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terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Um romance satírico de Nilto Maciel (Márcio Catunda)


Em seu romance Os Varões de Palma, publicado pela editora Códice em 1994, Nilto Maciel prima, como em suas demais obras de ficção, pelo estilo objetivo, alcançado graças à contenção formal, pela qual o autor demonstra pleno domínio dos métodos de articulação da trama. Obra escrita sem opacidades de expressão, mas com liberdade criativa e linguagem fluida peculiares ao discurso da ficção hodierna, Os Varões de Palma foi urdido num encadeamento lógico e cronológico que, não obstante, tem compromissos apenas parciais com a verossimilhança. A própria intenção caricatural da caracterização dos personagens já conduz a narrativa para o plano mítico.
Embora o enredo tenha como referencial objetivo a vida urbana do povoado de Jenipapo, ou a cidade de Palma, esta situação temática regionalizante é apenas um afluente da dimensão de universalidade do manancial onde a fábula bebe a sua substância: a ignorância espiritual do homem da província reflete a estupidez de toda pessoa que, para imergir no Aqueronte das ilusões, paixões, fantasias e incoerências, se expõe ao extremo ridículo retratado nessa alegoria, cujo protótipo é a sociedade palmense. A crítica dos valores forjados pela mentalidade tacanha e torpe da nação jenipapo mostra as limitações da visão e da compreensão de toda a sociedade humana e denuncia, em tom sarcástico, o nível de evolução própria da humanidade.
O aspecto histórico da colonização de Palma a caracteriza como vítima, durante alguns séculos, de dominação e alienação, que redundaram na ingenuidade e na estupidez de seus habitantes, que, levadas ao extremo resultam num autêntico delírio apocalíptico. O autor soube, com argúcia, lançar mão desta vicissitude para constituir sua sátira.
De fato, ademais das notáveis qualidades estruturais da obra, com primorosa técnica de organização na reconstituição das situações e uso impecável do instrumental lingüístico, o que mais nos preenche da expectativa de satisfação estética na leitura do texto é a caracterização dos personagens, suas reações bizarras, estapafúrdias ante a visão da égua, pintada de urucu e jenipapo e enfeitada com penas de arara. É louvável a riqueza inventiva das tipificações no ambiente da trama. Seus gestos, atitudes e dizeres configuram uma gama de nuances culturais e condicionamentos mentais. Por exemplo, um dos núcleos de motivação narrativa são as peripécias de Jacinto Jenipapo e seus cupinchas, que adornaram de tal modo a poldra que sua beleza causava admiração e sedução aos habitantes de Palma. A indignação de Madame Castro Pinto, grã-fina da sociedade local, cuja festa de aniversário fora ofuscada pela aparição da égua amarrada ao pé do Cruzeiro. As paixões e os preconceitos de teor pseudo-místico, fundamentalistas e dogmáticos manifestados pelos representantes de cada grupo religioso, que resultaram em tremendas intrigas. Como a revolta do pároco Inácio, que considera aquela iniquidade similar à adoração do bezerro de ouro de Arão. Também a acusação de bruxarias contra o espírita Jerônimo, pelos líderes de outras crenças, após o seu discurso pronunciado ao pé do Cruzeiro, onde se achava a égua. Os porta-vozes da verdade, à medievalesca, brandiam, uns contra os outros, seus vitupérios (abestados! pecadores! demônios! beatos!). O pandemônio gerado pelas duas fugas da potra, entre relinchos, coices e pinotes, e as perseguições, forjadas através de regimentos militares, por parte dos coronéis perfilados, a mostrar sua bravura contra aquele pobre animal, transformado em totem de um povo insano e insensato, adepto do bestialismo. Outras situações esdrúxulas, como a confusão causada pelos sabonetes de Gonçalo, as espertezas do gringo Oliver, com seu inglês bíblico, e a imbecilidade geral dos “caçadores” da égua, persuadidos de que tudo poderia tratar-se de uma metamorfose por feitiçaria. Temiam que o bruxo pudesse transformar em animais todos os habitantes de Palma. Mas, apesar dos temores, cada um escolhera o animal em que gostaria de ser metamorfoseado. Enfim, toda essa caótica situação, provocada pelos desejos de vingança do velho Jacinto e pelos absurdos da mentalidade retrógrada e cretina dos palmenses, é narrada, com perspicácia, pela pena ferina de um discípulo de João Brígido. Este, a exemplo de seu mestre, exímio humorista, sobretudo na já destacada riqueza psico-caricatural dos personagens, de características tão exóticas quanto aqueles das fabulações de Gabriel Garcia Márquez.
Quanto à urdidura e à tessitura da narrativa, já louvei-lhe a espontaneidade, a síntese formal pela eficiente supressão de acessórios supérfluos e a ausência de malabarismos de sintaxe. Resta concordar em gênero, número e grau com a opinião de F. S. Nascimento, segundo o qual Nilto Maciel detém o “conhecimento metódico da sintaxe literária e a noção de ritmo e cromatismo sonoro”, o que comprova a consistência expressiva da obra e o domínio da prosa de ficção pelo autor de Os Varões de Palma.

(Revista Literatura n.º 11, Brasília, dezembro de 1996)
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