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sexta-feira, 4 de agosto de 2006

O sonho impossível de Pã (Nilto Maciel)



Doido fauno senil, quebrando as finas
Lianas que se erguem no cipoal em que erro,
O ar farejo com sôfregas narinas,
Percebo indícios duma ninfa, e berro...
(Humberto de Campos)

Ela mais parecia saída dos bosques da mitologia, juvenilmente bela como as ninfas, os olhos mais cândidos do mundo. E ele, vendo-a todo dia, nada mais fazia que sonhar. Erguia castelos de areia, fundava cidades, viajava pelo cosmos. Ela se chamava Quésia, ele Arion.

E viveram infelizes para sempre. 

***
Um dia, antes da eternidade chegar, Arion se dispôs a contar todos os seus sonhos a Quésia. Queria ser eterno. Ansiava viver eternamente junto a ela. Desejava, ao menos, um minuto dessa eternidade nos braços dela.

Quésia riu. Não acreditava numa só palavra de Arion. Tudo engodo de homem. Pura sedução maliciosa. Quando muito, sonho de poeta.

Além do mais — brincou — não era exatamente mulher, mas uma ninfa. Logo, nenhum homem poderia jamais alcançá-la.

Brincadeira por brincadeira, Arion se disse um fauno. Sim, também não se sentia exatamente um homem. Logo, só o destino o separava dela.

A conversa fez-se amena e culta. Falaram de mitologia grega. Que nome ela gostaria de ter, se fosse ninfa? Talvez Galatéia, a cavalgar cavalos-marinhos entre as ondas do mar. Quem sabe Aretusa, para rimar com musa. E por que não Climene, a bordar constantemente? E ele, que fauno desejaria ser?

De noite, Arion teve um sonho esquisito. Era Pã, o fauno da Arcádia, pernas e pés de bode, peludo e de chifres, tendo o resto do corpo a forma humana. Um bicho horrível, com certeza. No entanto de coração apaixonado. E o objeto de sua desmedida paixão chamava-se Quésia, a mulher dos olhos mais cândidos da Terra.

Um dia, no meio da eternidade de suas vidas, Pã encontrava Quésia perdida no bosque. Queria ser humano e mortal, contanto que tivesse o prazer de a ter em seus braços. Por um minuto sequer.

A jovem se zangava. O fauno só podia ter enlouquecido. Ora, um fauno jamais poderia amar uma mulher. Fosse procurar suas ninfas. E, mais zangada ainda: buscasse as fêmeas de sua espécie, se existissem.

E desaparecia entre as árvores, deixando o pobre Pã tristonho e só.

Arion acordou assustado, olhou para as pernas e os pés, e levou as mãos à cabeça. Não, não era um fauno. Permanecia tão humano quanto antes. De qualquer forma, o sonho não deixara de ser interessante. Devia até contá-lo a Quésia. Falariam de novo de mitologia grega. Pretexto para revê-la. E telefonou para ela.

Quésia não se encontrava. Fora embora. Para a Índia. E nunca mais voltaria. O motivo? Não suportava mais a presença de um tal Arion. Não queria vê-lo nem em sonho — informou a voz no telefone.

Tudo engodo. Quésia nunca viajou à Índia e naquele dia riu como nunca.

Arion pensou, pensou, e terminou conformado. Ora, ela tinha razão de sobra para agir assim: tão jovem e bela, como poderia querer um homem tão defeituoso? E seu pior defeito era viver sonhando. Não a procurou mais, certo de que só lhe restava erguer castelos de areia, fundar cidades e viajar pelo cosmos. E, dia e noite, continuou a sonhar histórias mitológicas, em que era Pã, o fauno apaixonado por Quésia, a dos olhos cândidos de ninfa.
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