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quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Nilto Maciel reconstrói o mundo a partir da linguagem (Carlos Augusto Viana)





Em As Insolentes Patas do Cão, Nilto Maciel sedimenta a trajetória de sua ficção. Lançando o seu olhar agudo sobre o cotidiano, filtrando as ações humanas a partir do humor e da ironia, flagra o insólito, o inesperado, os momentos abissais da condição humana. As Insolentes Patas do Cão, de Nilto Maciel (João Scortecci Editora, 107 páginas), reafirma a vocação artística de seu autor, da mesma forma que espelha a sua extrema habilidade em lidar com as mais diversas possibilidades da ficção.

Os 35 contos que compõem o livro são, antes de mais nada, resultado de uma ficção que se realiza a partir da consciente utilização dos múltiplos recursos da narrativa. A escolha do foco narrativo, as pinceladas com que singulariza espaço e personagens, o ritmo das ações, a natureza da linguagem (com a mesma força apresenta-se ora efusiva, lírica, derramada; ora, seca, objetiva e incisiva), o tratamento dado aos temas, tudo isso está subordinado à própria atmosfera a que visa o autor construir.

O conto de abertura do livro, “Ícaro”, impõe ainda mais o clima de devaneio através do lirismo de que se reveste a linguagem. Narrado em primeira pessoa, o ponto de vista permite, antes de mais nada, que se revele a incapacidade do protagonista em se relacionar com a realidade objetiva. Na sua ânsia de voar, tudo o que realiza só pode ter como espaço o seu próprio mundo interior. Grande parte do texto é viagem por entre os profundos corredores do ser, de onde erige um universo de dúvidas, de indefinições, de desconhecimento: “Todos olhavam para cima, embasbacados, como se eu fosse papa-ceia. O vento soprava. O espaço vazio, cinzento. Minhas irmãs choravam a morte de suas bonecas que voavam para a serra e às vezes caíam como frutas maduras. Por onde andava o sacristão que não vinha bater o sino? A procissão continuava, mas no patamar não cabia sequer mais um cristão. Os fiéis esperavam Deus. Se eu caísse? Se eu voasse? Se eu virasse anjo, passarinho, aquele homem de asas?”(p.8-9).

As personagens de Nilto Maciel são íntimas da solidão, do desencontro, da incapacidade de viver. Pertencem, em suma, à grande legião dos que não podem se insurgir contra a realidade que a elas se impõe como inóspita, adversa. São seres amorfos, as mais das vezes caracterizados pelo grotesco ou pela perda da identidade: "Os filhos dormiam, maleáveis, feito bonecos. Ajeitou-os, moldou-os à semelhança dos homens, cobriu-os de lençóis e carinhos, maternalmente". (p.12) Sua reação diante do mundo inscreve-se, principalmente, em possibilidades inatingíveis, em súbito delírio: "Se a escada parasse de súbito, eu rolava e levava de roldão todo o mundo. Talvez fosse mais engraçado do que lamentável". (p.23).

Segundo Dimas Macedo, a multiplicidade temática bem como a técnica narrativa de Nilto Maciel são fruto "da inconformação do autor de não mais aceitar as seduções da estética literária tradicional, bem como da consciência de que é preciso reinventar a carpintaria da ficção, sob pena do processo de criação converter-se em técnica de reportagem". Em As insolentes patas do cão, o leitor terá a oportunidade de mergulhar nessa ficção madura, cuja marca principal reside no aproveitamento da linguagem como elemento ordenador da atmosfera narrativa.

(Diário do Nordeste, Caderno 3, Livros, Fortaleza, CE, 1/3/1995)
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