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quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Os belos olhos de Sônia (Nilto Maciel)


Bonita, para alguns. Simpática, gentil, generosa, para muitos. Seus olhos, porém, todos cortejavam. Os belos olhos de Sônia.

Aos vinte e poucos anos, descobriram-lhe mais um atributo: azarenta. Sim, só podia ser azar aquilo. Muito caiporismo. Ora, ninguém é atropelado três vezes em menos de um mês.

Muita sorte a dela, diziam os médicos. Escapar com vida de três atropelamentos! A maioria morre da primeira vez. Uns poucos chegam à segunda. Por milagre! 

Sônia se dizia sempre atenta ao trânsito de veículos. Nunca atravessava rua sem antes ter certeza de não correr perigo.

— Não existe mais certeza, minha filha.

— Todos corremos perigo, até quando dormimos.

Além de prudente, Sônia se mostrava ágil. Como nos tempos de ginasta. Quando adolescente, nadava, praticava esportes, ganhava medalhas.

O primeiro acidente causou-lhe apenas escoriações leves. O carro surgiu de repente. Parecia encantamento. Um descuido, e quase perde a vida. Se não fosse tão ligeira...

Uma semana após este pequeno incidente acabou num hospital. Um braço quebrado, ferimentos da cabeça aos pés, dores de toda ordem.

Não durou muito, aconteceu o terceiro acidente. Salvou-a a grama aonde foi lançada. Por pouco não teve o crânio rachado e a bacia espatifada.

Nem quando viu um homem morrer baleado, Sônia não suspeitou de estar sendo perseguida. Não havia motivos para perseguições. Não tinha inimigos, não guardava segredos, não detinha poderes.

A única bala disparada atingiu a cabeça do homem. Pacífico comerciário. Marido doméstico. Paizinho de estimação.

O inquérito policial nunca desvendou o crime. Homicídio imotivado — concluiu.

Sônia e o homem trocaram ainda duas palavras. Ele perguntou a hora. Ela olhou para ele e respondeu. A seguir, ele deu um grito agudo e tombou.

Sônia ainda não morreu. Uns a chamam de azarenta. Outros dizem-na cheia de sorte. Na verdade, ela não mais trabalha, quase não sai de casa, protegida dia e noite por parentes e amigos. Diz-se perseguida, ameaçada de morte. E poucos dela duvidam. Só os médicos de um banco de olhos.

— Uma louca! — resmunga um deles.

— Que belos olhos! — sussurra outro.
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