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quinta-feira, 21 de setembro de 2006

A unidade de Babel (Caio Porfírio Carneiro)


Nilto Maciel é, e não de hoje, nome de expressão da literatura brasileira. Seus livros, todos eles, não se qualificam apenas pelos aplausos da crítica. Qualquer leitor que o leu viu, de pronto, desde o seu primeiro livro, que Nilto Maciel é um desses escritores que nascem feitos e irão até à morte em ascensão constante. E, para além da arte literária que produz, ele ajuda, como poucos, a empurrar para a frente esse “carro da miséria” que é a nossa literatura, uma cruzada sem fim contra tudo e contra todos, até contra moinhos de ventos. É, por tais méritos, um escritor íntegro e integral.
Babel, pelo título, diria bem da variação temática e formal do livro de contos que o autor entrega ao público (Editora Códice, Brasília, 1997). O condicional vale porque dentro dessa aparente arbitrariedade de seu fazer literário exsurge aquele ponto sensível que o qualifica e o distingue entre os melhores da atualidade: sua arte de contar é personalíssima, arrebatadora. Como se escrevesse em impulsos e contenções; como num jogo lúdico de dizer sem rodeios e cercá-los, ao mesmo tempo, de armadilhas inesperadas, variantes múltiplas ao longo dos textos, interrogações doídas não localizáveis, ressonâncias que vêm e vão não se sabe de onde.

Nilto Maciel parece vir sempre, ou surgir sempre, e de repente, de um tempo bárbaro, esse demônio que é a sombra viva de mistérios ocultos legados de gerações passadas. Eis porque em várias passagens de suas criações vem ao vivo um certo apelo bíblico. Poder-se-ia citar o conto “O Julgamento” como exemplo, mas isto não explicitaria tudo, eis que tal apelo fulge numa frase ou numa passagem inesperada de outros trabalhos do livro.

Senhor de todos os segredos da arte de contar, caminhando, com segurança, pelo regional, o fantástico, o alegórico, o mágico, indo do fotográfico ao sombrio, invertendo ou treliçando bem à vontade o andamento criador, onde até o formal poético está presente, como no trabalho que dá título ao livro, - não perde nunca de vista aquela perspectiva maior, intuída e inapelável: a sua imanência à terra, ao chão mais do que de infância, porque é uma carga sedimentada dos antepassados.

Os escritores nordestinos temos, para o bem ou para o mal, no coração e na alma, esse sinal atávico, quase sinete carnal, que se transmuda, na visão de um artista como Nilto Maciel, em catadupa de sonhos com muito de pesadelos. Isto é tão evidente aqui, apesar da universalidade temática, que até no conto “A Brincadeira” a sombra de outra fagulha maior explode e “espantalha” aos olhos do leitor.

Todos os contos são muito bons. Alguns excelentes, particularmente os menores, elípticos, ligeiros. Talvez pelos arremates surpreendentes, sem jogo cênico de fecho de ouro. “Prelúdio para a Morte de César” é uma prova, só para citar este. Não, porém, pela rapidez narrativa, porque Nilto é sempre rápido e um tanto assustador ao correr das frases, até em “Os Três Botões”, essa peça literária notável, onde o mágico e o “científico” globalizam uma visão universal da tortuosa história humana, plena de amargo humor, castelos desfeitos e desesperanças.

Embora a dor, a tristeza, a solidão e a miséria humana estejam bem presentes, tais sentimentos não são condicionantes fundamentais nesta obra. O autor constata, mas deixa que tudo flua naturalmente, levado pelo vendaval maior do seu talento criador, sem se descurar da sua ótica crítica muito abrangente e da sua notável experiência no trato da história curta.

Nilto Maciel é, em verdade, um autor imprevisível, quase estilhaçante. Mas, ao mesmo tempo, humaníssimo e preso aos seus fantasmas conscientes e inconscientes, que latejam e volatilizam da alma e do coração de um artista com lugar de destaque e definido na literatura brasileira.

Babel, ao revés, não dispersa nem tumultua as línguas: une-as num bloco inconsútil de grande alcance literário.

(Jornal Linguagem Viva n.º 100, São Paulo, SP, dezembro de 1997)
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