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domingo, 25 de março de 2007

Sem fadas (Nilto Maciel)



Acordou assustado. Três homens dentro do quarto, a gritar, armas apontadas para ele. Amordaçaram e amarraram sua mulher. As crianças choravam no quarto vizinho. Um dos homens conduzia a mulher para junto dos filhos. Não iria maltratá-los. Ficasse sossegado o doutor Fulgêncio. Aliás, as crianças e a mulher ficariam presas no banheiro.

Por via das dúvidas, algemaram o dono da casa. Que desejavam, afinal? Iriam assassiná-lo? Não, nada de mortes. Doutor Fulgêncio não podia morrer. A sociedade carecia de sua autoridade, sua competência, sua experiência.
Apesar de não ter recebido socos ou pontapés, tudo doía em Fulgêncio. Até seu nome na boca daqueles celerados. Se ao menos se calassem! Doutor Fulgêncio, como sua casa é bonita! Como brilha o chão! Como devem ser caros os móveis!

Sentiam muita fome. Havia comida na cozinha? O doutor delegado podia lhes fazer um favorzinho? Passar uns bifes. Vestisse o avental. E, enquanto cortasse a carne, cantasse uma canção da moda. Qualquer que fosse. Não tinha boa voz? Cantasse assim mesmo. E não esquecesse a cebola. Para abrir mais ainda o apetite, aceitavam um aperitivo. Uísque não fazia mal. Contanto que fosse scotch.

A mulher e as crianças choravam baixinho. Coitadinhas, não mereciam aquele sofrimento! Infelizmente, a dor não escolhia suas vítimas. Doutor Fulgêncio conhecia bem a dor. Sobretudo a dos outros, dos presos. Aliás, desligasse a televisão. Poderia chamar a atenção dos vizinhos. Além do mais, preferiam show ao vivo. O delegado talvez soubesse fazer imitações. De políticos, cantores, atores. Não, melhor dançar. Como bailarina. Ou como porta-bandeira? Tirasse logo o pijama e vestisse roupas da patroa. Como se chamava mesmo? Verônica? Lindo nome.

O uísque desaparecia lentamente, gota a gota. As crianças talvez já tivessem dormido. Coitadinhas, deitadas no chão frio do banheiro!

Um dos assaltantes parecia cochilar. Que tal levarem-no para a cama? Sorriu. Queria uma canção de ninar. Ou um conto de fadas. Podia ser o de Ana e os três porquinhos. Se o doutor Fulgêncio ainda se lembrasse dessas coisinhas.

Esquecido de quase tudo, o delegado pediu água. Deram-lhe uísque. Assim, soltaria a língua. Narrasse umas historias. Nada de mentiras. Só fatos vividos por ele. Especialmente na delegacia. Se nem disso se lembrasse, descrevesse as etapas do uso do pau-de-arara, por exemplo. À medida que teorizasse, os visitantes agiriam. Poriam em prática a teoria do doutor Fulgêncio. Nele mesmo. Explicasse, então, como arrancar unhas.
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