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terça-feira, 24 de outubro de 2006

Nilto Maciel: O discurso de um louco (Sérgio Campos)




Há escritores para quem a técnica se converte numa espécie de obsessão, um refazer constante em busca de seu arquétipo, às vezes consistente na linguagem enquanto processo(forma), outras na solidez de uma tese (fundo) que se converte em finalidade do próprio ato de escrever. Esse uso exaustivo e abusivo da técnica, mormente enquanto processo da escrita, acaba se convertendo em estilo, o que, como bem adverte Octavio Paz, pode transformar a obra literária em mero artefato. 

Essas observações são feitas a partir das reflexões de leitura de dois livros de Nilto Maciel, Punhalzinho Cravado de Ódio e Estaca Zero. São ambos de 1986, ano marcante na criação literária do autor, e demonstram sobejamente sua competência. Quem pensa ter encontrado no contista de Punhalzinho Cravado de Ódio uma razão a mais para se interessar por Estaca Zero terá alguma surpresa ao ver que o autor, apto a disparar a azagaia do conto com presteza, dispõe de igual talento para enfrentar assunto de maior espectro, empreitadas tais que demandem um exercício narrativo mais complexo.

No primeiro dos livros apontados, Nilto nos apresenta 24 contos. Já aí demonstra sua versatilidade, sendo ora o contador de “causos” do rural nordestino" ("Rede de Cobras” e "Gesta do Jaburu"), ora o crítico ferino do sistema nos centros do poder ("O Oráculo”, “O Grande Jantar", “Insensatez”), ora o depoente dos momentos angustiantes da existência ("Quimera", o antológico "O Problema Fundamental da Existência"). Paralelamente, no que tange ao domínio técnico de seu ofício, faz muito bom uso da alegoria (“Santo Yan”, “O Desafio de Facundo”, “Mimo”, “Esses Abraçadores da Morte”), e do lúdico, sem fatuidade (“A Lenda de um Reizinho”, “O Pecado do Dr. Ipsilon”), assumindo com muito vigor o tom profético (“Apocalipse” e “Teoria da Desfiadura”), tangendo com leveza o poético (“O Fogo e A Luz”), mostrando-se, ademais, pródigo na utilização de processos nobres de linguagem, como metáforas, sinestesias e animismos, enriquecendo sua linguagem também pela (re)descoberta de palavras fascinantes. É um belo livro de contos, cuja qualidade literária indiscutível pode ser sintetizada no conto que dá título ao livro. Em Punhalzinho Cravado de Ódio demonstra Nilto amplo domínio de sua forma de expressão, versatilidade na abordagem do tema, concisão e – por que não dizer – a argúcia dos remates desconcertantes que dão especial sabor aos contos, quando não transformados em meros exercícios de imaginação.

Já em Estaca Zero, Nilto se mostra um escritor capaz de batear mais fundo, de dar forma e substância literárias aos grandes temas, aos conflitos do sistema iníquo em que vive. Já não se trata de um conto e, não sendo um romance, preferimos dizê-lo, provisoriamente, um memorial. É um texto denso e, conquanto denúncia, não está a serviço de proselitismo político ou ideológico (fundo) nem adquire o ranço dos relatórios (forma). Decerto sabemos dos problemas urbanos terríveis de nossas metrópoles, entre os quais a favelização gerada pela migração desesperada e a perda de espaço pelo crescimento caótico, mola da especulação imobiliária. Mas conferir vida literária a isso é algo bem mais complexo que simplesmente sabê-lo.

Consciente de que o universo de interesse de um escritor comprometido com seu tempo abrange problemas cruciais como este, Nilto Maciel deixa o espaço do conto, em que tão bem se movimenta, tornando Estaca Zero a expressão literária deste quadro cruel, e o faz através de um personagem que reflete a própria consciência dos seres envolvidos nesta perversa rede de cumplicidades. Essa “persona” é Cesário Valverde, herdeiro do espólio de uma grande família da velha burguesia, em fase terminal e em cujas “casas de aluguel” fez-se um cortiço e em seqüência uma favela. Nilto coloca seu memorial na escrita de Cesário, nas fronteiras da completa demência, e através de suas alucinações, com intermitência, vai “passando” o real.

A expressão literária de Estaca Zero é de qualidade inegável, valorizada pelo fluxo adequado da narrativa, incorporada de elementos alegóricos e oníricos de rica invenção e que conferem à demência de Cesário a credibilidade necessária. Não se trata de ficção, pois os fatos são reais. O que acontece é que essa realidade é posta nos lábios da loucura... E o autor vai além: realiza simulações jornalísticas, “musicaliza” o material alucinatório, e chega a esboçar uma dramaturgia, sempre a serviço do enriquecimento do universo caótico do personagem.

Quando, ao final de seu manuscrito, Cesário diz que “tudo não passou de ditados de fantasmas”, está Nilto a completar a grande alegoria em que se constitui Estaca Zero, ou seja, está coroada a estratégia do pensamento em chegar ao real pela (no caso) alucinação. E, no entanto, o leitor terá certamente visto em amplo painel a face social e econômica de todo um ciclo da história contemporânea brasileira. O que, contado por um louco, é positivamente um achado.

Esses dois livros ilustram o que foi dito de início. Ao não tomar a técnica por repetição, buscando pela exaustão do processo a plenitude de fundo ou forma, mas utilizando-a como aliada na experimentação constante (no caso) de novos “tempi” de narração, o escritor mostra-se versátil e apto a responder aos desafios de seu crescimento. E Nilto Maciel sabe disso.

(Suplemento Literário Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, 21/11/1987)
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