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quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

A arquitetura verbal de Nilto Maciel (João Carlos Taveira)



Nilto Maciel não é só um escritor. Além de um bom escritor e de um imprescindível articulador literário, é o artista da palavra que sabe compreender e assimilar os avanços estilísticos de seu tempo. E, como tal, procura, sem nenhuma demonstração de cansaço, o aperfeiçoamento do próprio estilo, para melhor conduzir a narrativa na construção de seus personagens. Nesse sentido, sua escritura o aproxima não de um Graciliano Ramos, também nordestino, mas do Machado de Assis maduro e inconfundível de Quincas Borba e Memorial de Aires.

O romance A Rosa Gótica, ganhador do Prêmio Cruz e Sousa de Literatura, em 1997, e publicado recentemente, é um verdadeiro testemunho da maturidade da pena de Nilto Maciel. Ali se encontram, com facilidade, fundamentos inarredáveis para a confirmação dessa tese. Com aquele livro, o criador de Os Varões de Palma consegue a perfeita sincronia entre memória e ficção, entre verdade histórica e verdade ontológica, numa clara exibição de seu domínio dos arquétipos da linguagem, dos liames da narrativa.

Sua oficina romanesca comporta o absurdo, o fantástico, o linear, o surreal e, não raras vezes, o satírico, o burlesco, o humorístico. Seus temas, por diversos, exploram desde o corriqueiro e trivial triângulo amoroso, passando por perquirições do gênero policial, até o mais intrincado universo psicológico. Carpintaria digna dos melhores mestres da arte ficcional.

Após a publicação de mais de uma dezena de livros (romances, contos, crônicas, poemas, infanto-juvenis), o autor de Babel vem se firmando como um dos mais promissores representantes de uma geração de escritores que hoje vivem fora do eixo Rio/São Paulo. O que comprova mais uma vez que a Literatura, como a Arte de um modo geral, não depende de geografia, de localização espacial, muito menos de escolas ou de círculos fechados, para poder manifestar-se e, quando genuína, consolidar-se.

Detentor de vários e importantes prêmios literários, Nilto Maciel permanece fiel ao seu artesanato meticuloso. A cada livro publicado, verificam-se novas descobertas e uma outra luz se acendendo às possibilidades do leitor. E essa versatilidade do ato de contar histórias vai criando, ao mesmo tempo, uma atmosfera cada vez mais propícia àquele compromisso com a verdade e a beleza assumido desde os primeiros livros. E que faz do autor de Baturité um artista completo.

II

Vasto Abismo é sua estréia no gênero novela. Com este livro, Nilto Maciel inaugura uma nova e ampla possibilidade para suas inquietações criadoras: outro canal para sintonia e transmissão de suas desconcertantes mensagens. E se inscreve, sem hipérbole, no fechado círculo da genuína arquitetura verbal iniciada por Cervantes. Livro este, deve-se dizê-lo, que vem envolto pela aura e pelo signo da maturidade, uma vez que seu autor já ultrapassa a casa dos cinqüenta e encontra-se em pleno domínio das técnicas exigidas para a construção da narrativa ficcional deste fim de século.

A primeira novela da coletânea, intitulada “A Busca da Paixão”, está dividida em três partes e representa a espinha dorsal do conjunto. A peça constitui um mergulho nas lembranças de um homem que parte em busca de seu passado e, principalmente, de sua infância, de suas origens étnicas. Viagem que compreende um desnudar-se contínuo, num jogo de claros-escuros intermitentes e silêncios povoados de doces reminiscências e terríveis fantasias. (Há pouco, verifiquei na obra poética de Anderson Braga Horta uma interação com a Música. Em Nilto Maciel, encontro, com indisfarçada alegria, uma aproximação com o Cinema, que hoje já não pode prescindir da linguagem musical para realizar-se artisticamente como uma linguagem visual.)

