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segunda-feira, 25 de setembro de 2006

O mundo estaliano (Nilto Maciel)



Ao assumir o poder, ordenei fossem separados os homens das mulheres e assim mantidos sob estrita vigilância policial. Tudo sem outra intenção, senão a de controlar a natalidade, razão primeira da revolução, de vez que as pílulas anticoncepcionais haviam falhado, o aborto constituía-se crime e o povo vivia em perpétuo cio. Por outro lado, nem guerras, catástrofes, acidentes, doenças, fome haviam exterminado suficientemente a espécie humana até a desabitação total da Terra. Fracassou também a exportação de terráqueos para outros planetas, ou por falta de condições materiais e científicas, ou por recusa dos próprios futuros viajantes e dos governos dos planetas instados a acolher os infelizes terrestres. A superpopulação fazia a Terra pesar demasiadamente, a ponto de seus movimentos de rotação e translação não serem mais percebidos sequer pelos mais complexos aparelhos. Previa-se, para terror de todos, o desabamento do planeta e sua consequente descida às profundezas do Inferno.

A partir de meu primeiro decreto, o mundo se tornou uma só prisão. Digo melhor: duas continentais prisões. Não, não é isso, pois também antes os mares separavam os seres humanos. Entre o regime velho e o novo, no entanto, havia uma diferença fundamental: os homens na América Continental e as mulheres na Eurásia e África continentais. As ilhas e os mares passaram ao controle absoluto do Estado, elevados à categoria de territórios administrativos. Proibiu-se serem ilhas e mares visitados por qualquer continental, denominação dada aos escravos condenados ao homossexualismo. Aboliu-se o secular banho de mar, um dos deleites da humanidade até fins do século XX. Ilhas e mares passaram a ser habitados e vigiados pelos estatais, policiais e marinheiros, cargos destinados aos homossexuais convictos e voluntários a serviço do Estado.

Nos submarinos, navios e outras sofisticadas e poderosas armas aquáticas, os sexos ficaram perfeitamente separados. Ocorreram alguns incidentes graves, resultado de tentativas de fraude e violação da lei. Ora rapazes escondiam seus órgãos genitais de maneira absolutamente perfeita, no intuito de passarem por moças e se alistarem na tripulação feminina, ora moças se implantavam pênis e testículos de plástico ou extraídos de homens, no afã de se imiscuírem entre seus opostos. Dois ou três desses falsificadores da natureza conseguiram burlar a severa vigilância dos recrutadores e ferir a lei e os novos costumes. Esperava-os, porém, a pior punição. Não a do Estado, mas a da própria ousadia. Uma das moças morreu seviciada nas primeiras horas. A um dos rapazes ocorreu a mais desgraçada das mortes – devorado vivo num porão de navio repleto de mulheres.

O crime de fabricar ou desenhar uma simples jangada, mesmo de papel, inclusive a título de brincadeira, punia-se com a morte por afogamento. Aliás, quase todos os suicidas morriam no mar, na tentativa vã de atravessá-lo, em busca de seus semelhantes.

Mandei destruir toda a frota de mísseis, foguetes, satélites, sondas espaciais, observatórios orbitais, laboratórios espaciais, helicópteros e aviões. Determinei a demolição dos aeródromos, aeroportos, pistas de pouso e estações de rastreamento. Decretei a morte dos homens da força aérea. Intensa lavagem cerebral tratou de abolir dos cérebros a idéia de voar. Nada de lendas de Ícaro. As aves e os insetos voadores tiveram o seu fim, para evitar o recomeço das primeiras experiências de vôo pelo batimento ornitológico das asas e o surgimento de outros Leonardo da Vinci, Bartolomeu de Gusmão, Santos Dumont, Ferdinand von Zeppelin, Gago Coutinho, Sacadura Cabral, Auguste Lindbergh. Nenhum processo de vôo devia ser reinventado. Nada de balão, dirigível, zepelim, aeróstato, monoplano, biplano, sextiplano, aeroplano, hidravião. A História, a Arqueologia e outras ciências sofreram total reformulação. Solenhofen transformou-se em cemitério. Aboli do dicionário todas as palavras que dessem sequer uma vaga idéia de vôo. Tudo isto para evitar as fugas intercontinentais ou a busca de outros planetas onde porventura existissem seres idênticos aos humanos.

