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terça-feira, 21 de novembro de 2006

O verdadeiro Mangarobeira (Nilto Maciel)



Dando prosseguimento ao nosso estudo sobre os heróis nacionais, dedicaremos a aula de hoje à figura do Marechal Mangarobeira.

Segundo os historiadores, sobretudo Francisco Rodolfo de Varrasco e João Capitolino de Trigona, homens criativos por excelência, mormente no apelidar personagens históricas, o Marechal Mangarobeira recebeu em vida alguns cognomes, entre eles o de Marechal de Pau.

Voltando às alcunhas, quero relembrar uns nomes famosos e seus respectivos apelidos. Direi os primeiros e vocês completarão. Vamos lá. Pepino. O Breve. Muito bem. Ivã. O Terrível. Ótimo. Guilherme. O Conquistador. Basta.

No que se refere aos marechais propriamente ditos, tivemos ocasião de esmiuçar as vidas de alguns deles, como a do Marechal de Ferro, conhecido por sua rigidez; do Marechal de Paládio, notável por comer e dormir no Palácio; do Marechal de Titânio, célebre por sua leveza, chegando a cair nada menos do que vinte e duas vezes, apesar dos quase dois metros de estatura, e famigerado pela tentativa fracassada de golpe contra o Presidente Suez; do Marechal de Escândio, famoso pelos escândalos em que se envolveu.

Ao Marechal de Pau, perdão, Mangarobeira chamavam também de Marechal das Pernas de Pau, apelido dado por seus inimigos estrangeiros, pelos civis nacionais e ainda pelos militares de nossas armas adeptos dos “criados que tratam dos cavalos” metálicos.

Como eu pretendia enunciar no início, nosso marechal não foi propriamente um herói, apesar de ter sido incluído no rol dos semideuses por Varrasco e seus discípulos. Chamo-o de mártir, e, por isso mesmo, segundo minha modesta opinião, deveria figurar na galeria onde vivem Cristo, Tiradentes, Lorca e outros torturados. Prestem bem atenção aos nomes, para não virem depois dizer que falei em mártir nacional. Não, Mangarobeira foi mártir u ni ver sal. Atentem para a dimensão do termo. E fundamento meu juízo: ele não é herói porque não morreu nos campos de batalha, ao contrário do que atestam meus colegas, desculpem, os historiógrafos, essas bestas que escrevem sobre o passado. Como já afirmei num dos capítulos de meu Tratado Histórico da Baderna, esse Marahskalk faleceu vítima de necrose, ou seja, de gangrena, ou seja, da praga que assolou suas pernas, abandonado por todos, inclusive por seus filhos e por sua legítima esposa.

Os últimos dias de Mangarobeira foram de um padecimento jamais imaginado. Seus ais foram tão pungentes que chegaram a sensibilizar os animais domésticos do velho casarão. Os cães ladravam, as galinhas cacarejavam, os papagaios taramelavam, as andorinhas trissavam, os morcegos farfalhavam, os bezerros mugiam, os bodes bodejavam, os gatos miavam, os ratos chiavam, os urubus crocitavam, as moscas ziniam, a hiena manchada, aquele bicho de andar elegante, andar que conduzia o benemérito homem à abstração absoluta, esse mamífero solitário, noturno e asiático uivava e ria ao compasso dos gritos de seu criador, lembrando-se, talvez, do dia em que conheceu seu caçador e devorou as pernas apodrecidas de um soldado rebelde.

Aos primeiros berros, o antigo quartel-general se despovoou, os filhos indo buscar refúgio nos bares e cabarés, as filhas nos leitos dos generais. E aos generais foram substituindo os coronéis, a estes os majores, até que os mais animalescos recrutas preferiam a solidão. A marechala, ao contrário, iniciou a retirada não pelas estrelas mas pelos coturnos, prometendo patentes às sentinelas.

