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sexta-feira, 19 de maio de 2006

Rosa dos ventos (Nilto Maciel)



Nenhum livro dormia à cabeceira da cama, nem havia copo ou comprimido à espera da mão sonâmbula de Rosa, que apalpava a cabeça, assanhava o cabelo, os olhos feito tochas a incendiar o quarto. Com a mão direita amassava o lençol e as dobras do pano fugiam-lhe entre os dedos. Com a outra buscava o corpo ausente de José, seu peito cabeludo, seus largos ombros, suas coxas grossas, seu duro queixo.
Escorregou para ele, a boca cheia de gemidos, os seios doloridos, o sexo a latejar. Esfregou-se, contorceu-se, enrodilhou-se em si mesma — alva serpente a chocalhar de vida.

Meio corpo ergueu, para a frente engatinhou e de novo sentou-se, entre as pernas da cama. Pôs-se de pé, andou pelo quarto, por seus quatro cantos, a camisola amarrotada, transparente, incapaz de esconder tanto pecado. Transpôs a porta, alcançou o corredor, a pisar maciamente, como se voasse à maneira das gaivotas. E num instante esteve no banheiro, nos quartos, na cozinha, na sala.

Os filhos dormiam, maleáveis, feito bonecos. Ajeitou-os, moldou-os à semelhança de homens, cobriu-os de lençóis e carinhos, maternalmente.

Uma barata andava tonta de norte a sul da cozinha, doida no país das panelas.

No espelho do banheiro Rosa mirou-se, sorriu, meteu entre os cabelos o pente das mãos.

Na sala, aninhou-se num sofá, acendeu um cigarro, fechou-se os olhos e pôs-se a olhar para os quatro cantos do tempo — o homem que a chamou de beleza, o olho viril de José, seus próprios seios mal cobertos. Naquela rua passavam todas as pernas do mundo – mulheres gordas e magricelas, bonitas e desbotadas; homens apressados e bem vestidos, velhos e malandros. Todos a farejar deslizes, aventuras, libertinagens. Os mil olhos do monstro, cobiçosos, acesos, danados. As mãos safadas e sujas, penduradas feito cachos de banana. Pegajosas, cobertas de nódoa.

Sugou o cigarro, soprou a fumaça, abriu e fechou os olhos. O carro de bois do quadro gemia pelo caminho da parede, a ferir a lei da gravidade. Tão pobre aquela vida no campo! Talvez fizesse melhor comprando um quadro feérico — uma corrida de cavalos, apostas, binóculos, mulheres de leque, homens de cachimbo. Ou uma tourada, Pablo, Juanito, um toureiro de muita fama, manchete de jornal. A viagem de navio, com festas, champanhas, eróticos play-boys, astros e estrelas, strip-tease, camarins fabulosos. E a aparição de Sherlock Holmes depois do suicídio da princesa.

Esfregou o cigarro no fundo do cinzeiro, levantou-se do sofá, chegou à janela. A cidade piscava feito um chão de estrelas.

Tocaram a campainha, insistiram. Assustou-se, agarrou os seios, resvalou no rumo da porta. Um dos meninos tossiu. José gemeu do lado de fora.

Rosa abriu a porta. O vento assobiava uma cançãozinha que falava de bares e mulheres perdidas.
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