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sexta-feira, 5 de maio de 2006

Drummond na visão de outro poeta (Nilto Maciel)


(Carlos Augusto Viana)


Alguns estudos literários lavrados por Carlos Augusto Viana e publicados em jornais já vinham chamando a minha atenção para a face crítica do poeta de Primavera Empalhada. Se não duvidava de sua capacidade de elaborar ensaios e artigos de crítica literária do mais alto nível, ao mergulhar na leitura de Drummond: a insone arquitetura pude conferir o quanto está ele preparado para os largos vôos da análise de obras de quaisquer gêneros.
O leitor médio ou aquele que lê livro de vez em quando, sem preocupações críticas, por deleite ou passatempo, não costuma se debruçar em estudos de literatura. Entretanto mesmo esse leitor médio não encontrará dificuldades de ler, entender e apreciar esta obra de Carlos Augusto, dada a clareza de sua linguagem, assim como o ordenamento dos temas analisados e a inserção de poemas do poeta mineiro no decorrer do ensaio.

Na verdade, nem precisa o leitor conhecer a obra poética de Drummond para ler com prazer, e para aprender muito mais, o ensaio de Carlos Augusto. Ele se basta, se completa, logicamente que pela intercalação de alguns poemas.

Dividido em cinco partes, o livro é um passeio longo pela obra do poeta de Itabira. Na primeira (“Itinerário do Gauche”) o “Poema de Sete Faces” é dissecado verso a verso, palavra a palavra, face a face. Perguntas e respostas se apresentam para clarificar a compreensão da poética drummoniana: O que é ser gauche na vida? O que significa “anjo torto”? Onde está o voyeur? O que representa o pai na obra do poeta? E muitas outras, não necessariamente na forma interrogativa gramatical. Na segunda parte (“As fronteiras do incorpóreo”) vê-se uma análise da memória, e, conseqüentemente, da infância, da família e da terra na obra de Drummond. Nesta o ensaísta se verga sobre o como o poeta “mergulha em si mesmo”, se afunda na memória, no tempo passado para elaborar seus poemas, não, porém, em forma de “puro memorialismo”. E novamente figuras essenciais para o poeta, como o pai e a mãe, e temas absorventes, como o do gauche, da família, da terra, da solidão apresentados em poemas diversos. Na terceira parte (“E(r)ros”) Carlos Augusto Viana se volta para a poesia amorosa do poeta itabirano, e na quinta (“Presença do cotidiano e crítica social”), para a sua visão do mundo, onde se vislumbram o sarcasmo, a ironia e o humor do poeta face o mundo, a política, a questão social, sem esquecer a prática da metapoesia.

Observe o leitor o cuidado tido pelo poeta-crítico de não se deixar levar pelas águas turbulentas do tecnicismo vocabular, tão comum a professores de Literatura e outros mestres. Assim, quando trata de figuras e recursos como a simploce, a metonímia, a aposiopese, a anadiplose, a epizeuxe, a anáfora, a hipálage etc, não o faz de forma obscura, a querer enredar o leitor num cipoal de frases eruditas. Não lhe interessa vendar os olhos do leitor. Pelo contrário, faz questão de os abrir mais e mais, para que veja nitidamente toda a clareza da poesia de um dos nossos maiores poetas, e faça “uma leitura mais lúcida da obra do autor”, como informa na “Introdução”. Mesmo porque a poesia de Drummond é fundamentalmente clara, de arquitetura nada barroca e, às vezes, muito próxima do confessional, do coloquial e do prosaico.

Portanto, ler Drummond: a insone arquitetura, de Carlos Augusto Viana, é percorrer, com serenidade, o universo poético do grande porta brasileiro.
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