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sábado, 10 de fevereiro de 2007

O olho trágico de Homero (Jorge Pieiro)



Qual leitor não se torna escravo de uma bem urdida narrativa de mistério? Quem não se vê, temporariamente, transformado em arguto investigador? Por quais caminhos pode seguir um curioso ledor em busca da revelação, do desenlace, que o faça extasiar-se, ou mesmo frustrar-se? São apenas algumas questões fundamentais que se devem prenunciar na mente de um escritor que se aventura pelos meandros dos textos de suspense.
Não é novidade dizer que o leitor é levado a se render a uma ação narrativa quando se depara com os efeitos das primeiras linhas. É lógico que o desenvolvimento da trama influencia o abandono ou a voracidade da leitura. O que pensar, por exemplo, de um texto que se inicia com as frases: "Helena morreu ao cair da torre do sino da matriz. Segundo a polícia, ela não pulou"? Suicídio ou homicídio? A pergunta é clássica em várias tramas que pretendem desfiar mistérios. A morte, por si só, representa o eterno enigma que desafia a mente humana, o que se dirá de uma constatação duvidosa em enredo que tende a envolver a curiosidade? Lê-se, a princípio, um convite a uma narrativa policial. Neste caso, as dúvidas e seus desdobramentos constituirão seqüências obrigatórias.

Nas histórias de Sheherazade, em As mil e uma noites, o leitor já encontra um dos mais antigos exemplos de conto policial; no século XIX, o romance noir acrescenta histórias copiosas de crimes, tornando inferior o gênero. Com Edgar Allan Poe, as histórias de crimes e mistérios intelectualizam-se. Não é à toa que a crítica é unânime em apontá-lo como o verdadeiro criador do gênero policial. Depois dele e de seu investigador intelectual, August Dupin, a continuidade, com o Sherlock Holmes, de Conan Doyle; com o Hercule Poirot, de Agatha Christie; com o policial Lecoq, de Emile Gaboriau. Sem mais enumerar, a tradição continua...

Em A última noite de Helena, romance da vasta e premiada obra do cearense Nilto Maciel (1945), uma protagonista, mais atuante pela sua ausência, vê-se envolvida nessa tessitura. Em Palma, cidade imaginária e recorrente na obra niltoniana, nesse cenário com ares de lugar pacato, onde "nunca matavam mulher", a professora Helena Torres fora encontrada morta. O desenvolvimento da trama girará em torno das diligências para descobrir o provável assassino. O tenente Agenor, no entanto, no dizer de Homero, "queria fazer todo mundo de trouxa. Só podia ser isso. Ou então a imaginação do delegado parecia fértil demais."

É exatamente brincando com a imaginação, que o romance desenvolve a "novela do policial" e conquista o leitor. O narrador ora é um camaleão que se mimetiza a cada desvio na linha de investigação, ora se transmuta em vários, para deixar o leitor propositadamente confuso e curioso. Assim, a verve niltoniana constrói inúmeras histórias dentro da estrutura do romance. "Todo mundo se torna suspeito, até prova em contrário": o padre Diógenes, possível amante de Helena; o sacristão Timóteo; o soldado Filipe; o pintor Alceu; o tabelião Crisóstomo; o próprio delegado Agenor; a zeladora Catarina; o despeitado professor Lisandro; o doido Arquimedes... enfim, todos, até o arguto Homero, por gostar dos livros, das histórias de crimes, das novelas policiais, de "um tal de Conan Doyle"

A trama, afora as estratégias conscientes do autor, relacionadas com a acentuada ironia e a brincadeira com a linguagem, acrescenta-se de outras, destinadas à reflexão sobre despeito, inveja, hipocrisia ou sobre as atitudes de marasmo, incompetêncioa e ociosidade. Exemplificando: a professora mora no Beco do Labirinto; algumas das ruas são denominadas 7 de setembro e 15 de novembro; o ponto de encontro é o Café Progresso, palco de conjeturas e boatos, lugar para onde converge a população de Palma, porque "talvez toda a cidade estivesse sonhando há vários dias, por falta do que fazer"; e os nomes de todos os personagens, confirmados pelo narrador, são nomes gregos.

Nilto Maciel construiu um romance de leitura simples e divertida, a partir de um enredo intrincado, demonstrando indiscutível maturidade literária. Não foi por acaso que A última noite de Helena arrebatou o 1º lugar do Prêmio Brasília de Literatura, em 1990. No entanto, a "fantasia policial", só agora publicada pela Editora Komedi, poderá deixar no leitor uma leve frustração, quando, em seu momendo decisivo, mostrar que "as chaves do mistério" encontram-se com Homero. Mesmo assim, o enredo não se desfaz.

O mestre Edgar Allan Poe, em trecho de "Os crimes da rua Morgue" já doutrinara, e cabe aqui estender a idéia para o autor de Os varões de Palma (1994): "Os homens engenhosos são sempre fantasistas e os verdadeiramente imaginativos são, por sua vez, sempre analíticos." Com engenho, Nilto Maciel soube bem usar a imaginação. Quem há de duvidar?

(Jornal O Povo, Fortaleza, Ce, 27/10/2003)
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