Pesquisar este blog

sábado, 10 de março de 2007

A questão religiosa em Eugénio de Andrade: da palavra-ser à utopia da palavra (António Joaquim Oliveira*)

(Eugénio de Andrade)


«Do sangue nascem os deuses
que as religiões assassinam.
Ao sangue os deuses regressam
E só aí são eternos»
Vergilio Ferreira, Aparição


Quase todas as obras de um artista nascem da junção entre a experiência vivida e a sensibilidade criadora, que permite ao eu criador transpor as metáforas obsessivas do seu eu social para o seu mito pessoal, ocasionando-lhe um estado de devaneio («rêverie»). Desta forma, ao procurar as metáforas obsessivas da obra eugeniana, na tentativa de definir o seu mito pessoal (ou mitos pessoais ou as suas utopias), verificamos que a questão religiosa não representa, por assim dizer, um mito pessoal. Na verdade, para Eugénio de Andrade, a religião, tal como ela é vista pela comunidade cristã, nunca foi uma preocupação, ou, se foi, a sua preocupação consistiu em tentar conseguir demonstrar que ela subjuga demasiado o ser humano.
 
A questão religiosa acaba, no entanto, por ter algumas repercussões colaterais, que transbordam de verdadeiros temas obsessivos, tais como a frustração paterna e as injustiças. Por conseguinte, o amor cristão, sob todas as suas formas, é posto em causa, nomeadamente o amor conjugal, o amor ao próximo e o paraíso prometido. Tal como Torga, Eugénio de Andrade descobriu que «o sonho cristão do amor humano universal com rosto foi substituído pela realidade assassina do ódio desumano universal sem rosto». Por isso, ele apercebeu-se, bem cedo, que o mundo não é o reflexo do Deus bíblico, nem o amor, nem a justiça que Ele pregava. Guerra Junqueiro trouxe-lhe o anticristo e «A Velhice do Padre Eterno» acabou por varrer, em pouco tempo, o menino Jesus, os sermões do padre Augusto, a missa aos domingos, o sapato na chaminé, o João de Deus e o seu «Hino de Amor» (Só não varreu o rouxinol). A paixão pela poesia, que então começara a despertar, foi preenchendo o espaço onde anteriormente o Menino Jesus lhe sorria e S. Francisco lhe estendia fraternalmente a mão (Rosto Precário:203).

Mais tarde, a experiência e a mundividência trouxeram-lhe dissabores.

Para o poeta, o paraíso prometido é uma utopia que o homem deve conquistar, porque as aves vêm de um céu talvez de ficção (Poesia: 523). E o Deus dele não é o Deus impiedoso do Antigo Testamento, nem o Deus amor do Novo Testamento. O Deus dele é o «Green God», um Orfeu verde, espécie de deus que faz o milagre da multiplicação das imagens e das metamorfoses, que abrem as portas à utopia onde «Ervas nasciam dos passos, / cresciam troncos dos braços / quando os erguia no ar. […] / porque era um deus que passava. / Alheio a tudo o que via, / enleado na melodia / duma flauta que tocava.» (Poesia: 23).

A miséria infligida a crianças inocentes e deixadas ao abandono, as injustiças sofridas pelos mais desfavorecidos, contrastando com a abundância e o luxo de alguns, provam bem «que não somos filhos de Deus» (Rosto Precário:132).

Numa pequena narrativa que o próprio poeta faz numa passagem dos Afluentes do Silêncio, ele denuncia essas injustiças sociais, num tempo em que o amor foi convertido em mercadoria pela obsessão do lucro transformando o homem num objecto de mercado.

Infelizmente, a injustiça pregada pelos homens é a imagem de marca imposta pelos dogmas religiosos em vigor, que os homens utilizam para usurpar os mais carenciados:

«Não é verdade tanta loja de perfumes,
não é verdade tanta rosa decepada,
tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,
tanto relógio, tanta pomba assassinada.»
Poesia : 61

As expressões «perfumes», «rosa», «fumo», «loja», «pomba» e «roupa escura» conotam a civilização moderna dos negócios e da comercialização e criam imagens que reenviam ao templo de Jerusalém, donde Jesus Cristo, irritado, expulsou os mercadores que profanavam a Sua casa sagrada. Exasperado com este bazar mundano, que é o nosso mundo, onde as mercadorias aparecem numa miscelânea de valores sem distinção nem qualquer ordenação, ele insurge-se contra a falta de pudor do indivíduo que vende de tudo, seja o que for, apenas com intuito de enriquecer.

