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sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Pescoço de girafa na poeira (Nilto Maciel)




Mal o dia amanheceu, Fátima arregalou os olhos, assustada. Que horas já eram? Conteve-se. Todos ainda dormiam. Até seu pai. Se pulasse da rede, despertaria a mãe, as irmãs, os irmãos. E seu plano poderia gorar. Melhor dormir mais um pouco. Afinal, talvez tenha permanecido acordada grande parte da noite. Não se lembrava de nenhum sonho. E sentia sono.

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O circo havia se instalado na cidade há quase um mês. Fátima não se interessou logo por ele. Conhecia outros circos, desde menininha. Os mesmos palhaços, os mesmos trapezistas, os mesmos acrobatas, os mesmos animais amestrados. Não, não iria ver o novo circo. A menos que arranjasse ingresso gratuito ou as amigas insistissem muito.

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Durante o café Dona Zita percebeu sonolência nos olhos da filha. Preocupada com os estudos? Se não fosse ao circo toda noite não precisaria estudar a tarde inteira. Ainda bem que aquele circo miserável já havia ido embora. Não, não fora até então. Alguém mentira. Não lembrava quem.

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O acrobata chamava-se Igor. As roupas coloridas realçavam sua musculatura, as formas vigorosas. A cabeleira loura voava ao compasso de suas piruetas. E Fátima suspirava, roía as unhas, esfregava as mãos, amassava o vestido.

Terminado o espetáculo, insistia com as amigas para ver os leões. Ora, os leões, aqueles bichos fedorentos? Melhor passear na praça, ver os rapazes fumando e contando vantagens.

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A aula de português não acabava nunca. A freira gritava ciclos. E girava ao redor da sala: Ciclo Carolíngio, Carlos Magno, Ciclo Bretão, rei Arthur, Ciclo Clássico. Por que não ia rezar baixinho na capela? E relógio, quem tinha relógio? Precisava ver os ponteiros girando, quase parados, talvez parados, quebrados. E o sol? A pino, a pino, a pino. A freira repetia os ciclos. “O sol é grande, caem co’a calma as aves, do tempo em tal sazão, que soe ser fria”...

Fátima suspirava, absorta, os olhos no soneto de Sá de Miranda.

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Uma noite Fátima desgarrou-se das amigas e escondeu-se no circo. Queria ver Igor de perto, falar-lhe. Nas noites seguintes viram-se frente a frente, conversaram, beijaram-se. No entanto, uns olhos azuis os espreitavam. E pertenciam à trapezista Catarina.

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Durante o almoço Fátima apenas beliscou a comida. Dona Zita reclamou. Talvez a filha estivesse com vermes. Não, apenas preocupada com o dever de casa. Precisava ler muito o Ciclo Carolíngio e decorar uma poesia de um tal Sá de Miranda. Se não fosse toda noite ao circo... Ainda bem que já iam todos embora: palhaços, animais, trapezistas.

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Sob os olhares de Catarina, acertaram Igor e Fátima a fuga dela. Escondida num dos caminhões. Tornar-se-ia trapezista. Ao meio-dia ela deveria estar no acampamento. O circo desmontado e pronto para a viagem.

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Mal tiraram os pratos da mesa, saiu Fátima à rua. Ao longe avistou a caravana do circo. O pescoço da girafa atingia as nuvens. O palhaço fazia graças na carroceria de um dos carros. Fátima correu ao encalço dos veículos. Quis gritar o nome do acrobata. Meninos aplaudiam tudo. A poeira tornava o sol mais amarelo. Os caminhões embalavam. Fátima corria junto aos meninos. Catarina ria numa das cabines. As últimas casas da rua pareciam mais pobres. Surgia a estrada de barro. Fátima só conseguia ver o pescoço da girafa. Tudo era poeira, longe.
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