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quinta-feira, 15 de março de 2007

Os luzeiros do mundo (Francisco Carvalho)




Na contracapa do novo romance de Nilto Maciel, Ronaldo Cagiano toca em pontos cruciais da obra de ficção do autor cearense. Fala, por exemplo, da maneira peculiar com que o autor “manipula a linguagem, (...) sem jogo de palavras ou de espelhos”, e chama atenção para o que nela existe “de surrealismo, fantástico, nas representações simbólicas de nossas viagens metafísicas”. Compara a ficção de Nilto Maciel à de alguns autores brasileiros e estrangeiros. Destaca a preocupação do autor, voltada para a execução “de uma estrutura ficcional bem trabalhada”, no que revela constante burilamento de frases cuja perfeição atinge por vezes “o paroxismo”.

Em linhas gerais, Ronaldo Cagiano fornece ao leitor a senha do modus faciendi do escritor Nilto Maciel, um dos mais legítimos representantes de uma parcela de escritores que, no Brasil ou fora dele, se entregam à difícil tarefa de garimpar o absurdo da existência humana. E o tem feito, em seus contos e romances, com a mesma competência dos mestres universais que se ocupam desta vertente da literatura. Nilto Maciel pertence à estirpe de Kafka, Camus e Ionesco, para citar apenas três das maiores celebridades que fizeram opção pelo culto do fantástico e do surrealismo.

Em Os Luzeiros do Mundo (Ed. Códice, Fortaleza, 2005, 120 p.) pode o leitor testemunhar o pulso firme do ficcionista, que se esmera em urdir tramas e labirintos em torno de personagens que mais parecem movidos por impulsos sobrenaturais, alheios à dinâmica da vida real. O núcleo da trama concentra-se nos rumores do suposto assassinato de Lucas Thaumaturgo, ex-aluno de “um seminário de padres jesuítas”. À maneira de um tecelão minucioso, o narrador vai entrelaçando palavras e acontecimentos ao redor dos protagonistas do romance. Quando o leitor começa a se dar conta dos fatos, percebe que já se encontra numa verdadeira encruzilhada de paradoxos, da qual dificilmente sairá com explicações convincentes. Porque a vitória do mistério será uma questão de tempo.

A essa altura dos acontecimentos, o absurdo da vida se instala em cada célula do nosso corpo, como se estivéssemos possuídos de alguma maldição escatológica. Juízes, promotores, advogados, policiais, serventuários da justiça, burocratas de todos os feitios, figuras folclóricas da cidade – toda uma legião de curiosos e penetras a desfiar hipóteses e suposições as mais contraditórias, embaralhando cada vez mais os fatos sobre o suposto assassinato de Lucas.

Até o zelador do cemitério, um velhote quase centenário, foi visto a anunciar pelas ruas a morte do ex-seminarista, a quem pregavam o rótulo de poeta, provavelmente por suas frequentes excursões no universo poroso da retórica. Inclusive o titular da paróquia, padre Gregório, gritava impropérios contra o presumível assassino de Lucas: “Fitava os olhos, furioso, em Raul, enquanto espanava a poeira da batina”.

A veia epigramática de Nilto Maciel flagra os momentos mais dramáticos do enterro de Lucas. Chega a lembrar certas passagens de Eça de Queirós, quando exercitava o látego da irreverência no lombo reluzente das mediocridades literárias do seu tempo: “O enterro teve honras militares, cívicas e eclesiásticas. A tropa de três policiais marchou ao lado da tropa de um da guarda-noturna, ao som de hinos marciais tocados pela banda municipal. Todas as autoridades civis trajavam paletó e gravata. Padre Gregório parecia um arcebispo” (p. 101). Ao fim da missa de corpo presente, Eunápio (atentem para o exotismo desse nome), num surto de arrebatamento patriótico, pregava a morte do comunismo. Entrementes, o coveiro sugeria que o finado Thaumaturgo, pai de Lucas, lhe fizera recomendações de algum lugar do espaço sideral quanto ao preparo da terra que iria receber o corpo de seu filho.

Se o romance, como pretende Carlos Drummond de Andrade, “é a arte de destelhar casas sem que os transeuntes percebam”, pode-se afirmar, sem receio de falsear a verdade, que Nilto Maciel foi capaz de realizar semelhante proeza. O que se passa no subsolo de suas narrativas, o autor “nem às paredes confessa”. Sua prosa acena com muitas expectativas, porém guarda o mistério a sete chaves, com a volúpia do avarento que esconde patacas de ouro numa botija. O romance termina sem que o autor entregue o mapa da mina a qualquer de seus personagens. Os comentários mais absurdos logo se transformam em verdades categóricas, que o vento e as pessoas se encarregam de espalhar pelas ruas. Termina-se a leitura do romance com a estranha sensação de que tudo não passou de um pesadelo.

Para concluir, faço minhas estas palavras de Ronaldo Cagiano, impressas na contracapa do livro: “O discurso literário de Nilto Maciel contrapõe-se a fórmulas perfeitas e acabadas, ao lugar-comum, às soluções estilísticas digeríveis, muito comum numa certa corrente em voga nas contemporâneas produções”. Érico Veríssimo acreditava que “o romance é o produto de uma irritação do escritor”. Fazia, contudo, esta ressalva: “Mas tem de ser um certo tipo especial de irritação”. Ao leitor, portanto, faço votos para que tire o melhor proveito das “irritações” produzidas pelo talento do ficcionista Nilto Maciel.

(Revista Literatura nº 31, jan/abr/2006)
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