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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Questões de estilo (Nilto Maciel)




Salomão governava com mão de pluma. Quando estudante, até fizera versos. Queria ser poeta. Conhecia os melhores poetas da língua portuguesa. Dos mais antigos aos mais modernos. Com o tempo, trocou os versos pelos discursos. E o moderno pelo antigo. Terminou prefeito de Palma.

Vivia discutindo com seu secretário, que redigia torto. Pedia um ofício, vinha uma barbaridade.
— O que significa isso, Seu Elias?
O secretário ria, tentava explicar. Salomão se irritava, falava mal dos neologismos, das gírias, da linguagem dos jornais.
— Não sabem escrever. Bando de analfabetos.
Todo dia os dois discutiam por força das palavras, da sintaxe, dos estilos. O prefeito apegado à gramática, o secretário às novidades.
— Lembre-se de que sou íntimo de Camões, Bilac, Bandeira e de todos os grandes poetas.
Até que resolveu demitir Elias.
Já velho, família para cuidar, o ex-secretário buscou socorro nos moderníssimos olhos da primeira-dama.
— Só sei fazer isso, Dona Josefina. E não há mais tempo para aprender outro ofício.
À noite, Salomão se aborreceu de novo. Não, não voltaria atrás. Palavra de prefeito, palavra de rei. Não admitia barbarismos, barbaridades, barbáries.
— Não seja mau, Salomão. O coitado até chorou.
Do pedido passaram às ordens, destas a dominados e dominantes. E terminaram em revoltas e mortes. A ruína da sociedade, da família, do casamento.
— Vamos então ao divórcio — ele esbravejou.
Ela chorou, os filhos choramingaram, a vizinhança sorriu. Nem a poesia salvava a felicidade.
Perto da meia-noite, o bate-boca acabou. Ora, direis. Os filhos já dormiam. Os vizinhos se entreolhavam, decepcionados.
No outro dia, Elias voltou à Prefeitura.
— Redija um ofício ao Governador — ordenou Salomão. — E pode usar o seu estilo.
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