Feito Orfeu, o protagonista vai aos infernos à procura de sua identidade, tendo por companheiros Helena, a namorada de circunstância, a memória dos lugares antes percorridos e (des)conhecidos e o desespero de estar só. (“Aqui estamos, eu e meu desespero, a guiar os passos para não pisar em falso e cair na arapuca.”) A trama, labiríntica, constrói-se de sobressaltos e incertezas que vão, a pouco e pouco, desvelando a traumática personalidade de um ser que, ao descrever-se, se circunscreve no terreno próprio da Mitologia, com suas implicações no campo da psiquê humana.

Encontram-se, ali, focos esparsos, porém contundentes, da gênese do mito do eterno retorno de Nietzsche: como se chega a ser o que se é. Nilto Maciel, nesta novela, cria um personagem-narrador auto-suficiente, cujo nome Tanguera é apenas uma referência indígena circunscrita ao universo da linguagem e cuja vida vazia e sem sentido o coloca diante de um dilema permanente: precisa desvencilhar-se com urgência da mediocridade do tempo presente, da existência sem brilho, da falta de objetivos, para tentar reencontrar-se e, consequentemente, salvar-se de si mesmo e do mundo que o rodeia. (“Tanguera sou eu. Tanguera não existe. Tanguera é aquele menino que envelheceu e virou fantasma.”) E, nesse desespero metafísico, empreende a busca definitiva —pessoal, intransferível— do que está irremediavelmente perdido, mas que, no seu desvario, pode perfeitamente ser reinventado. Leia-se a infância e suas possibilidades agora extintas para sempre. (“E eu temia não passar da primeira frase.”)

A novela termina. O que era temor e incerteza transformou-se em pedra, sedimentou; e o que tinha a simples feição da aspereza, com suas vísceras de fel e fogo, voltou a vicejar outros sonhos e esperanças. Mas a conclusão do leitor não será nunca aquela em que os meios justificam os fins. Dentro da visão artística de Nilto Maciel, nada tem valor por si mesmo nem está a salvo da corrosiva ação do tempo, se para a reconstrução do ser não se tentar pelo menos o risco do improviso, mesmo sabendo-se, de antemão, que este ser configura-se na imperativa certeza do não-ser.

III

Seguem-se-lhe outras seis narrativas viscerais, sendo que as três últimas se caracterizam mais dentro dos limites daquilo que se poderia chamar de mininovela. São elas: “O Julgamento de Rui”, “Taciba Vai ao Céu” e “Quarteto”.

A segunda narrativa, intitulada “Vasto Abismo”, e que dá o título geral da obra, constrói-se dentro de dois universos opostos: a erudita e ordinária existência de Isaque Paiva, com seus conhecimentos da língua de Virgílio e sua paixão avassaladora pelos livros, e, em contraposição, os seus sonhos de poeta frustrado diante do amor de uma bibliotecária que, além de leitora inveterada de subliteratura, ainda é casada com um militar estúpido e ciumento.

Nessa novela, Nilto Maciel explora seus conhecimentos da literatura policial de maneira muito velada, não entrando nos domínios do mistério nem tampouco no campo da investigação. A história desenvolve-se naturalmente sob os influxos do próprio enredo, e me parece bem próxima daquela tensão ambicionada pelo romance psicológico — em que a tragédia se delineia desde o início, e, a cada página, a cada capítulo, vai preparando o leitor para o seu desfecho inevitável. Isaque Paiva é um ser atormentado em busca de redenção. E esta redenção está muito bem esculpida pela mão ágil do criador de A Guerra da Donzela. Enfim, “Vasto Abismo” cumpre, ainda que timidamente, todas as exigências patenteadas pelo modernismo surgido após a década dos anos sessenta.

