.

– Qual é o seu pecado, filho?

Fez-me perguntas e mais perguntas. O que eu sonhava, se eram imoralidades, se com outra mulher ou algum homem. Perdoava-me, se reconhecesse que o muro alcançava a Casa Eterna.

Não sei quem deu início ao processo. A prisão será o pior, porque estarei sonhando perpetuamente. Melhor a pena de morte. Assim, não mais sonharei, nem chegarei ao fim da escalada.

– Punição para o meliante Guimarães – estão gritando.
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