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sexta-feira, 28 de julho de 2006

Casa mal-assombrada (Nilto Maciel)



Vez por outra, Hulda desaparecia dentro de casa. Parecia fantasma. Eu a chamava, ela nada respondia. Vasculhava todos os cômodos e não a encontrava. E a casa era pequena. Sala, três quartos, dois banheiros, cozinha e quintal.

Tempos de mula preta (José Alcides Pinto)




A Secretaria de Cultura e Desportos entregou ao público no fim de 81 o livro de contos de Nilto Maciel — Tempos de Mula Preta. É este o primeiro livro do autor, embora seja Nilto Maciel um veterano nas letras, com alguns trabalhos publicados em revistas e jornais, outros incluídos em volume, como em Queda de Braço, uma antologia do conto novo, que ele mesmo organizou e onde se salvam pouquíssimos nomes. Mas ele é apenas responsável pela parte que lhe toca. O resto que se dane. Mas há, sem dúvida, figuras de nível literário entre essa coorte heterogênea e desordenada, como Airton Monte, Carlos Emílio Corrêa Lima, Francisco Sobreira e poucos outros. Mas é do seu Tempos de Mula Preta que queremos falar agora.

domingo, 23 de julho de 2006

Ilusões de gato e rato (Nilto Maciel)




No meio da tarde, um gato deu por concluído o banho e a espulgação. Julgava-se limpo e livre de pulgas. E se pôs a espreguiçar, abrir a boca e fechar os olhinhos verdes. Sentia muito sono.
Estirou-se debaixo de uma cadeira e se entregou à leveza do nada. Havia bebido leite, água? Que iguaria almoçara? A gata vizinha gostava de amar no telhado ou no quintal? E os ratos, aqueles larápios noturnos?

terça-feira, 18 de julho de 2006

A clarividência histórica em Nilto Maciel (Salomão Sousa)



Nilto Maciel, um cearense acandangado que acaba de tirar prêmio no concurso Fernando Chinaglia com o romance A Guerra da Donzela, tem lançados os seus Tempos de Mula Preta, reunião de contos que formam um painel com alguns de nossos dramas cotidianos e históricos — históricos porque é um cotidiano que se repete, pairando agora no tempo pelas mãos do autor.

A edição é da Secretaria de Educação e Desportos do Ceará, numa prova cabal de que o Estado tem que entrar no jogo quando as editoras, forçadas pelas dificuldades econômicas mundiais, e estas dificuldades, por sua vez, resultando nas dificuldades culturais (diminuição da compra de livros, de leitura, etc.), não podem atender a todas as solicitações de publicação. E principalmente quando cresce o número de autores, se bem não cresça o nível da qualidade.
Não vou me arvorar em dizer que se trata do melhor livro da temporada, estilo ímpar, ou que é incompleto, com gralhas fazendo barulho em todas as direções com seus vultos escuros. Pois dificilmente um livro escapa delas para que não sejam anunciadas a quatro ventos e tempestade por si mesmas, sem que o autor tenha nada a ver com elas. São fenômenos da natureza, assim como uma chuva de vento, que vem e nos tira as telhas da casa, que podem ser recolocadas no lugar, sem a perda da estrutura da casa.

O riso do gato (Nilto Maciel)



Nunca ria o gato. Sisudo, posava dia e noite para os de casa e os de fora. Costumeiramente vivia em cima da mesinha de centro. Às vezes nas prateleiras da estante, ao lado da Bíblia, da enciclopédia, dos discos. Mil vezes escapou do fim. Quando a arrumadeira se zangava. Quando os meninos brincavam de bola na sala. Quando qualquer mão descuidada o abanava.

Não lhe faltavam elogios. Chamavam-no gato bonito, gatinho lindo, belo gatão. Mesmo quando percebiam sua circunspecção. Talvez até vissem nela o melhor de sua beleza. 

sábado, 15 de julho de 2006

A surpresa do professor (Enéas Athanázio)



Em segunda edição, está circulando Itinerário, pequena coleção de contos de Nilto Maciel (João Scortecci Editora - São Paulo, 1990). São 14 contos curtos que mal preenchem 60 páginas, mas que mereceram decididos aplausos da crítica e que realmente agradam o leitor pela técnica e pela criatividade.

Joana d’Arc e os amantes (Nilto Maciel)




Jacques olhou para a cama e sorriu. Isabel despia-se, lentamente.

— Posso acender a luz? — ele perguntou.

Haviam se conhecido duas ou três horas atrás. Num cinema. A história de Joana d’Arc sempre o interessava. Além do mais, gostava de filmes. Isabel, porém, não se lembrava de algum dia ter ouvido qualquer referência à donzela de Orléans.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Aquele homem de asas (José Peixoto Júnior)


(Nilto Maciel, ao lado de ChicoMiguel de Moura, à esquerda, em Havana)

As asas de Ícaro, filho de Dédalo, criatura de Ovídio, eram pregadas ao corpo com cera de abelhas; as do Ícaro do “Navegador” deveriam sê-lo com cera de ouvido, para não fugir da utilização de substância idêntica em idêntica finalidade. Assim, com ceroma e com cerume a lhes suster o órgão principal do vôo, os avoadores precipitaram-se da Serra de Baturité, um rumo ao Nordeste e o outro ao Centro Oeste. O primeiro confundiu o azul do mar com o azul do céu e suas penas molharam-se, virando espuma do mar. O outro atingiu o centro do mapa.
Antes do voo, tanto o Ícarozão quanto o Ícarozinho estiveram envolvidos com os “Guerreiros de Monte-mor”. Haviam partido da “Estaca Zero” acossados, depois da tentativa homicida com o “Punhalzinho cravado de ódio”, isso em decorrência da intriga gerada n’"A Guerra da Donzela". Foram verdadeiros “Tempos de mula preta”! À toa, vagabundavam numa busca à-toa de “Itinerário”. Até que “O cabra virou bode”, não com medo do “chupa-cabras”, mas para enfrentar “As insolentes patas do cão”. Cão cão, não cão dos infernos. Em seguida, já tranquilos, meteram-se entre “Os varões de Palma”.

