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sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Pescoço de girafa na poeira (Foed Castro Chamma)



O que supõe a Moira ou Destino é o encontro do sujeito consigo mesmo nos confins do pensamento, onde a medida é o tempo que se estende recolhido pelo próprio indivíduo. Esta a causa sui do ser enquanto negação que o sujeito representa, recluso na subjetividade, lá onde arquiteta o vôo sem fim do pensamento na construção da realidade, a partir da imagem, a qual tem na imaginação o primeiro degrau de um campo recolhido ao delineamento concreto da razão. A extensão do tempo é a substância do pensamento; o corte em sua medida por outro lado é o desmonte estrutural da base que serve à imagem transmudada em realidade. De maneira que capturar o pensamento na fonte antecipando-se ao tempo constitui função operacional tanto do historiador quanto do ficcionista, este preso ao cânone (arcaico) da Arché, cujos arquétipos foram substituídos ainda na Ática pela figura do herói. No ser sobrepaira o sujeito articulador do mito e por fim da história a qual, em sua pluralidade, é transformada em unidade emblemática do Eu. O ficcionista e o historiador estão em princípio comprometidos com o descortino do subjetivo e do concreto, cuja dualidade corresponde vale dizer a tempo e espaço.
Pescoço de Girafa na Poeira, de Nilto Maciel, Edição Bárbara Bela, 1999, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 1998, se sobrepõe a todos os percalços em sua qualidade textual e abrangência literária, fruto do espírito resoluto do escritor comprometido com uma vocação que se elucida à medida que cresce a sua obra em número e qualidade. O que na aparência é simples relato, um conto, traz implícita a descoberta do Ser embutido no sujeito da oração e na linguagem. O estilo singular antecipa-se à história de modo a retomar o Autor em cada texto o sentido arquetípico do Mito. “A Pálida Visitante”, à p. 15 da coletânea, desperta exclamação de beleza. A resposta de Jacob Grillparzer, “autor de uma história do Egito antigo e a praga de gafanhotos”, respondendo em latim a perguntas do interlocutor, é exemplar. A citação de Horácio lembra um livro anterior de Nilto Maciel (Vasto Abismo) onde o latinista/personagem enamora-se da bibliotecária. O encadeamento de frases latinas em livros diferentes dá a certeza da erudição do Autor debruçado na Caverna à procura de figuras que guardam na sombra os vestígios de arqueólogos que remontam a antigos acontecimentos. A idéia de vinculação dos livros associada a fuga e ao sonho da menina Fátima de ir com o circo é uma pequena grande jóia estilística: a citação de ciclos históricos e os versos de Sá de Miranda (O sol é grande, caem co'a calma! as aves do tempo em tal sazão, que soe ser fria) são de unidade intrínseca carismática no pequeno conto que dá título ao volume merecidamente laureado pela Secretaria de Cultura do DF. A citação de Camões em “Remição” junto ao eloqüente epigrama - o incesto começa no útero - dentre outros epigramas a denotar a origem comum do ver e pensar parmenídico faz desse conto uma pedra de toque. “Ode à Tarde” possui o mesmo desfecho de um mini conto de Kafka onde o rato entra na boca do gato julgando o buraco de um esconderijo. Em “Dois Seres” instaura-se com o pensamento o limite humano e a instigante indagação aristotélica sobre o Ser. A imaginação projeta extremos requintes nas pequenas peças que ganham com Nilto Maciel proporção nostálgica, tão cara à metáfora mitopoética de um Francisco Carvalho, um Carlos Emilio Corrêa Lima. O símbolo fálico do licorne abarca todo o “Sonho da Princesa”. Tal contística tem como estratégia a decodificação do imaginário e o retorno ao espelho da Semelhança. Belo texto aquele intitulado “O Arcanjo e a Princesa”. Em outro conto exemplar, o sonho de Colombo ao tornar-se pesadelo imita a vida... A incerteza dos fatos habita o discurso. Em “A Salvação da Alma” o mito é início e fim, é resgate diante da cósmica usurpação do logos. Raiz misteriosa é a genealogia que tem como referencial a Casa, tema de Júlio Cortázar em “Casa tomada”, que Nilto Maciel transmuda em “Circuito”, elucidando o sentido originário, obscuro da Humanidade. A constante do sonho como um duplo é estratégia de uma ficção sobre outra, um libelo à Identidade e suas máscaras, o logos e seus espelhos... A erudição mescla-se ao relato: o Autor cresce aos olhos do leitor. A sátira associada a Robbe-Grillet engloba o caos, anteposto ao realismo apofântico diante do pós-moderno. O Acontecimento não anula o Acaso...

(Revista Literatura n.º 18, Brasília, junho de 2000)
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