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domingo, 15 de outubro de 2006

Na bolsa (Manoel Hygino dos Santos)




Se tenho recebido os livros enviados? Respondo afirmativamente, embora nem a todos pude comentar até o momento, até porque a safra é grande e interminável.

Oportuno constatar e registrar, por outro lado, que há bons produtos, dignos de apreciação, alguns de autores novos e desconhecidos no mercado livreiro.

Leio livros como me alimento, escolho pratos e títulos, não ajo com voracidade. Só uso aqueles que me fazem bem, os que me agradam, sendo oportuno ressaltar que algo que apraz a alguém a outrem não satisfaz. Não trabalho em termos meramente numéricos: tantos volumes por mês, não é por aí. Se aprecio, chego ao final; se não, abandono-o sumariamente. Sobre gosto e cores não há discussão. 

Estou com Oscar Wilde, como antes disse, para quem não há livros maus ou bons. Há os bem escritos e os mal escritos. “Pescoço de Girafa na Poeira", de Nilto Maciel, vencedor na Bolsa Brasília de Produção Literária. se inscreve entre os bem elaborados, a qualidade seguinte – bom – é consequência natural.

A Bolsa foi criada com o escopo de estimular a produção literária no Distrito Federal, patrocinando a edição de trabalhos nos gêneros poesia, crônica, conto, romance, novela e nas modalidades infantil, infanto-juvenil e adulto, assim como ensaio. Cumpre seu objetivo com louvor e o livro de Nilto é exemplo. O título pode parecer estranho, mas quem chega ao texto verifica que perfeitamente se enquadra no que quis o autor descrever. É a história de Fátima, criança que adorava circo como todas as demais e sonhou integrar-se a um grupo, que acampara num lugar qualquer do país.

Fátima gostava do circo e admirava Igor, o acrobata de bela musculatura, formas vigorosas, cabeleira loura, voadora ao compasso de suas piruetas. A mocinha escapou às amigas e viu Igor de perto, falou-lhe, conversaram, beijaram-se, sob espreita da trapezista Catarina, de olhos azuis, enciumada.

Arquitetou-se a fuga, para quando o circo partisse. Ela se faria trapezista e percorreria a estrada por rincões desconhecidos, ao lado de seu amor, Igor, musculoso e de cabelos louros. Certo dia, removidos os pratos da mesa, correu Fátima à janela e viu ao longe a caravana se despedindo, aparecendo a cabeça da girafa sobre um dos caminhões. A poeira tornava o sol amarelo. Ela correu atrás dos veículos, aproximou-se, mas os viu sumir. O pescoço da girafa se perdia ao longe, tudo era poeira e cada vez mais distante.

Os contos de Nilto Maciel, cearense de Baturité, Ceará, 55 anos, implantado em Brasília desde 1977, com doze livros publicados e com iniciativas valiosas no campo das letras, são de excelente qualidade. Tanto que venceram na Bolsa Brasília e João Carlos Taveira o considera próximo de Machado de Assis, maduro e inconfundível, de “Quincas Borba” e “Memorial de Aires”. Não poderia haver elogio maior.

Conciso, de frases espontaneamente fluentes, curtas, tem escritura de mérito, dentro do conceito de Wilde, a que me referi. Em alguns contos, ressumbram imagens de mortos, e há vários nas peças iniciais de “Pescoço de Girafa na Poeira". Mas não espectros como o que aparece nas muralhas do castelo de Elsinore, nas noites frias da Dinamarca, ao príncipe Hamlet. O autor relata e dá margem a suposições e conclusões, como no caso do holandês Vilgot, desaparecido de determinada cidade sem deixar rastro. Narra e sugere, para que o leitor inteligente e sensível, adivinhe.

(Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, MG, 17/7/2000)
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