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sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Rotação (Nilto Maciel)



Eles liam pausadamente, compassadamente, demoradamente. Liam em voz alta, para que todos ouvissem suas palavras. Às vezes cantochão, deslizar suave de água mansa. Alguns chegavam a cochilar. Adiante, a voz se fazia áspera, gritante. Arregalavam os olhos, empertigavam-se. Nenhuma atenção fugia do leitor. Todos encantados. Para mim, no entanto, o salão se enchia de palavras ininteligíveis. Ou então nunca mais voltei a ouvi-las, apesar de ter sempre os ouvidos atentos. Eu todo me voltava, em todos os sentidos, para o que diziam e faziam. Os livros passavam de mão a mão, assim como meu corpo infante, num ritual monótono. As mãos, aquelas mãos tão diferentes entre si, às vezes brutais, voltadas unicamente para os livros e as palavras. Aquelas mãos que de mim faziam mero objeto, obrigado a estar e ouvir. E a girar.

Eu percorria o salão, de hora em hora, sempre voltado para o seu centro, onde se amontoavam livros, cadernos, canetas, garrafas, cigarros, sapatos e outros objetos. Tal rotação, no entanto, não me deixava tonto, como me deixa hoje o girar em torno de meu próprio eixo.

Eles eram muitos, formavam um círculo perfeito, e o giro se fazia lentamente. Eles me demoravam cerca de dez minutos no colo de cada um. Ocorria-me tontura, porém, quando se aproximava o momento de ser passado às mãos seguintes, depois de ter dado trinta, quarenta ou cinquenta voltas. Eu pressentia o exato momento de ser erguido, como se faz com todas as crianças, e entregue ao vizinho. Eu me sentia um gato, uma galinha, um boneco, um objeto. Chegava a miar, cacarejar, fazer estranhos ruídos, como um brinquedo sofisticado. Eles permaneciam tão atentos à leitura que apenas se entreolhavam, sutilmente assustados, como se quisessem perguntar uns aos outros se tinham ouvido alguma voz não-humana. Nesses momentos me ocorriam vertigens, como se descesse ao fundo dos sons ou alcançasse o interior das palavras. Não sei como explicar. Eu me envolvia nas vozes, nos ecos, como se viessem de muito longe, de um espaço e um tempo absurdamente desconhecidos. Eu me sentia envolvido e sufocado por gases ou líquidos, voando ou boiando nos seus núcleos. E parecia ouvir e repetir ou apenas dizer: “um rio pode ensinar-nos muito coisa”. Não, não lembro nenhuma outra palavra. A não ser uma ou outra. Como “Tuam Asi”, ou pedaços de frases, como “teus olhos estão abertos para sempre”, “sei de que parte virá a aurora”.

Nunca perguntei nada daquilo a ninguém. Nem mesmo a minha mãe. Talvez hoje eu o fizesse. Tanto por curiosidade como para me livrar deste pesadelo. Não conheço mais nenhuma daquelas pessoas. Talvez tenham morrido. Ou estejam apenas desaparecidas, escondidas, foragidas. Estranho, porém, a atitude de minha mãe: por que não ficava comigo durante toda a leitura? Por que não se recusava a ler? Por que não insistia para ficar comigo? Chegada a sua vez de ler, passava-me adiante, ao seu vizinho, como passava o livro, naturalmente. Ocorria, às vezes, ser meu pai o seu vizinho. Então, eu me sentia menos tonto e chegava a rir de tanta felicidade.

Constantemente interrompiam a leitura. Não sei por quais motivos. Um deles mandava que fizessem silêncio. Mostravam-se assustados, nervosos, a olhar para os cantos das paredes, as portas, o teto, como se alguém ou alguma coisa muito terrível os ameaçasse. Por duas ou três vezes pularam todos para o porão. A tampa ficava no centro do salão, justamente onde amontoavam seus pertences. Era um buraco escuro, sufocante e estreito. Eu chorava, amedrontado. E dezenas de mãos me amordaçavam. Numa dessas confusões quase morri. Quando deram o alarme, todos pularam. A moça que me segurava perdeu o equilíbrio e fomos ao chão. Esbocei um grito. Mãos poderosas caíram sobre minha boca.

Também fui pivô de outros incidentes, embora de menor importância. Como quando urinava ou defecava. A vítima quase sempre era minha mãe. Eu tudo fazia para não sujar os outros. Apenas uma vez ocorreu ter urinado num deles. Ora, eu me achava distante dela cerca de meio círculo. Não podia esperar mais.

Uma só vez defequei. Ninguém viu, e minha mãe não anunciou a ocorrência. Correu ao banheiro e me lavou. De volta, devia ler. Passou-me ao vizinho, que fez cara de herege. Nervosa e encabulada, ela se pôs a ler o cantochão. Parecia o deslizar suave de água mansa.
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