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quarta-feira, 1 de novembro de 2006

A caça dos monstros pelos monstros (Salomão Sousa)



 
De início, tem-se a impressão de os burros irem dar n’água, de tratar-se de mais um caso de desonra, de defloramento. O leitor mais desavisado, em erro, será tentado a desistir da leitura.

Quando se defronta com um caso destes, pergunta-se porque o autor não começou a obra com outro motivo: a morte de um cachorro, a derrubada de uma casa? O papel do ficcionista é ficcionar, não ficar preso a fórmulas prontas. 

Mas A Guerra da Donzela vai se emaranhando em campos vastos, férteis, descobre-se que as armas usadas são de calibres justos. Basta reparar que até os parágrafos se encorpam com maior facilidade, porque, à medida que avança, a obra vai descobrindo o que quer.

Adiantando que começa com drama cotidiano, encorpa em comédia e termina em drama histórico – aboliremos, aqui, o ficcionista, para não culpá-lo de qualquer infiltração pessoal ou erro que venha a cair dentro do livro. Desconhecê-lo cearense, padecido, talvez até deflorador, ladrão de filhas alheias. Se no corpo de A Guerra da Donzela estes itens vão sendo identificados, aparecem fluentes, é prova cabal de que realmente uma obra, independente do autor, como uma cantiga cariri: é impessoal e, ao mesmo tempo, de todos. O bom romance (?) é isso.

Deve(m) ter visto uma interrogação após romance, anteriormente. E é, questionável. Talvez conto, pela linearidade, brevidade. Talvez novela, destas atuais: curtas, pelo desaparecimento das descrições dos personagens, do ambiente, localização e tempo; pela formação dos capítulos, que procuram infiltrações, situações engraçadas, e não amarrar, como indica o romance. Talvez romance, por começar e acabar dentro de um mesmo propósito narrativo.

Como compete a identificação do mundo imagético do autor ao crítico, mundo que ele não pensou tão abrangente – e aqui nos arvoramos em crítico, sou tentado a justificar as imagens fantásticas levantadas pelo autor, que ele ainda insiste em chamar de reais.

De início, tão banal, como acusamos, já é uma maneira de sátira, para dar corpo justo ao todo novelesco. Por isso, uma obra não pode ser lida em partes isoladas, e ser analisada a partir daí, pois perde, quase sempre, seu maior sentido.

As pessoas, neste mundo, são ovelhas desgarradas. E ao serem postas no caminho, podem se transformar em anjos ou em bestas-feras. A Guerra da Donzela mostra um destes caminhos, para o qual é encaminhado maior número de pessoas: como há mais bestas-feras, o nascimento de feras é simples de ser provocado. E, com o aumento das bestas-feras, elas acabam por entrar em choque, no emaranhado que criaram. Nem se dão por isso. Morrem e não sabem que provocaram a própria morte.

Nilto Maciel consegue, estas imagens com muita, propriedade. Com valorização das palavras, do humorístico, este em seu sangue; os capítulos bem fechados. Linguagem fluente mesmo, sem ser cansativa. Fica apenas um mal (este em todo o novelesco nacional – e talvez um ato inconsciente do criador): a ação nem sempre é presente. Não desenrola, mas segue presa. Às vezes, diálogos internos tentam corrigir este quadro, mas não consegue limpar toda a obscuridade, todo cansaço da leitura, ficando apenas como mais um colorido do estilo.

Uma observação sobre os personagens: se não se delineiam, um amontoado, se não há protagonistas, é pela própria equivalência das pessoas no mundo.

Sabendo que Nilto Maciel ainda não leu Durrel, ao compor este painel para suas personagens-pessoas, numa atitude completamente contrária, sabe que elas, para o novelesco podem servir, mas para a vida real não servem para extensões, não são utilizadas, em totalidade, para montar outras realidades, outros quadros, como forma de melhorar a vida.

E como o livro todo é um percalço de estar ao encalço, é sair também ao seu encalço, e ler.

(Suplemento Cultural de O Popular, Goiânia, GO, 11/12/1982)
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