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sexta-feira, 31 de março de 2006

Breve notícia dos Tarairius (Nilto Maciel)



A família línguo-cultural dos tarairius proveio dos Láguidos, tipo étnico de cultura paleolítica primária, resultante da evolução das duas primeiras correntes de povoadores asiáticos da América. A primeira imigração se deu no máximo há 28 milênios e no mínimo há 20. A segunda, há 20, no máximo, ou há 15, no mínimo. E ambas partiram da Sibéria.

Os Láguidos chegaram ao Ceará há 7 ou 6 milênios, provenientes do Piauí e de Pernambuco. Um milênio depois chegaram os tremembés, que eram Nordéstidos, tipo étnico de cultura mesolítica, resultante da evolução da terceira corrente de povoadores asiáticos da América, oriunda também da Sibéria, de onde partiu há 10 ou 9 milênios. Os tremembés saíram do Sul, pela costa, e se localizaram nas praias do Ceará. À época da colonização portuguesa viviam entre o estuário do Rio Curu e o Maranhão. 

terça-feira, 28 de março de 2006

O problema fundamental da existência (Nilto Maciel)



Os cinco despertaram ao mesmo tempo. Parecia-lhes que ressuscitavam. Em volta, só escombros, podridão, desolação. Olharam-se, curiosos, o pavor grudado nas caras, quais máscaras mal pintadas. Calados, puseram-se a mexer dedo após dedo. A seguir, toda a mão, desconfiados do milagre da sobrevivência. Pouco a pouco, foram se erguendo, feito lázaros de um imenso cemitério. E caminharam entre os mortos. Gemiam, surdos. Olharam-se, gemebundos. Iam, semimortos. Ais e mais ais. Lamentosos. 

sexta-feira, 24 de março de 2006

Histórias de um povo Xetá (Nilto Maciel)




Muitos escritores nasceram no jornalismo. Seus livros, seus romances estão plenos da matéria bruta da realidade. Marcos Faerman, repórter minucioso, contenta-se com ser repórter. As histórias contidas em Com as mãos sujas de sangue não poderiam ser chamadas contos, prosa de ficção. Faerman é um jornalista maravilhado com a vida ou, melhor dizendo, horrorizado com a vida.

quarta-feira, 22 de março de 2006

O pecado genial do dr. Ípsilon (Nilto Maciel)



Apressou o passo, impelida pela fome e pela vontade de fugir daqueles olhos maliciosos. Abriu, barulhentamente, o portão, voltou-se para a rua e viu na calçada apenas crianças a brincar de roda. Distraída, arrancou uma malmequer e a jogou ao meio do jardim. Todo dia sua mãe lhe dizia: deixe dessa mania de arrancar as flores. Um dia ainda você vai se estrepar.

terça-feira, 21 de março de 2006

Moreira Campos


Moreira Campos (José Maria), nascido em Senador Pompeu (6 de janeiro de 1914), é filho do português Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. Ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1946. Licenciou-se em Letras Neolatinas em 1967, na antiga Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Na área do magistério iniciou-se como professor de Português, Literatura e Geografia em colégios. Exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará, Curso de Letras, como titular de Literatura Portuguesa. Integrante do Grupo Clã. Pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, no dia 7 de maio de 1994. Deixou as seguintes coleções: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987). Seus Contos Escolhidos tiveram três edições, Contos foram editados em 1978 e Contos – Obra Completa se publicaram, em dois volumes, em 1996, pela Editora Maltese, São Paulo, com organização de Natércia Campos. Tem também um livro de poemas, Momentos (1976). Participou de diversas antologias nacionais. Algumas de suas peças ficcionais foram traduzidas para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, o alemão.
 

domingo, 19 de março de 2006

Profanação (Moreira Campos)

(Nota de esclarecimento: se se fizer uma pesquisa, uma busca na Internet, constatar-se-á a ausência de contos de alguns dos melhores contistas brasileiros. É o caso de Moreira Campos. O que não é justo. Embora haja a lei dos direitos autorais. Mas divulgar a obra de escritores como ele não pode ser crime. Vejamos, pois, um de seus contos. Nilto Maciel)


