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domingo, 22 de outubro de 2006

Uns seios (Nilto Maciel)





“E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo, na rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos.” Machado de Assis



Pedrinho olhava distraído para os seios de Izaura, que se debruçara sobre a mesa para melhor distribuir o almoço.

– Provou do cozido, Severino?

Em vez de responder à mulher, o advogado deu um berro e pôs-se a descompor o hóspede.

– Esse menino não tem jeito. Vive dormindo em pé. Acorda, palerma, presta atenção às coisas!

Filho mais velho de um irmão de Severino, andava Pedrinho por volta dos quinze anos e só há um mês chegara de Baturité.

Severino combinara, com o irmão do interior, dar comida e dormida ao sobrinho, além de providenciar-lhe estudos regulares, desde que o garoto o ajudasse no escritório.

Casara-se com Izaura, moça bonita, de vinte e cinco anos, toda dedicada ao lar. Mas, apesar de conviverem há três anos, não tinham filho.

Terminada a refeição, serviram-se de café. Ela quis saber das novidades da cidade e o marido falou de loteamentos, carros, juros.

Alheio às preocupações do patrão, o garoto olhava de soslaio para os seios da senhora, enquanto levava à boca a xícara.

Seu trabalho, se não era penoso, chegava a ser cansativo. Levava correspondências, depositava cheques, limpava o escritório, ia ao Foro, comprava cigarros, jornais, café, servia aos clientes do tio. Não descansava um minuto sequer. E, à noite, corria à escola, para voltar, cansado e sonolento, em ônibus superlotados, para um sono de poucas horas.

– Não vai beber esse café hoje, não?

Era Severino de volta às repreensões, aos abusos, esgotado o assunto das novidades solicitado pela esposa.

Logo na primeira semana de nova vida, Pedrinho percebeu o jeitão esquisito do tio-patrão e pensou em voltar para sua cidadezinha. Mas aqueles seios durinhos, sempre meio escondidos, meio à vista, o fizeram desistir da apressada decisão. O lado bom da vida.

Após o jantar, sentaram-se à sala marido e mulher. Ela pensativa, a recapitular o incidente do almoço. Sim, o rapazinho não perdia oportunidade de meter os olhos por entre seus seios.

Curioso, o safado.

– Deu para andar cochilando também?

E Severino voltou a falar mal do sobrinho. Chamou-o de preguiçoso, moleirão, dorminhoco.

Viram novelas por umas boas horas, até que ele se pôs a cabecear no sofá. Ela não, apenas lutava com os pensamentos. Devia dizer tudo ao marido, falar da malícia de Pedrinho, de seus olhares lascivos? Mas tudo o quê? Ora, o pobre garoto não cometera nenhum ato de desrespeito. Que mal podia haver num olhar?

Além do mais, não tinha culpa de se ver tentado. Se culpa havia, essa começava e terminava nela. Culpa não, que nenhuma mulher é culpada de ser bonita. Ora, culpa! Pois sentir-se admirada, galanteada, desejada é um atributo feminino.

E se debatia num mar de idéias, conjecturas, dúvidas.

Nos dias que se seguiram, Izaura passou a observar mais o adolescente. E percebeu estar ele apaixonado dela. Claro, aqueles olhos de fogo, aquele nervosismo diante dela, aqueles suspiros só podiam significar muita paixão. Mas pura paixão adolescente, coisa passageira. Bastava combatê-la, sufocá-la, matá-la no seu nascedouro.

Percebeu Pedrinho a repentina mudança nas atitudes de Izaura. Já nem sequer lhe dirigia a palavra e, quando o fazia, era com aspereza, tal qual o marido.

Se antes havia motivo para despedir-se daquela casa, então sobravam razões para uma fuga. Sim, precisava ir embora, nunca mais ver aquela mulher, aqueles seios.

Durante dias esteve o garoto às voltas com a dor de, para sempre, deixar de ter pertinho de si Izaura. Longe dela, no entanto, ardia de desejo de vê-la. Perto, esquecia a só lembrança da idéia estúpida de voltar a Baturité.