Mon amour (Nilto Maciel)


A história não tivera começo. Ele não se lembrava de onde viera nem como conhecera aquela mulher. Não se lembrava de nada anterior àquele momento: sentado na cadeira, mãos sobre a mesa, de frente para a mulher.

O garçom servia, retirava-se, voltava, e eles a conversar. Ela queria saber o nome dele. Perguntava, insistia. Ele não se lembrava de ter tido um nome algum dia. Talvez tivesse apenas apelido. Bebia um gole de champanhe, sorria. Não via importância nenhuma no seu nome. Tanto fazia ser José ou Abraham. Ela, porém, não desistia. Não gostava de conversar com pessoa sem lhe saber o nome.

domingo, 9 de julho de 2006

Do Ceará, um Borges (Francisco Miguel de Moura)



 
Até hoje permanece o mistério: Por que o homem gosta de histórias? O homem da caverna, para espantar a solidão, o frio, o medo, inventava e contava. Ainda não sabia escrevê-las. O homem moderno escreve-as para leitura, na solidão – para espantar a solidão. Mudou a maneira de conceber histórias, de contá-las. Contos de fada, histórias da carochinha, contos fantásticos, maravilhosos, histórias de trancoso – estas lembrando Gonçalo Fernandes Trancoso, o português que apanhou muitas na tradição e adaptou-as para “proveito e exemplo”. Mas o conto moderno às vezes nem tem história, é um momento tenso da vida, da alma, geralmente de um personagem só. Um mestre mundial foi o francês Maupassant, outro foi o russo Tchekhov, também inovadora seria a inglesa Mansfield. A essa tríade se juntaria Machado de Assis, glória do conto mundial. Mas não tivemos tantos nos primórdios. Eles eram essencialmente romancistas. A partir do modernismo fomos aparecendo. Mas a safra maior de contistas viria nos anos 60 e principalmente 70. Um da década de 70 é cearense, quase não freqüentou a prateleira das livrarias, nem as colunas dos jornais. Porém seu trabalho vem constante, forte, árduo, em silêncio. Trata-se de Nilto Maciel, seu primeiro livro, Itinerário, como ele próprio diz, teve a primeira edição em Fortaleza, em 1974. Uma edição acanhada, de 200 exemplares. Pode? Pode. Na província tudo é possível. O pai do nosso romance não é de lá? Alencar foi um monstro, grande demais para sua época. "A crítica não tomou conhecimento do livrinho", adverte Nilto Maciel, na primeira página da 2a. edição, agora lançada pela Scortecci, 1990, São Paulo. E mais: "Dois ou três leitores amigos me puxaram as orelhas. A situação social e política do Brasil merecia literatura mais engajada”, disseram. “Não concordei com a opinião dos amigos e não mudei de estilo. Mudei, sim, muito depois, a linguagem daqueles contos."

Sonhos (Nilto Maciel)




Um dia, em plena lua-de-mel, ela amanheceu de cara fechada para o marido. Durante o café só abriu a boca para o leite. Nem biscoito quis. Não sentia fome. Indisposta. Ele insistia, ela recusava. Ele amável, ela áspera. Não, não se tratava apenas de inapetência. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.

E ela contou o sonho horrível. Flagrava o marido com outra, no maior amor. E ainda riam da cara dela. 

quarta-feira, 5 de julho de 2006

A ficção de Nilto Maciel (F. S. Nascimento)



1. O Jogo Verbal

Em seus mais recentes livros, Nilto Maciel tem se revelado um explorador irrequieto do estilo na prosa de ficção, justificando-se o interesse da crítica por algumas dessas bem sucedidas experiências. Partindo de consciente domínio do instrumental lingüístico, observa-se que esse procedimento vem se realizando dentro de um jogo verbal em que, usando os componentes da linguagem tal como estes se organizam no sistema expressivo convencional, subitamente o escritor rompe com esse eruditismo vernacular, definindo-se por arranjos estilísticos efetivamente representativos da sintaxe coloquial, em consonância com as variantes culturais dos seres projetados no espaço da ficção.

domingo, 2 de julho de 2006

Adeus, Alzira (Nilto Maciel)

(Alvaro Dias, autor da foto)



Cinquenta anos. Hã-hã. O pessoal brinca com isso. Quanto mais anos, mais lascado o homem. Muita vida passada. Muita água corrida debaixo da ponte. Os rios correm para o mar e se perdem nesse mundão. É a vida, a vida que se vai. A infância, a juventude, os bons anos. Muitos anos. Tempo que não acaba mais. Mas o que passou, passou. E eu vivi o quê? Metade da existência com essa jumenta. Uma égua, depois de velha. Não serve mais para nada. Faz tudo como antigamente. Só sabe abrir as pernas. No começo, um paraíso, parecia um nunca acabar de prazer, todas as noites, tudo numa paixão doida, num amor sem tamanho. Amor? Isso existiu de verdade ou foi só impressão? A gente falava de amor, amor, amor, jurava amar um ao outro para sempre, e nem notou que um dia essa palavra não valia mais nada. “Amor, você está bem? Boa-noite, amor”. Qual nada! Amor e bosta são uma coisa só. Basta puxar a descarga e vai tudo de esgoto abaixo. Agora, paixão existiu, aquele fogo danado dentro das carnes, queimando as tripas, agitando o corpo, aquele desejo animal, furioso, incontrolável.