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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Colombo e as carícias (Nilto Maciel)


(Jangadeiro, Theo Amaral)

Desnorteados, Colombo e sua jangada vagavam pelo mar das tempestades. O sol há muito se metera nas profundezas das águas. Nenhuma estrela indicava rumos.

Era esperar pelo pior. Horas e dias de perdição, fome e sede. Depois a morte.

E o jangadeiro adormeceu.

As correntes, entanto, levavam a jangada ao reino do deus-dará. E antes do amanhecer aportou numa remota ilha. Encalhou na praia.
Com o sol no rosto, Colombo despertou. O barulho das ondas quebrando e o sossego da jangada pouco diziam. Não se lembrava ainda do desespero de horas atrás. E nem quis pensar.

Sem delongas, levantou-se e pulou para a terra. Sim, lembrava-se de tudo e se sabia salvo. O mar não o sepultara daquela vez.

Exultante, andou para lá e para cá. Pensou até em rabiscar umas figuras na areia. Talvez umas letras. Ser menino de novo. Construir uns castelos enormes, cheios de torres.

Súbito, parou. Ora, aquilo só podia ser uma ilha, terra nova, desconhecida dos homens. Maravilha! Voltaria ao Ceará e anunciaria ao mundo a sua descoberta. Iria aos jornais, às rádios, às televisões. Até ficaria famoso.

Enquanto sonhava, uns indivíduos o cercaram.

— Quem é você?

— De onde veio?

— O que quer aqui?

Colombo disse ser de paz, etc. Tão pacífico que não portava armas e andava só.

— Sou apenas um jangadeiro.

Os nativos da ilha terminaram encantados dele. E, para não o verem partir, destruíram a jangada.

Porém Colombo queria voltar à mulher, aos filhos e companheiros do mar. Aquela ilha não o encantava. Muito menos seus habitantes.

E, numa noite sem lua, meteu-se no mar e se pôs a nadar. Batia os braços com sofreguidão. Um dia chegaria ao Ceará.

No entanto, as braçadas do nadador fugitivo logo se transformaram em socos. E a vítima deles, coitada!, talvez sonhasse carícias.

Aos gritos, a mulher de Colombo acordou.
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