Segundo os compêndios de História, o Marechal de Pau morreu numa das mais sangrentas batalhas da última guerra, comandando heroicamente as leais e valentes tropas nacionais. Em verdade, travaram-se sangrentas batalhas durante a última guerra. Em verdade, havia um comandante das tropas nacionais, que nunca se chamou Mangarobeira. Em verdade, o suposto herói expirou vinte anos depois do conflito sem nunca ter visto sequer um campo de batalha. Mas tudo não é mentira na pena dos historiadores de façanhas, exceto a lealdade, a valentia e o heroísmo de nossas armas. Tudo um só fracasso que não ficou na História. Porque não sobrou ninguém para contar nada. Tanto é que tivemos a pátria ocupada por forças estrangeiras.

Como eu disse, todos os familiares do imortal ancião o abandonaram, como se fugissem da mais terrível peste, o que o fez praguejar até não mais poder falar. Isso é a família de que tanto falam os moralistas. Fora dela, porém, ninguém esperou pelo canto do galo. Ao correr a notícia de sua morte, o pranto nacional se derramou em quedas. Eu mesmo fui um dos carpidores e, por isso, exorto vocês a também chorar. Mas sejam fortes, não solucem tanto e, se a emoção for um dique roto, desfraldem os lenços, essa simbólica brancura da paz. No entanto, se for de comiseração esse gesto, suplico que sufoquem o coração, porque aquele “glorioso soldado” não merece sequer o crocitar dos corvos. A menos que seja santo quem amputa pernas de prisioneiros de guerra e de desertores. E vocês podem imaginar o que levou à barbaria. A inveja, meus amados discípulos. Pois quem é que, tendo as pernas carunchadas, vai alisar os joelhos dos sãos? Bem, depois voltarei ao assunto. Lembrem-mo.

O Marechal era um aleijão. Sim, um aleijão. Vocês entenderam? Ou não copiaram o esquema que fiz no quadro verde? Quem nasce sem pernas é... Não, não riam. Chorem de novo. Sim, ele nasceu sem os membros inferiores. Como os répteis. Vocês hão de perguntar: e a gangrena? Idiotas! Desde cedo ele usou pernas de pau, daí o apelido. Pernas que foram crescendo à medida que o restante do corpo crescia. Como pode ocorrer esse fenômeno? Jumentos da lógica, minha linguagem é figurada. As pernas cresciam porque ele as trocava. Quase todo ano, seu pai, ortopedista de méritos, fabricava novas e maiores pernas e lhas colocava como prêmio por aprovação na escola. É por isso que, ao ser reprovado dez vezes, nunca alcançou a estatura de um homem normal. Aos oitenta anos mais parecia ter setenta. Mas assim não seria fosse ele mais que um cretino. Agora vocês hão de perguntar: como, se chegou ao marechalato? Rirei, gargalharei, rolarei no chão, morrerei diante de tanta ingenuidade. Pacóvios!

O pobre do militar logo se acostumou àquela vida meio artificial e mais cedo ainda passou a considerar as muletas partes integrantes de seu corpo, membros tão originais como os braços e a cabeça.

Sentia dores nas pernas, se caminhava muito, cãibras, se caía n’água. É que as pernas de pau foram se incorporando à sua sustância física de animal, até tornar-se ele um ser vegetoanimal, espécie de bicho-pau. Dizem alguns biólogos que se ele ainda vivesse seria hoje uma árvore rara, cujo nome poderia ser marechalia, tendo por frutos marechais. Cuidassem então os botânicos dela, antes do final do século encheríamos a terra de marechais, para alimentação das populações famintas.

À gangrena ou necrose que atacou as pernas do soldado, os especialistas chamavam de caruncho. Assim, resumindo, o mal do mal. de Pau (copiem isso aí) era cupim. Em vez de mal, falemos de moléstia, para evitar mal-entendidos.

Concluindo, diremos que a cupinzama, à medida que devorava o pau, martirizava Mangarobeira, fazendo-o chorar resina. Não, não riam, que História não é para ser caçoada, é cousa muito séria. Controlem, pois, os músculos faciais, para não sujar os compêndios tão bem impressos e os cadernos tão caros.
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