Em “Boi da Cara Triste (Parábola de Escárnio e Maldizer)” —analogia com o folclórico “Boi da Cara Preta”—, o foco narrativo se volta para um tema tipicamente nordestino, com as paisagens áridas e miseráveis da região, onde a vida só tem sentido em si mesma. As relações sociais há muito estão desintegradas, e não se sabe mais onde começa o homem e termina o animal. O que impera naquele cenário grotesco é a carência, quer seja no campo econômico, quer seja no campo afetivo. O drama vivido pelo protagonista, o Zé Carroceiro, uma espécie meio às avessas de Dom Quixote e Zé Bigorna, é descrito por intermédio de uma linguagem construída a partir de seu próprio universo psicológico. Tudo é pensado e realizado com a maior economia de meios, sendo que o resultado, surpreendente, já nem choca, conquanto possa estarrecer. Denúncia? Impotência diante de um mundo desumano e cruel para com seres vitimados pela injustiça social? Certamente sim.

Já em “O Bom Selvagem”, narrada na primeira pessoa, temos a história de um índio bororo desencantado com a cultura do homem branco. Depois de ter-se diplomado em Letras, viajado pela Europa e adquirido conhecimentos em várias línguas —muitas das quais fala fluentemente—, resolve, sob a influência de um padre, escrever a História do Brasil, ou melhor, traduzi-la para a língua de seu povo — conforme fica estabelecido desde o início da narrativa. Só que nessa empreitada não se deixa enganar pelas aparências, pelas artimanhas contidas no manuscrito. Sabe perfeitamente que o Brasil não nasceu dos portugueses, o que o coloca em permanente conflito consigo mesmo. À medida que vai narrando, a reflexão surge automática. Mas seu propósito não é ser tradutor; no íntimo gostaria mesmo era de contar a própria vida e realçar as peripécias da infância até a idade adulta. Daniel Álvares —nome que os brancos lhe deram, ao aculturá-lo — antes se chamava Bokodori, fato que certamente muito contribuiu para o acirramento de seus conflitos. (“Meu desejo é esquecer o que aprendi e pôr para fora minhas verdadeiras emoções, ser eu mesmo, Bokodori e não Daniel Álvares.”)
Esse índio, na verdade, não é mais índio, tampouco branco. Vive entre dois mundos e não pertence a nenhum deles. Sua identidade está definitivamente comprometida: critica os brancos e não aceita mais os índios. E dessa tormenta existencial nasce, malgrado suas ponderações satíricas sobre o teor do texto em elaboração, todo o inconformismo que marca seu trabalho de tradutor, de intelectual.

Nilto Maciel, sempre senhor do seu ofício, conduz a novela num vaivém de símbolos e signos, em que a beleza sintática está a serviço da verdade humana mais recôndita; seu labor instrumental, ao revelar-se na construção do texto literário, impõe leituras as mais diversas, não obstante a limitação da forma e dos meios impostos pela contenção verbal que caracteriza seu processo criador.

IV

Para mim, que venho estudando, com prazer e afinco, a História da Música e a História da Literatura —sobretudo no campo da ópera e da poesia—, resta uma conclusão até certo ponto bastante óbvia: a Arte, com o passar dos séculos, tem sido a mais genuína manifestação humana sobre a face da Terra. Nenhum trabalho realizado pela mão do homem deixa frutos tão perenes quanto a expressão artística, porque esta é o código que delimita seu espaço entre o Sagrado e o Profano. E, consequentemente, seu vínculo com a espiritualidade transcendente, com o mistério que envolve a origem e o destino de todos os seres e coisas.

Desse modo, encontro na produção do Autor deste belo e instigante Vasto Abismo —coleção de novelas curtas, incisivas e originais— uma completa incorporação dos caracteres humanos, com toda a sua problemática psicológica, econômica e social, em consonância com os valores estéticos embutidos na proposição de uma arte sempre comprometida com a solidariedade, com a catastrófica situação em que se encontra o homem moderno, completamente desassistido por um sistema cada vez mais mecânico e imbecilizante.

Portanto, para a obra de Nilto Maciel, posso usar tranqüilamente as palavras finais do prólogo de Jorge Luis Borges a A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares: “Não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la de perfeita.”

Brasília, julho de 1998.

(Prefácio de Vasto Abismo)
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