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segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Dois seres (Nilto Maciel)




Há poucos dias estamos aqui. Trouxeram-nos um homem, uma mulher e uma menina. Chegamos dentro de uma jaula. Vivíamos numa jaula maior, com outros inúmeros semelhantes nossos. Não sabemos como eles estão, nem se ainda vivem no mesmo lugar. Nossos dias e nossas noites são sempre iguais. Dormimos muito, porque não temos quase nada a fazer. Passamos quase todo o tempo comendo a ração que nos dão, dormindo ou brincando numa roda. Às vezes o homem aparece, fuma, bebe, olha para a rua, o céu, conversa sozinho. Olha para nós e some. A mulher surge sempre à mesma hora: põe a ração dentro do pequeno estojo, despeja água noutro estojo, molha as plantas, fala alto e nos xinga.
 A menina pouco vemos. Fala-nos com carinho, olha para nós demoradamente e nos chama por nomes esquisitos. Os nomes certamente ela os inventou, porque antes nunca os ouvimos. Do outro lado da porta há sempre gente falando e às vezes cantando. São figuras pequenas, mais ou menos do meu tamanho, dentro de uma tela iluminada. O homem parece ouvi-las à noite. Não sei para onde vai durante o dia. A mulher nunca se senta ao lado do homem. Não sei mais o que fazer. Penso em fugir, mas a pequena prisão é de metal e entre as hastes mal cabe minha pata. Se eu conseguisse fugir, nem sei para onde deveria ir. Onde estarão meus irmãos e meu pais? Também penso em morrer logo. Não sei se duraremos muito nesta vida, embora não nos falte comida e água. O sol é muito quente de manhã. Faz frio de noite. Há uma casinha dentro da jaula e nela às vezes nos refugiamos. No entanto, é muito quente, abafada, sem ar. E meu companheiro é muito egoísta. Não me dá espaço. O jeito é arranhar as hastes da jaula e pensar em fugas. A mulher aparece e grita: “Sossega, bicho danado”. Se emagrecer muito, talvez consiga fugir. Para onde, não sei. O homem surge diante de nós e resmunga: “Esses bichos devem pensar também”.
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