Apesar de tudo, o amor e o sexo existiam tão intensamente como nunca dantes. Praticava-se o amor homossexual não só com todas as garantias mas com os maiores incentivos. O Artigo Primeiro da Constituição dizia: O Estado Uno é um Estado Homossexual.

Jamais nasceu uma criança sequer. E se tal ocorresse, por uma suprema desídia ou traição dos guardas, a pena seria simplesmente a tripla morte do pai, da mãe e do filho. E ainda a de quem os houvesse ajudado, de uma forma ou de outra, na preparação e consumação do ato criminoso.

Nossas forças armadas sobrepujavam as maiores e mais poderosas até então constituídas na face da Terra, não só por necessidade do Estado mas, sobretudo, pelo elevado número de voluntários desejosos de servir à Humanidade. Todos os homossexuais – inclusive os assim declarados antes da revolução – e adeptos do controle da natalidade passaram a formar a máquina do Estado, a invencível máquina repressora. Nem por isso as forças armadas suplantavam em número a população civil.

Nos primeiros dez anos, chegaram a ser assassinados cerca de um bilhão de estatais. As revoltas, os motins, os complôs, os putsches levados a efeito pelos continentais e falsos policiais decuplicaram esse número. Porém, como sempre havia um bode expiatório, conseguimos o nosso objetivo à custa de desforras, da reação com mão de ferro, da lei de talião.

Numa dessas ocasiões, quando eu pessoalmente tomava a dianteira da repressão, me veio a maravilhosa idéia de mandar exterminar de vez todos os adultos – culpados e inocentes. Fiz guerrear homens contra mulheres com armas poderosíssimas – o simples contato físico de dois seres humanos de sexos opostos resultava na morte instantânea de ambos. Para conseguir isso, fiz transportar metade da população masculina para a Eurásia e a África, metade da população feminina para a América. O mesmo com relação às ilhas e aos transportes marítimos. O massacre se consumou numa só noite. Escaparam tão-somente as crianças ainda não capacitadas para a procriação, aliás as últimas ainda nascidas sob o ancien régime.

Em seguida ao sepultamento das vítimas da guerra do sexo, distribuí entre as crianças o soro da eterna infância, medida profilática capaz de extirpar para sempre a peste da procriação.

Desde então a face do mundo é outra. Aboli armas, prisões, penas, leis repressivas. De nada disso eu carecia mais. Aboli as classes. Passamos a ser apenas crianças ou seres humanos. Quase um milhão de pessoas. O tempo passava e as crianças envelheciam. Todas velhas, apesar de crianças. Tudo ia bem no mundo. Esperavam meus súditos pela eternidade, esquecidos dos milhões de adultos soterrados, e a única crença se assentava sobre a inabalável realidade da paz perpétua.

De repente, fenomenais abalos sísmicos engoliram cidades inteiras, enormes fendas se abriram feito bocarras pantagruélicas e famintas. As crianças, desesperadas, relembraram as pragas jogadas por seus antepassados e pelos destruídos livros proféticos das religiões abolidas. Desenterraram-se os mitos de suas memórias refertilizadas. Os corações dos mortos voltavam a pulsar? Seus insaciados corpos intentavam orgasmos subterrâneos? Seus cérebros engendravam vinganças?

O mundo ruiu e se fragmentou em milhões de pedaços, donde nasceu uma galáxia. Eu virei o sol do principal sistema solar e me abrasei e me consumi. As pequeninas estrelas aos poucos se espatifaram no espaço, até formarem uma só poeira. E voltamos ao pó.
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