Para Eugénio, o amor, e unicamente o amor, pode salvar o homem. Talvez por isso, seja urgente recorrer ao amor enquanto catalisador de elementos ou gestos generosos como a alegria, a luz e os beijos, com o objectivo de destruir outros que infectam o homem, como o ódio e a crueldade (Poesia:78-79). O poema Os amantes sem dinheiro (Poesia: 41-42) dá-nos conta do amor entre dois amantes (entenda-se aqueles que amam) que só tinham lendas, mitos, sonhos, sede e frio no coração como os bichos, e, no entanto, a cada «gesto que faziam», criavam, com as mãos, a liberdade da sua condição de humanos, simbolizada no pássaro. Para o poeta, o amor não é apenas um sentimento de generosidade, mas muitos mais elementos que o evocam e que o poeta diz ser «alguns lugares de amor»: o verão, a cal dos cardos, a nudez do vidro, a luz, os prados e as magnólias, entre outros (Poesia: 186-187). Este amor das palavras carinhosas, com o bafo quente de ternura opõe-se ao amor do animal-homem, desejoso de satisfazer a sua libido ou então, como manda a Bíblia, cumprir um acto de procriação.

Para além das contrariedades referidas entre os ensinamentos bíblicos e a interpretação que a Igreja faz deles, a poesia sensorial de Eugénio não se coaduna com as limitações preconceituosas, entre corpo e alma, impostas pela Igreja. Mais uma vez em sintonia com Torga, Eugénio considera que o Cristianismo, sendo uma doutrina que «nega ao homem o direito de ser pleno na sua física duração», é uma doutrina de castração e de aniquilamento. Para ele, toda a religião revelada (e mal interpretada) é inimiga do corpo, uma vez que o seu mundo de carne e de sentidos entra em conflito com as ideias metafísicas, acrescentando que só «através do corpo nos poderemos erguer à divindade de que formos capazes, até deixarmos de ser, na frágil e precária luz da terra, o mais estrangeiro dos seus habitantes» (Rosto Precário: 48). O seu poema «Carne de amor» é um autêntico hino à sensualidade:

CARNE DE AMOR
Carne. Carne de amor. Love-flesh,
como lhe chamou Whitman.
Amada carne até aos bordos cheia
de ardor, fremente de seiva.
Carne endurecida
até à alma. Erecta carne
profunda. Vertical esplendor
subindo às estrelas. Ou mais
alto ainda. Talvez
à eternidade.
Ámen.
(Poesia: 467)

Ao finalizar o poema como se de uma oração se tratasse, o poeta pretende mostrar ao ser humano – seu semelhante - que a poesia também se quer rogada.

O milagre que a poesia permite é o reencontro com o seu próprio rosto de «revelar o homem ao homem» (Rosto Precário:50), numa dialéctica, onde corpo e alma - nem sempre aceite ou bem interpretada - se consubstanciam para alcançarem «talvez a eternidade», ideia platónica desenvolvida na alegoria da caverna.

Toda a poesia é revolução, revelação e consagração de um novo princípio sagrado. Por isso, as palavras, que «são a nossa salvação» (Rosto Precário:45) e reveladoras de transcendência, oferecem-nos uma nova sociedade poética, onde a nova Jerusalém se perfila fora dos dogmas religiosos e da utopia dos filósofos. As escrituras do mundo novo serão as palavras do poeta, revelando um homem livre de deuses e senhores, já sem intermediários entre a morte e a vida

Cedo aprendeu o poder da palavra que desmistifica e mistifica. A sua mãe ensinava-lhe a rezar na Casa da Eira, mas ele gostava mais de se meter com a velha ti Ana do que com as orações (Poesia: 38/39). Foi pela palavra que descobriu que toda a crença é mitológica e foi pela palavra que fundou a sua crença nessa mesma mitologia. Pouco a pouco, a palavra mitológica (poética) substitui a palavra bíblica, e a poesia tornou-se essência, que a vai substituir na sua função primordial, que é a da redenção.

A santidade reside na palavra poética, que veio a ser uma verdadeira epifania de todos os homens de boa vontade, santos ou não, como é o caso de S. Francisco de Assis, louvado por muitos poetas, não pela sua santidade, mas sim pelo exemplo do seu comportamento de vida humilde e em harmonia com a Natureza. Reconhece ter um fascínio por S. Francisco de Assis (Rosto Precário:185) e o poema dedicado a Assis (Poesia: 250) é portador de uma mensagem fraterna no amor e na justiça.

Do mesmo modo, no poema intitulado «Último poema» (Poesia: 477), numa clara homenagem a Pessoa, ele retoma o amor fraterno cristão invertido. Natal não é o tempo de amor, nem de Paz, nem de calor fraterno, mas sim um tempo de solidão. Este poema é, como diria João Camilo (Cadernos de Serrúbia nº 1: 26) uma bela ficção e uma bela história de Natal, como são as da Bíblia. Só que, nesta história, não há presépios com pastores, ovelhinhas de barro, reis magos. E sobre o Natal cristão, nem uma só palavra!

