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sábado, 18 de novembro de 2006

Estaca zero (José Alcides Pinto)


"Após as palmas e os chamados, Esmeraldo encostou à cara na tábua da porta e fechou um olho. No piso de madeira uma barata passeava, volumosa, tranqüila. Na parede a barba imperial do meu avô olhava para o lado da rua, cheia de rugas, solene. Mais ao lado, um Deus soprava nuvens e fúrias, ancião poderoso e terrível."

Um Canto, um Auto, um Grito Social, pode ser tudo isso Estaca Zero, o pequeno, mas significativo romance de Nilto Maciel, lançado pela Edicon, São Paulo.
Estaca Zero possui a estrutura de um poema de vanguarda, um grito de revolta. E como já dissera Camus, toda vida consciente é uma revolta. Em verdade, a poesia não precisa da ficção, mas esta precisa da poesia. E por isso, os grandes romancistas são sempre poetas.

Neste poema em prosa vanguardista, estão presentes todos os ingredientes de denúncia social, latejando como a semente debaixo do chão.

Estaca Zero mostra a asfixia do poder, o reflexo sujo do monopólio, a borra do latifúndio, a ambição dos que tem tudo contra os que nada têm.

Este círculo vicioso, espécie de estigma, marca a condição humana desde os tempos mais remotos da história – história que o escritor Nilto Maciel passa a limpo, vai buscá-la do fundo de sua memória para compor sua “narrativa discursiva”, que só não o é, porque, como dissemos acima, a sensibilidade do poeta, do artista, empurra o jargão jornalístico para os caminhos da ficção, uma ficção entremeada de metáforas ousadas.

A princípio, o leitor descuidado, toma o enredo do livro por uma reportagem, um acontecimento banal, mas não será, apesar do tema (todos os temas são ricos, se o autor não é um plebeu de idéias). E Nilto Maciel possui, um universo ficcional para transmitir aos seus leitores, repleto de uma boa dose de realidade e fantasia.

Todas as favelas (e é desse tema que se ocupa Nilto Maciel) começam com um barraco seguido de outro. A espantosa dignidade dos miseráveis faz com que se identifiquem e que se estabeleça, entre eles, uma espécie de aliança, laço comum de amizade recíproca. Daí o sentimento que os une e os fortalece na defesa de seus "legítimos direitos” – o da posse de terra onde edificaram seus abrigos movediços.

Estaca Zero não foge à regra, embora tenha surgido de uma vila de seis casas. É a mesma coisa. Com a decadência de seu proprietário, do abandono do logradouro, se dá a invasão. Os sem-terra acampam para ficar. Sempre foi assim e sempre será enquanto a miséria for o corvo negro do mundo.

Bem, mas há uma diferença muito grande quando se põe o papel na máquina, quando se é escritor, para assumir uma estória, seja ela qual for. O tema não conta, no caso: o que está em jogo, antes de mais nada, é a obra em si – a responsabilidade do autor diante de sua contemporaneidade. Seu testemunho, partindo mesmo de fatos verídicos, como é o caso de uma favela, portanto de um problema social, é necessário que o autor ultrapasse as contingências de natureza política, de ordem prática, realista, e procure situar a narrativa num plano em que realidade e ficção se completam e se conjuguem num todo uniforme e plural, sem prejuízo para esta ou aquela parte.

Estaca Zero é, antes de qualquer cousa, uma obra de ficção. Seu relato, o emprego adequado da linguagem introspectiva e a trama novelesca extrapolam os “fatos reais", e o que se vê é um autor angustiado face ao destino do homem – um homem desamparado, injustiçado, espoliado em seus direitos, sob o jugo (e o julgo) os tiranos do poder.

É este o Nilto Maciel de hoje e de sempre, consciente de sua destinação de escritor. O jornalista ficou para trás. O advogado também. Mas nesta obra, bem que os conhecimentos forenses vem ao seu encontro. E ele deles se beneficia, e pode, com precisão, tocar o cerne de sua narrativa.

Mas não será ainda esta vertente que segura o texto e o enriquece, dando-lhe grandeza e amplitude, mas a sua acuidade psicológica na caracterização dos personagens, na força de seu estilo, no trato com a linguagem e na delicadeza poética que sempre se descortina em todas as passagens do livro.

(Jornal Notícias Culturais, Fortaleza, CE, fevereiro de 1995)
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