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terça-feira, 29 de agosto de 2006

A última festa de um homem só (Nilto Maciel)


Estirado no sofá, Fausto lia. Ou talvez apenas namorasse as letras. Não havia mulher no resto da casa. Ninguém mais. Apesar disso, ele vestia um roupão elegante e de seu corpo recendiam perfumes de devassidão.

O livro por pouco não lhe caiu das mãos, quando uma campainha tocou. Não eram horas de despertar. Quem estaria à porta?
Tocou de novo. Fausto largou o livro e correu ao telefone. Alô, boa noite, quem fala?

A voz dizia ser de Sardanapalo.

No entanto, Fausto não se lembrava de ninguém com esse nome. Não seria Assurbanipal?
De qualquer forma, desejava o quê?

Ajuda. Preciosa ajuda. Só ele, Fausto, poderia ajudá-lo. Queria promover uma festa em seu palácio.

Fausto riu. O sujeito só podia estar brincando. Ora, não entendia nada de festas nem de palácios. Fosse para o inferno.

Ia desligar o aparelho e dizer, embora para si mesmo, mais uns desaforos.

— Sou o rei da Assíria.

Conteve-se e comprimiu o fone contra o ouvido. À festa deveriam comparecer os monarcas de todos os tempos. Vivos e mortos.

Riu mais uma vez Fausto. Aquele rei vivia em algum manicômio. Continuasse, pois, a dizer disparates. Rir até fazia bem.

Como Fausto fosse pessoa bem relacionada, amigo de reis e rainhas, contava Sardanapalo com a valiosa ajuda dele. Em troca, oferecia-lhe a sua amizade. Aliás, precisavam se conhecer pessoalmente. Aguardasse, pois, sua visita. Assim arranjariam juntos a relação dos nomes dos convidados. Porque nenhum monarca poderia faltar à sua festa.

Despediam-se e Fausto voltava ao sofá. Conversa mais sem sentido. Parecia até sonho.
O livro jazia aberto sobre o sofá. Nem se lembrava mais do que havia lido. Seriam versos de Goethe? Histórias do Diabo? As vidas dos imperadores romanos?

Fausto agarrou o livro, leu um trecho. Riu satisfeito. Não havia perdido a memória. O livro chamava-se A morte de Sardanapalo.

Preocupou-se de novo. A “conversa” de há pouco teria sido sonho ou realidade? No entanto sonhos não faziam mal a ninguém. Além do mais, costumava sonhar com personagens de livros. Sobretudo quando o personagem o impressionava muito. Sardanapalo, então, comovia o leitor mais insensível. Sua vida era de uma riqueza sem limites. Até sua morte, durante o incêndio do palácio real.

O livro caiu-lhe das mãos, quando tocou uma campainha. Mais uma vez o louco? Não, nem pegaria o telefone. Tocasse à vontade.

A campainha tocou de novo. Porém a da porta. Talvez algum amigo.

Correu e girou a chave. Um sujeito esquisito deu-lhe boa-noite. Vestia roupas fosforescentes. E se dizia Sardanapalo.

Mudo, Fausto deixou-o entrar. E o homem entrou, luminoso, esquisito.

E toda a casa se pôs a pegar fogo.
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