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sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Babel contemporânea (Astrid Cabral)



Não foi por acaso que Nilto Maciel intitulou Babel sua última coletânea de contos, aliás, nada é por acaso no livro. A referência ao mito bíblico deve-se tanto à variedade de linguagens narrativas adotadas pelo autor, quanto à idéia de destruição implícita no cerne delas – seja a destruição física, relativa à doença e à morte, seja a moral decorrente, da perda de inocência ou de paz interior.

A coletânea em seu conjunto revela-nos um autor perplexo face ao desafio de reelaborar um mundo em decomposição, não o remoto e ignoto babilônico e sim o próximo e familiar de nossa contemporaneidade. Muitas são as rupturas e brechas da crise atual pelas quais Nilto Maciel incursiona a fim de captar o universo em fragmentos que nos rodeia. Porém, ao manipular a complexa matéria prima de fatos e seres, o autor sempre se mantém com as rédeas nas mãos. Graças à notável consciência literária, faz de cada investida uma aventura lúcida, guiada pela sensibilidade e pelo domínio verbal. Exemplo de sua capacidade de desempenho é o conto “Uns seios”, onde procede à releitura da obra-prima machadiana “Uns braços”. O novo título logo assinala a atualização do motivo erótico, atualização que permeia toda a narrativa pela substituição de hábitos e cenário (enquanto Inácio lê o folhetim da “Princesa Magalona”, Pedrinho assiste à televisão, etc). Entretanto, o grande trunfo de NM não está nas alterações circunstanciais, e sim na linguagem. Mantendo a maior fidelidade ao relato original, ele substitui o linguajar analítico e lento do século XIX, cheio de considerações pontilhando o desenrolar da trama, por outro sucinto, rápido e dinâmico, marca registrada do século XX. Digamos que o conto machadiano, ambientado em 1870, é sabiamente passado a limpo na ótica e no ritmo deste fim de século.

Ao longo de Babel, o leitor se defronta com enorme variedade de motivos e temas, bem como de tratamentos formais. Há contos que enveredam pelo viés de largo espectro sociológico, apresentando irretocáveis cenários de botequim, onde comparecem vários personagens atuando em pequenos papéis, e a ação decorre pela interação da equipe (veja-se “As pontas da estrela” e “Jingle bells”). Dentro dessa vertente criativa, destaca-se o conto “Masmorrer”. Tem-se aí o desdobramento de um painel de extrema crueldade e violência sobre presidiários a morrerem numa masmorra, conforme anuncia o título codificado. Lançando mão do grotesco como recurso expressionista, NM constrói uma metáfora/denúncia do desumano sistema penitenciário vigente no país. Os seres humanos que aí se amontoam acham-se mutilados, desprovidos de integridade. São por isso mesmo designados por traços metonímicos que os reduzem a estereótipos (Grandalhão, Ruivo, Cabeça Chata, Baixote, Sarará, Golias). O conto retoma o tema trágico do famoso romance medieval da Nau Catarineta – onde a situação limite da fome extrema impõe o sacrifício de um indivíduo em prol da sobrevivência coletiva. O relato se desenvolve em textos fragmentados mostrando cenas de antropofagia e carnificina. A visão mórbida e alucinante apreende o caos isomorfizando-o por meio de uma escrita obsessiva, onomatopaica, delirante. Em alguns momentos a linguagem parece carrear uma enxurrada inconsciente desatando-se em ímpeto de vômito.

Outras narrativas construtoras de painel social são “O pio da cauã” e “Tony River”. A primeira focaliza as relações entre índios e invasores. O anacronismo dos fatos históricos aí relatados (datam de 1607) se anula em vista de o confronto étnico permanecer o mesmo em muitas regiões brasileiras. Já em “Tony River” NM se volta para a dessacralização do mundo moderno (uma igreja vira “boite”) e a americanização dos costumes e pessoas (Antônio Siqueira passa a Tony River e os banheiros substituem cavalheiros e damas por “ladies and gentlemen”). Nesta narrativa o final se incumbe de apontar a superficialidade da transformação urbana pela emergência de um fantasma que traz à tona o arcaico da sociedade rural brasileira.

Entretanto, na maioria dos contos, prevalece o enfoque mais de “close up” que de “long shot”. São estórias que verticalizam problemas, concentrando-se em poucos ou um só personagem. Entre estes, os contos de fundo erótico, narrados em primeira pessoa (“O primeiro homem” e “Prelúdio para a morte de César”), exploram com sutileza a intimidade de duas adolescentes. “Avisserger Megatnoc” (tradução gráfica de Contagem Regressiva) apresenta um homem maduro que, valendo-se do anonimato garantido por máscara, vai em busca de reconquistar a juventude durante o Carnaval. Porém, em vez disso, se depara com uma revelação traumática na própria família. O desmascaramento, deflagrador do “pathos”, remete ao inesquecível conto “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio. Contudo, no contista/cronista carioca a surpresa final tem ressaibos naturalistas, e em Nilto Maciel o que ressalta é a mudança de costumes, devidamente sublinhada no subtítulo ciceroniano: “O tempora, o mores”.

