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terça-feira, 22 de agosto de 2006

Contos e "Contos" (Daniel Mazza)




Desde a publicação de seus primeiros contos – muitos, diga-se de passagem, devolvidos por revistas literárias que os consideravam desinteressantes – Anton P. Tchecov (1860-1904) já acenava com uma mudança significativa na estrutura do gênero. Caracteres clássicos como enredo bem concatenado, tensão narrativa e desfecho conclusivo foram substituídos, pelo menos parcialmente em sua obra, por uma atmosfera ficcional caracterizada pelo relato do comum e do ordinário da vida cotidiana, pelo detalhe psicológico da situação e, precipuamente, pelo desfecho “em aberto”. Dando um passo a mais em relação a Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, Tchecov instaura uma nova concepção de conto, a tal ponto que Mário de Andrade, em ensaio datado de 1938 e intitulado “Contistas e contos” chegara a afirmar − talvez arrebatado pelas diversas feições que o gênero vinha tomando − que “sempre será conto aquilo que o seu autor batizou com o nome de conto”. Infelizmente, o que era para ser uma proposta de reflexão, por parte do escritor paulista, sobre as metodologias de confecção da “short-story”, tornou-se, desastrosamente, um apotegma para grande número de escritores menos expertos.
Como outrora havia ocorrido com a conquista do verso livre pelo movimento modernista de 22 − que, ainda hoje, é confundido com “verso libertino” por tantos bardos inscientes de que o verso livre não liberta senão quem já está livre em suas escolhas entre esse e o verso clássico metrificado − também muitos contistas passaram a acreditar que qualquer narrativa breve seria, conceitualmente, um conto. Eis aí o exemplo cabal do que, em retórica, é denominado argumento por “apelo à autoridade”, aqui, no caso, a figura imponente de Mário de Andrade na literatura nacional.

Dessa forma, em A Leste da Morte (Porto Alegre, Ed. Bestiário, 2006), último livro do escritor cearense Nilto Maciel, há contos e “contos”. Entretanto, é preciso afirmar que não há, nesta subdivisão, nenhuma consideração de valor judicativo: são peças diferentes. No primeiro caso há contos bem construídos em sua forma consagrada, como em “Restos de Feijoada”, “Caça e Caçador” e “A Bicicleta”. Em outra vertente do processo criador, vinculada ao conto tchecoviano, há a busca pelo instantâneo do momento ou pelo relato do trivial como, por exemplo, em “Mundoca e Mundico” e “Trem”, duas felizes concretizações da proposta. No segundo caso, entretanto, enquadram-se narrativas que, almejando o mesmo estilo “despretensioso”, em verdade não alcançam o êxito aspirado, e, mais do que a cena trivial e corriqueira, é a trivialidade destituída de maior interesse que aparece, como em “Lilith segundo Paspa Torde” e em “A Reunião”. Esse último, conforme o título, mera descrição de uma reunião em andamento vista por detrás de uma câmera...

Nessa mesma linha e, sintomaticamente, em “Para escrever a caminho do nada”, lemos: “também é impossível medir o tempo da trama, se é que há trama”. É o texto que desconstrói o próprio texto, nas mãos de um autor tão consciente de todos os recursos do conto moderno e que, por isso mesmo, aventura-se a escrever um conto sobre um conto que não é conto. Nesses e em outros casos similares seria um erro palmar, por parte do exegeta, emitir qualquer juízo de valor. Embriões de conto, algumas dessas narrativas, não podem ser julgados pelo que não são. Mais apropriadamente devem ser consideradas, e eis aqui o seu mérito, dentro do todo do livro. Mas o preço pago, pela experimentação, são as costuras deixadas à vista, no tecido da roupa. Formalmente, são subconjuntos de um conjunto maior representado pela cosmovisão caleidoscópica do autor, que procurando recensear todos os recônditos da vida, acaba por lançar mão de conteúdos os mais diversos: desde o homem citadino na mesmice de sua existência, até o insólito, o fantástico: “Como podia ter morrido no assalto, se via tudo com nitidez: o sofá, os próprios pés, a sombra do objeto ou do inseto não identificado, o ventilador com haste em rotação acelerada.”.

Parece-nos que é aí, justamente, onde real e irreal se imbricam, que se encontra o melhor de A Leste da Morte.

Daniel Mazza, médico e escritor.
Autor de Fim de Tarde (Ribeirão Preto, Funpec, 2004).
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