Cuidou, não só ela se mostrava a mesma criatura afável de antes, como até o tratava com carinho.

– Você está bem, tem se alimentado durante o trabalho?

Dava-lhe conselhos, como andar pelas ruas, escolher companheiros, conversar, queria saber de suas necessidades de vestuário, calçados, higiene, diversões.

No decorrer de certo almoço, Severino contou uma piada e andava Pedrinho tão à vontade na casa que riu pela primeira vez diante do patrão. Izaura não notou a mudança no hóspede, mas antes beleza no seu sorriso.

Apesar de tudo, o garoto não ia bem. Atrapalhava-se no serviço, trocava o correio pelo Foro, os bancos pelas bancas de jornais, não dormia direito, perdia o apetite, definhava.

Numa tarde de domingo, viu-se obrigado a desviar os olhos da televisão que tinha diante de si para acompanhar a imagem maravilhosa de Izaura, saída de não sabia onde. Não podia ser verdade, no entanto, a repentina aparição dela, se se enclausurara no quarto do casal desde a partida de Severino. Após o almoço, fora ele em visita a um amigo.

– Vamos, minha filha.

– Não, pode ir só. Estou indisposta, cansada, com sono. Vou dormir.

Realmente, no momento em que Pedrinho a viu, Izaura remexia-se na cama. A seguir, levantou-se, andou pelo quarto, arrumou o leito, mexeu nas gavetas da penteadeira, olhou-se, penteou os cabelos, perfumou-se. Pervagou ainda o quarto antes de abrir a porta e dirigir-se à sala.

Deitado no sofá, Pedrinho já dormia. Parecia um anjo. Izaura amiudou os passos, pisou de leve no chão, para não acordá-lo.

– Como é lindo!

Diante dele, vieram-lhe à tona pedaços do sonho da noite passada.

O garoto dormia e ela, como se atraída por ele, aproximava-se da cama.

Não conseguia reunir os vários quadros da cena. De onde viera? Do quarto do casal, do banheiro, da rua? Inclinava-se sobre o hóspede, medrosa, coração aos pulos, olhos faiscantes. E daí?

Sim, apalpava-o. A que altura do corpo?

Ouvia a respiração dele, achegou-se mais de seu corpo moreno, ajoelhou-se, como se aos pés de um Cristo.

Um ruído fê-la estremecer e recuar. Quem será? Era o gato, à cata de sobras de comida, na cozinha.

Sonhava também Pedrinho. Assistia à televisão, numa tarde morna, enquanto Izaura dormia no quarto ao lado. Não o prendia o que via. Enfastiava-o. E cochilou. E teve um sonho passageiro, mas delirante. Pois lhe aparecia ela, tão bela como na realidade, os seios quase à mostra, balouçantes, livres dentro do vestido, e, como acreditou pudesse ser verdade, caminhava em sua direção.

Recomposta do susto, reaproximou-se do sofá, tateou o corpo dormido do garoto.

Severino não voltaria tão cedo, o gato não teria olhos para o amor, os homens e as mulheres da televisão falavam, riam, choravam, mas nada viam nem ouviam. Podia sossegar, passar horas seguidas junto de Pedrinho, os lábios a um beijo dos lábios dele.

– Está dormindo.

Antes do anoitecer, ele despertou, feliz, pronto para retomar o fio esquecido de sua rotina, trabalhar feito burro de carga, agüentar a cara feia do tio, dormir pouco e sonhar muito. E ver, duas ou três vezes por dia, Izaura, seus seios cor de rosa, admirá-la, amá-la.

Nos dias que se seguiram, não notou nenhuma atitude dela e de Severino que pudesse significar ressentimento ou coisa parecida. Antes, via menos ríspido o tio, mais amorável Izaura. Podia então continuar a relembrar aquele sonho maravilhoso, recapitular as cenas daquela tarde de domingo.

Porém, só durou uma semana sua ilusão. No outro domingo, Severino o chamou:

– Você não está se dando bem aqui, é melhor voltar para casa.

Não deu maiores explicações e nem falou com rispidez. Izaura também não parecia zangada.

– Vá com Deus.
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