Pesquisar este blog

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Prelúdio para a morte de César (Nilto Maciel)


Fazia muito calor, as muriçocas cantavam ao pé do meu ouvido, os cachorros latiam longe, em cadeia, insones e monótonos, e eu não conseguia dormir, por mais que remexesse os baús da infância. Banhos de rio, o tempo das chuvas, cantigas de roda. Onde está a Margarida, ô lê, ô lê, ô lá; onde está a Margarida, ô lê, seus cavaleiros.

Em dada hora, ouvi a voz de César. Falava com a mãe e perguntava pelas irmãs. Depois tudo se calou e só eu falava comigo mesma e cantava para me ninar.
Talvez o banho frio tenha me tirado o sono. Talvez. Por muito tempo fiquei a olhar para as telhas, sem vê-las. Em lugar delas eu via vultos obscurecidos, a vagarem de um lado para outro. Senti medo, fechei os olhos e outras criaturas me apareceram, ora em figura de gente, ora em forma de bichos. Tudo ilusão, eu sabia.

Quando os primeiros galos já cantavam, senti na pele o deslizar de um corpo pequeno, feito um rato liso, um sapo frio. Passeava nervoso pelas minhas pernas, subia até as coxas, parava aqui, bem em cima das partes, assustava-se, sumia, para reaparecer mais adiante, nos seios, e beliscá-los levemente. Para mim aquilo era minha própria mão a correr sobre meu corpo. Eu queria acordar, fazer sossegar a mão, para dormir de vez. Remexi-me na cama e nada mais me transtornou. Dormi, com certeza.

Aquele afago, porém, não demorou a inquietar-me de novo. O mesmo carinho sôfrego, toques leves, sorrateiros, de silfos. Um corpinho frio, que parecia saltitar, ora indo, ora vindo, num passeio trêmulo, às vezes voluptuoso.

Não sei explicar: para mim aquilo era mão humana e, ao mesmo tempo, um gatinho safado, um bichinho qualquer que quisesse se aninhar em meu colo. Retirou minha calcinha, devagar, suspendeu minha camisola, também sem malícia, e me fez abrir as pernas, vagarosamente. Também não sei como, e eu sonhava, alguém metia os dedos aqui, entre minhas coxas, e depois, quando me penetrou, eu acordei, a gritar, mas a gritar de prazer, a abraçá-lo, beijá-lo. E quando tudo passou, já na meia claridade da manhã nascente, aquele homem horrível, nu diante de mim, eu chorei, enchi-me de ódio, como se tivesse sido enganada. Ele, César, me olhava, satisfeito e atormentado. Chamei-o de bruto. Ele me chamou de puta.
/////