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sábado, 9 de dezembro de 2006

As ceias (Nilto Maciel)



Serviam-se, escrupulosos.

— E as crianças? — quis saber Mário, garfo à mão.

A mastigar arroz e carne, Políbio olhou para os olhos do amigo, e, a seguir, para o quadro pendurado à parede, próximo à cabeça de Mário.

Os meninos viam televisão num dos quartos. Almoçaram cedo. Viviam com fome. Comiam feito lagartas. Todos riram, menos Sônia. Exagero do marido. Os coitados nem conseguiam engordar, tanto estudavam.
Políbio fixou novamente os olhos no quadro. Quem era o apóstolo que dormitava diante de Cristo? Teria se empanturrado de comida? Comer em demasia dava sono, dizia sua mãe. Por isso salvara-se da morte? Se não tivesse almoçado antes de todos, também teria morrido. O acaso livrou-o do veneno. Atribuíram aquilo a milagre. Deus, os santos, os anjos o protegeram.

— Vejo que vocês gostam muito de ceias — deduziu Mário.

Sônia riu e disse não ser boa cozinheira. No entanto, sentia prazer em convidar amigos para almoçarem em sua casa.

Mário olhou para o quadro à sua direita. Não lembrava o nome, porém o conhecia. Talvez do museu de arte de ...

— A Ceia de Emaús — gritou Sônia.

Políbio assustou-se e fez voltarem a mão e o garfo ao prato. Os outros, no entanto, não perceberam tais movimentos. Mário e Mônica mordiam pedaços de carne, enquanto Sônia falava de Caravaggio e sua pintura. Jesus muito jovem, ainda sem barba.

— Uma obra-prima.

Tantos anos passados, e tudo ainda tão nítido. Desespero, dores, gritos. A chegada dos vizinhos. Dona Ofélia a abraçá-lo, chorando. Sentia tontura, febre, dor. E ninguém imaginava a causa de tudo aquilo. Só após a consumação da tragédia, constatou-se ter sido o alimento envenenado.

Sem mais elogios para o pintor, Sônia se voltou para Políbio. Não tinha apetite? Não, aquele não era seu dia de gula. Os olhos de Sônia luziam. Seus cabelos pareciam mais negros. O rosto envelhecido do homem. Olhos pensativos. A taça com a bebida vermelha à altura do queixo. A barba rala.

— Gosto muito dessa pintura.

Sônia olhou para os olhos de Políbio e, logo, para o quadro de Louis Le Nain. Não ficava bem naquela parede. Talvez devesse ficar na sala de estar. Discutiam sempre por isso. Políbio riu. Birra dele e dela. Se contratassem os serviços de um especialista em ...

— Um decorador — lembrou Mário.

Aqueles pobres camponeses, suas vestes, suas feições, tudo na pintura só servia para repelir apetite.

Mário e Mônica olhavam, calados, para Sônia. Ele até balançava a cabeça, em sinal de aprovação das palavras da anfitriã.

— No entanto, a traição de Judas não deveria dar apetite aos cristãos — brincou Políbio.

Com força, Mário cortou a carne. A faca parecia rasgar o prato. Todos descalços, como no quadro dos camponeses. E neste não havia ódio, mas tristeza. Políbio depôs o garfo no prato. Mário quis virar a cabeça para trás. Sônia lembrou a salada de legumes. Mônica perguntou se a cozinheira lavava as verduras em vinagre. A cozinheira chamava-se Sônia.

Todos riram.

As crianças ainda no quarto. Presas à televisão. Pelo menos tinham pai e mãe. Um lar. Ele, não. Órfão aos cinco anos. Criado por tios e avós. Reza e missa todo dia. Ressurreição de Cristo. Balela. Órfão para sempre.

Mário falava de trabalho. Falta de tempo para se divertir, visitar amigos. Mônica concordava com ele. Vida monótona.

— Assim mesmo, ainda escrevo — concluiu Mário.

Mônica gargalhou. Escrever não era trabalhar. E enfiou o garfo numa batatinha. Políbio ergueu a cabeça. Havia mais carne no prato de Mário.

— E Políbio, escreve ou não escreve?

Sônia olhava para o convidado. Mais acima da cabeça dele, os pés descalços dos apóstolos anunciavam a tragédia bíblica. Políbio nunca falava do passado. Sempre voltava ao presente, para daí chegar a desígnios.

Mônica deu por finda a sua refeição. Cruzou os talheres e virou-se para o marido. O rosto feminil de Cristo, as tranças caídas nos ombros lembravam rapazes modernos. A ave na bandeja parecia um frango assado. Nada havia mudado na Terra.

— Ora, mudou quase tudo — contrastou Mário.

Insaciada, Sônia cravou o garfo num pedaço de linguiça. Caravaggio matara um homem durante uma briga. Temperamento explosivo.

— Como eu queria ser assim — lamentou-se Mônica.

Não devia pensar assim. A violência... Mário sorriu. Talvez Mônica quisesse ser como ela e não como o pintor.

— Exatamente isso — desculpou-se a visitante.

Saciado, Políbio juntava as sobras do almoço no canto do prato. A assassina foi condenada a 30 anos de cadeia. Nunca mais a viu, desde o dia do crime. Se ainda vivia, disso não sabia. Nem queria saber.

Sônia deu um gritinho. Quase se esquecera do pudim. E levantou-se. Mário se disse farto. Mônica repetiu a frase. Quantos anos tinham os meninos?

— Vocês se casaram bem jovens.

Políbio fez as contas: 36 anos de vida, sendo 5 de inocência. O mais velho já andava na casa dos 10. E parecia ainda tão criança.

Chegado o pudim, todos os lábios sorriram. Os de Mário falaram.

— Escreva sua história, Políbio.

Sônia quis mudar de assunto. Só Deus salvava os homens. Os psicólogos já haviam insistido nessa história de escrever. Políbio não sabia escrever.

— Talvez não queira — opinou o visitante.

Os dois casais tomaram água. Mário aceitou café. O vício do cigarro. Tossiu e fez menção de levantar-se. Antes dele, o anfitrião se pôs de pé. Auréolas douradas cingiam as cabeças dos apóstolos.

Encaminharam-se para os sofás. Sônia ofereceu um cinzeiro a Mário e perguntou se ele conhecia outras obras de Martin Schongauer. Sonolenta, Mônica fechou os olhos. E os três meninos, assustados, chegaram à sala: Brejnev morreu.

— Vou escrever minha tragédia — anunciou Políbio.
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