Assumindo a narrativa do ponto de vista dos personagens, NM consegue excelentes resultados. Veja-se a inesquecível cena de “A noite das garrafadas”, filtrada pela emocionada lembrança de um menino, e onde cada pormenor justifica-se funcionalmente como indispensável à construção de um universo pessoal. O mesmo ocorre com “Rotação”, enigmático retrato de uma seita clandestina, obtido através da recordação, embrulhada em brumas, de uma criança.

Dois contos se destacam na vertente introspectiva: “A perseguição” e “O julgamento”. No primeiro, tem-se um elemento episódico mínimo e o desenvolvimento de natureza emocional conduz a um desenlace ambíguo, deixando ao leitor preencher as lacunas com suas hipóteses. É um conto em aberto, como “As pontas da estrela” e “A vida eterna de Luís Lamento”. Quanto a “O julgamento”, soma-se ao viés psicológico o tom irônico. Pode-se aí detectar a vigência de duas vozes: a lírica, no monólogo que domina a primeira parte ( “E eu, que fiz eu, que não me lembro?”) e a dramática, no diálogo da segunda parte (“Que desespero é esse, Manuel? Acalma-te. Aquieta-te”.) A religião surge no relato com a função distorcida de camuflar o sentimento de culpa (Manuel com a mulher foram os únicos a aplaudir com entusiasmo a Revolução), culpa covardemente rejeitada (“O que fizeste, durante toda a vida, foi por culpa dos outros”).

Há ficcionistas que se comportam como verdadeiros historiadores da vida privada. Que nem cientistas sociais, observam a vida tal qual é, sempre atentos e fiéis a dados óbvios, comprovados ou comprováveis. Outros se lançam pelos campos da fantasia sem os freios do plausível, e têm por meta revelar a face oculta da lua e do mundo através de parábolas. Nilto Maciel se insere nas duas tendências, debruçando-se pelas sendas do verossímil e do inverossímil. Se, nos contos até aqui comentados ou referidos, prevaleceu o quadro realista, preso a contingências factuais, em outros NM surpreende pela ousadia imaginativa. Tome-se “O mundo estaliano”. Através do discurso de um tirano megalomaníaco (Stalin?), o autor constrói a parábola do extermínio da liberdade, projetando um caos futuro a partir de sintomas atuais. Em “Três Botões”, a fantasia desata-se em aventura lúdico-cibernética, o passado grego irrompendo na pós-modernidade. Já em “O inventário de Quinca Manco”, dá-se a associação do realismo detalhista à situação fantástica. De um lado, NM baixa sobre o mundo material um olhar de extrema exatidão, ao alistar os bens do defunto, de outro o personagem contracenante, Chico Maneta (um estropiado como o protagonista) surge na abertura do conto anunciando a morte de Quinca Manco, para em seguida ser dado como falecido há doze anos e visitar o defunto na condição de fantasma. Ao criar “O verdadeiro Mangarobeira”, o autor toma como ponto de partida, para elaboração da farsa, dados históricos tradicionais e referências aparentemente fidedignas. No entanto, o relato satírico avança, pautado em afirmativas hilariantes pela pseudo-seriedade, e se encerra com “Não, não riam, que a História não é para ser caçoada, é coisa muito séria”. Vê-se como a História do Brasil, durante a ditadura militar, ganha através da paródia o retrato de um líder paradigmático, muito mais eloqüente que os papéis dos arquivos oficiais.

Aberto a múltiplas tendências, NM ora reverencia a tradição literária consagrada, ora se lança na experimentação lingüística e estrutural. A consciência da palavra - ressalte-se a condição de poeta do autor - atravessa a coletânea inteira. “Quem tiver ouvidos, ouça” gera-se em torno das mil e uma associações do vocábulo “lobo”. O conto “O egoísmo de Newton Appletree” propõe, juntamente com o perfil do escritor como ser singular e solitário, seu auto-retrato disfarçado sob a transformação do seu próprio nome, remetendo o leitor distraído ao físico inglês que descobriu a lei da gravidade à sombra da macieira. Esse ludismo no trato com as palavras desponta aqui e ali. Em “O Primeiro Homem”, o cão é designado inocentemente pelo pai como “Moleque”, e profeticamente pela mãe como “Moloque”, instaurando o “foreshadowing” para o desenlace.

Quanto à experimentação estrutural, o melhor exemplo está no conto "Babel". Tem-se nele duas estórias paralelas que afligem o narrador: uma que ocorre no plano do presente e cuja progressão conduz à morte do filho recém-nascido; outra que ressuscita uma recordação da infância e leva à morte de um peru de estimação chamado Babel. O processo narrativo dá-se de modo fragmentado e entrelaçado. O autor ora desenvolve um fio, ora outro, numa operação em trança. Porém a incomunicabilidade e a aparente desconexão sugeridas pela mítica Babel são aqui anuladas, no momento em que as duas estórias terminam por convergir no lugar comum da morte. Permanece, porém, a sugestão de um duplo holocausto mítico: o peru entregue aos pais para o banquete e o filho arrebatado à revelia, expondo sua própria impotência face ao divino.

Para encerrar, insistimos em dizer que a grande variedade de linguagens e de temas, que povoam Babel, reflete, não só a inquietação de seu criador em busca de caminhos, mas também as crateras do mundo contemporâneo, abalado por sismos e cataclismos de toda ordem.

(Revista Literatura n.º 14, Brasília, junho de 1998)
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