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quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Uma leitura das Insolentes patas do cão (Foed Castro Chamma)




Desde meados do século XIX a retomada do espírito renovador da Renascença que culminou na ficção com as obras de W. Shakespeare no sentido vertical de crítica de costumes, de um lado, e, de outro, no início da Modernidade com o Discurso do Método, tem nas narrativas de Poe e no movimento que se consolidou com Baudelaire no Simbolismo o prolongamento dessa retomada de modo a manter a Literatura em sua linha de frente a questão histórica do homem, seu destino, que a filosofia e a arte aprofundam desempenhando os escritores um exercício cujo fim é a defrontação do homem consigo próprio e a consciência de um mundo a ser por ele representado como sua identidade cultural. Neste sentido, mais de que uma função diletante a Literatura está comprometida com uma escavação psicológica que divide o pensamento em tempo mítico e tempo histórico.

A partir de E. A. Poe o “mágico” confere ao discurso literário uma função fenomenológica onde o desenrolar do continuum traz em seu bojo a descontinuidade ou sincronia representada no signo lingüistico como imagem, símbolo e ícone. O descontínuo se contrapõe ao continuum gerando o estado do sonho no qual a representação sofre os cortes no tempo, marcada por exemplo em As Insolentes Patas do Cão, de Nilto Maciel, João Scortecci Editora, 1991, por uma disfunção sintática com um jogo de alegorias que são pequenos mitos, ou metáforas, como as definiria Franklin de Oliveira, adotadas por Poe em suas narrativas e mais recentemente por Jorge Luís Borges e Murilo Rubião. Tais metáforas observam-se no sonho de Chuangtse há 800 anos. Uma borboleta era o que Chuang sonhava ser: ao acordar não sabia se era o homem ou a borboleta. Tudo sofre a transformação de uma Única coisa, afirmava o filósofo chinês.

O tempo mítico sofre uma função retornante. É como a música. Sua estrutura sincrônica é igual a das matemáticas. Ali o tempo é número em sua função simbólica aglutinadora. Tal fato presidia o “sol noturno” dos gregos que Nietzsche chamou de época trágica. Todo o empenho que caracteriza o nosso tempo “pós-moderno” é o da contracultura no sentido de retorno ao início grego de um saber que é dado pelos sentidos. Ao niilismo budista de Schopenhauer se contrapõe a vontade de saber. A coisa Única é dada ao eu como diferença a engendrar a identidade.

O mágico, na ficção de Nilto Maciel, subverte o continuum, concentrando-se o espelho desse Autor no imprevisível, de modo a desfrutar o leitor do mesmo corte na sintaxe que leva a uma constatação de ruptura no tempo análogo à que se observa nas figuras do sonho. Mais do que uma forma barroca de produção tal ruptura possui implicação matemática na medida em que o discurso se sobrepõe ao racional, o mítico ao cronológico, a diferença à semelhança como a escavar a linguagem o espelho de um discurso antediluviano perdido em sua plenitude recorrente nas comunidades ágrafas às quais retorna a ficção como forma alegórica de repensar a representação. A arquê é esse emergir da imagem no núcleo da linguagem cuja fulguração mítica é bastante explícita, visível como as pedras atiradas aos cães no mito de Acteão, p. 15, o. c. Estamos diante de uma réplica ao niilismo de um Camus, um Kafka, um Fernando Pessoa. O que a ficção de Nilto Maciel persegue é a imagem, i.e., o ser em estado puro na produção da linguagem de modo a subverter o signo linguístico como é pensado desde os estóicos sob uma disciplina cuja sublevação devolve ao espírito criador o vigor dionisíaco do Renascimento.

O caráter alegórico nos contos de Kafka, de ressonância bíblica, é visível em "Incubação", "A fala dos cães", "Ilusões de gato e rato", etc. no sentido próximo de ressonância a pronunciar os vínculos cosmogônicos do poema e o conto, os quais se clarificam e estendem-se no romance cuja origem comum é bastante explícita em O Castelo e O Processo, de Kafka.

Em "A fala dos cães" o mérito ficcional de Nilto Maciel atinge a faculdade filosófica dos gregos voltados muito mais para a ciência do ser do que para os costumes como se constata em "Teoria do amor socrático", pequena obra prima de ironia machadeana. A ficção se confunde com a vida: a vida é ficção, assim parece em "Passeio", onde o Autor diz que as mulheres passando são “mais lindas que as do filme”. A última frase retoma o clima da alegoria com a qual a vida se confunde. Na técnica de narrativa a imagem sígnica em sua fulguração é realidade. "Olho mágico" é composto com o rigor formal de um escritor seguro de suas funções. A questão da Semelhança se coloca ali em relação à persona com uma metáfora, de que o sujeito é a síntese, não a Diferença.

Nestes pequenos contos de As insolentes patas do cão o retórico cede lugar ao insólito.

(Revista Literatura n.º 6, Brasília, junho de 1994)
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