A cidade repousava na paz dormente da tarde. Redemoinhos. Carneiros que ruminavam à sombra da igreja. Outros animais pastavam na praça principal, que o mato ia farto naquele fim de águas. De repente, o relincho do jumento cortou o espaço, vibrante, sincopado, sacudindo concentrações. Jumento só relincha em hora certa. À larga sombra do oitão na casa da esquina, Seu Manduca, farmacêutico, concluiu o lance no tabuleiro do gamão e consultou o relógio: vinte para as cinco. Inesperado! Um erro qualquer de cálculo. Novo relincho, houve tropel de cascos. Já o jumento se desembainhara: lança em riste, reluzente, sugestão de um bacamarte boca-de-sino. O beiço superior dobrado, em cheiro de sexo ou de cio, um fauno. A jumenta, nova, um mimo de ancas, talvez ainda intocada, atirou-lhe logo uns dois pares de coices na queixada, de que ele se livrava com dignidade e firmeza. Insistiu em mordê-la no pescoço. Novos coices, toda uma beleza de mocidade. Qualquer coisa, pela própria violência e rápidas entregas e negaças, a lembrar a festa necessária do sexo. A arma poderosa erguia-se lenta contra o peito do próprio jumento, como que se acamando, em pancadas repetidas, mola, alavanca para grandes pesos. Perseguia a fêmea, tentou cavalgá-la, escorregou. D. Esmerina, da janela de casa, a vista curta, apertava as pálpebras, num esforço de verificação. Pressentiu coisas. Mandou que a neta entrasse, menina de doze anos. Sinha Terta parou no meio da praça, equilibrando na cabeça a trouxa de roupa, seduzida, esquecida de tudo. No bilhar de Duca, os homens abandonaram o jogo e, do alto da calçada, bateram palmas:

– Eita, cabra macho! 

sábado, 18 de março de 2006

O oráculo (Nilto Maciel)




Guilhermartins orgulhava-se de sua sem par biblioteca, que de vez em quando aparecia na imprensa. Dizia o colunista social: O intelectual Guilhermartins, dono da mais rica coleção de alfarrábios, jantava ontem ao lado da bela Antonieta Brochado. O repórter vulgava: Chega-se a duvidar da existência do Tratado do Amor do Diabo, de Abulcámim Abdelhákem, tal a sua raridade.

O massacre dos Waimiri Atroari (Nilto Maciel)



Num livro escrito no início da segunda metade do século XIX – Esboço Histórico sobre a Província do Ceará –, Pedro Théberge constatava: “Todas elas (as tribos indígenas que habitavam o Ceará) desapareceram completamente, ou pela perseguição dos invasores, ou pelos efeitos de nossa civilização que não convinha á sua natureza, ou enfim pelas moléstias epidêmicas que lhes trouxemos da Europa, como a bexiga, o sarampo e outras que os dizimou repetidas vezes.”

quinta-feira, 16 de março de 2006

O manuscrito de Yellah (Nilto Maciel)



Por que o manuscrito de Yellah continua inédito? Não me refiro ao meu livro, mas ao documento deixado pelo astrônomo. Não ando à cata de glórias literárias, que certamente o livro me darão, nem sou um explorador do fantástico. Ora, o manuscrito se contém em umas trinta laudas apenas. Eu o teria publicado em jornais e revistas, sem uma só palavra a mais, não fossem as recusas dos editores. Foi esta minha primeira intenção, foi este meu primeiro ímpeto.