Nem crente nem católico, declarou, um dia, que não tinha igreja nem partido (Rosto Precário: 102), e que apenas escrevia para salvar a alma, pois, apesar da sua transparência, alguma mancha há-de ter (idem:204). Sentindo essa carência, que todo o ser humano tem «na sua aflição do finito» e na falta de esperança para o contornar, recorre à poesia, porque ela concede-lhe o desejo de fitar a morte nos olhos (Rosto Precário:90), de a exorcizar, de encontrar a plenitude. O homem, escreve Octávio Paz, é um ser que se assusta e, ao assustar-se, poetiza, ama, diviniza. Afinal, na sua solidão, não é o homem o autor, o actor e o leitor da sua vida? Como todo o homem angustiado, Eugénio procura, na poesia, a sua libertação. Até porque ela faz milagres: ela converte a pedra, a cor, a palavra e o rumor em imagens (Veja-se o poema «Green God»). A criação artística significa o desejo de construir um mundo que liberte o homem das taras deste mundo, porque o poema liberta-nos de uma linguagem demasiado ancestral, artificial e redutora. Construindo o seu «paraíso artificial» (e utópico), o poeta acaba por se libertar do seu espaço e do seu tempo, «exactamente como os anjos»[1].

Segundo São Paulo (2 Cor., 3; 6), toda a palavra mata, só o espírito da palavra vivifica, na medida em que a palavra é o sustento de toda a utopia e na construção dessa utopia. O primeiro, e pai de todos os poetas, Homero, arauto da humanidade, é, ao mesmo tempo, criador da poesia, do mito, da cosmogonia e da teogonia. Já Sócrates lembrava que a inspiração poética é do domínio do divino e que os poetas seriam intermediários dos deuses. Para ele, o poeta é santidade que fala em nome de Deus (Ion, 534,b). Na continuidade dessa ordem de ideias, Valéry diz-nos que o primeiro verso é dado pelos deuses e que temos de conquistar os outros. Portanto, o poeta vive em permanente contacto com um deus, ainda que desconhecido.

Para Eugénio de Andrade, a palavra poética é o utensílio da sua existência, que o libertará do silêncio ontológico, em busca do ontoteológico, que lhe permitirá alcançar a salvação, por via da imanência. A sua poesia não vai à missa para realizar o culto da palavra de Deus, na consagração e na divulgação dessa palavra. Pelo menos, à missa dos sofistas (Poesia: 526/527). O pão e o vinho da celebração eucarística da missa são, para Eugénio, Cesário Verde e Pessanha, na Eucaristia poética (Rosto Precário:195).

Os seus versos são a própria missa, na medida em que ele é o próprio criador da palavra, da oração. Ele é o seu pregador. A palavra, que ressoa, é a primeira revelação do divino que, como toda a revelação do ser, representa uma figura que é a figura do próprio ser divinizado, porque a palavra é mito revelado.

Se é verdade que a poesia é da ordem do ontológico, como toda a escrita, cabe, então, ao poeta criar mitos para obrigar o homem a tomar posição perante a evidência da sua existência, porque é na revelação do ser ao mundo que o mito se manifesta com mais clareza. Todos os utopianos acreditam que há um Deus supremo, mas discordam num ponto: cada um atribui-lhe uma forma diferente[2]. A poesia de Eugénio nega qualquer ligação mística ou transcendente, elegendo a mãe e a palavra como divindades exclusivas. A sua única crença e fé ficam-se pelas lições de Lao Tsé (Rosto Precário:53), em especial na época de escrever Ostinato Rigor, quando ele se interessava pelo budismo Zen, não como experiência mística, mas à procura de um mundo melhor.

Em suma, a questão religiosa não constitui uma inquietação para Eugénio de Andrade, na medida em que ele se refugia na palavra poética para, a partir do paraíso perdido, re-criar um novo paraíso, a sua própria utopia, isto é, aquilo que não pertence a nenhum lugar e que representa a parte do sonho do qual ele é portador, parte do sonho indispensável a quem quer construir um mundo real, mas diferente, como é o caso do poeta. Ora, como toda a gente sabe, os poetas são seres da utopia (Rosto Precário: 186) sem o qual não há progresso na construção de um mundo melhor, em redor de uma ilha de justiça e de fraternidade.

A criação poética é, antes de mais, uma revelação religiosa, na sua essência mais original, e, por isso, tão antiga e tão enigmática como a origem da vida . A criação eugéniana não é de barro, mas de sangue, que lhe pinga das veias até ao papel. Desse sangue, nasceram os deuses e é nesse sangue que os deuses regressam para serem eternos.

__________*António Joaquim Oliveira: Doutor em Ciências da Literatura pela U.M.


[1] - Confer Eduardo Lourenço Tempo e poesia, Lisboa, Gradiva, 2003.
[2] - Confer o livro A utopia de Thomas More.
/////