Literatura e Internet (Nilto Maciel)


Os sites literários devem ser grandes depósitos de textos, bibliotecas universais? Devem abrir espaço para a discussão de problemas editoriais no Brasil? Os catálogos das editoras e as estantes das livrarias brasileiras revelam que os escritores brasileiros contemporâneos (poetas, contistas e romancistas) são minoria no imenso universo do livro. Estão espremidos (quando muito) entre livros didáticos (a maior fonte de lucro), clássicos da literatura universal e brasileira (domínio público), traduções, biografias, livros de auto-ajuda, etc. O ideal seria a elaboração de uma lei que criasse um fundo, cujos recursos proviessem dos lucros obtidos pelas editoras com a publicação dessas obras de domínio público. Esse fundo poderia patrocinar concursos públicos para publicação de obras inéditas ou mesmo editar (como o fazia o Instituto Nacional do Livro) livros selecionados em concurso ou em outra modalidade de seleção.

domingo, 12 de março de 2006

A devassa dos labirintos selvagens (Nilto Maciel)



 
Ninguém jamais compreenderá a América, sem antes compreender o significado do extermínio dos índios. Mais ainda a América amazônica. E é para retirar deste limbo a história da Amazônia que Márcio Souza, em A Expressão Amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo, desce às profundas do passado para emergir à superfície da Manaus da Zona Franca. Tal baldeamento – essa descida ao fundo do poço – é um imperativo, para que a verdade histórica não permaneça enlameada e obscura. Porque só interessa aos que se arrepiam diante dos fantasmas pretéritos essa escamoteação da verdade e, sobretudo, a subdivisão da História em departamentos estanques. Mas, como se a consciência lhes roesse as entranhas, esses guerreiros de papel, como para querer sanar todos os cancros do passado, um dia descobriram que a remissão da terra estava numa operação de transplante – e implantaram em plena selva um aparelho cardíaco artificial, a chamada Zona Franca. Mas os males do passado não se curam com novas extravagâncias pueris. “A capital amazonense se transforma rapidamente num apêndice infectado, centro perfeito para a velha luta entre glóbulos brancos e glóbulos vermelhos. Na escatologia médica isto tem um nome: leucemia. O choque de brancos e vermelhos encaminha-se para o extermínio dos últimos. A simbologia é clara: a vitória dos brancos é a morte do organismo" (pág. 34). A origem dos males está na distância entre as duas raízes humanas, separadas por um mar até o séc. XVI tão imenso para uns e para sempre um enigma para os outros – de um lado uma religião codificada, uma Roma cesariana, uma idade de bruxas e fogueiras, e de outra um panteísmo primitivo, uma selva chuvosa, uma era de mitos que beiravam a primeira infância da raça. “Por isso, o contato jamais seria pacífico e uma coexistência bem sucedida se tornaria impraticável em terras amazônicas" (pág. 54).

O grande jantar (Nilto Maciel)



O Barão John Food ofereceu um lauto jantar a todos os seus amigos de nobreza, nacionalidade e credo filosófico, em homenagem a Francesco Tavola, pai de seu grande amigo, o Padre Giordano Tavola, seu confessor e confidente. Presentes todos os convidados, abriu a cerimônia com muita seriedade:

– Este será o maior jantar já dado na face da terra, maior do que o da multiplicação dos pães. Não em quantidade de convivas ou de pratos, mas em seu significado. Aqui vamos comer, simbolicamente, todos os evolucionistas, todos os naturalistas, todos os hereges, todos os descobridores, todos os inventores. Todos os revolucionários, enfim. Jantaremos apenas carne. Somos carnívoros. Jantaremos um bode, como se fosse Pierre Bodée, representante de todos os nossos inimigos, desde Demócrito até Darwin. Um bode expiatório. 

quarta-feira, 8 de março de 2006

O maduro fruto da solidão (Nilto Maciel)




O primeiro livro de contos de Rinaldo de Fernandes, O Caçador, é de 1997. Meticuloso, sem pressa, em 2005 apresentou o segundo volume, O Perfume de Roberta (Rio de Janeiro, Editora Gamamond), juntando cinco daquelas narrativas a treze inéditas.

Os narradores de Rinaldo ora são protagonistas, ora meros observadores. Ou principiam como espectadores e terminam como protagonistas. De alguns o leitor conhece duas ou três características ou traços fisionômicos, físicos, socioculturais. Muitas vezes não sabe sequer o nome.