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quinta-feira, 15 de março de 2007

Um grande homem (Nilto Maciel)


Salazar não conseguiu dormir quase nada naquela noite. Levantou-se mais de dez vezes, tentou ler, ligou a televisão. Voltava à cama, olhava para a mulher dormida, imaginava um segundo de safadezas, desistia, metia-se debaixo do lençol. Não, não seria daquela vez que o sono viria. E como conseguiria dormir? Só se fosse um insensível. Mais de dez anos atrás daquela mesa, a dar ordens, organizar o serviço, e, sem qualquer motivo, ser destituído da função. Uma injustiça inominável! E se virava na cama, olhos arregalados, quase cheios de ódio. Se ao menos a mulher acordasse para conversarem! Mas, não, a desgraçada dormia feito uma porca. Nem ligava para sua insônia, suas preocupações, aquela tragédia em sua vida. Uma insensível!
Na sala, releu pela centésima vez a notícia da queda do avião no Pará. Destroços na selva, mais de uma centena de mortos. História sem qualquer emoção. Coisas do cotidiano. Muito pior o que lhe acontecera. Ora, dez anos na direção do departamento e, num piscar de olhos, a destituição. Uma vergonha! Seus antigos subordinados não o chamavam mais de doutor, e riam pelos cantos. Uns calhordas! Fulano, leve este processo ao desembargador. E fulano virava a cara, fazia-se de desentendido. Falou comigo, Salazar? E pensar nos sonhos de seu pai! “Meu filho vai ser um grande homem”. Pobre velho! A vida toda a falar em riqueza e poder. “Ou você acha que eu dei esse nome a ele por acaso? Sim, há de ser um grande homem. Talvez um ditador”.

A televisão mostrava uma seqüência de assassinatos. O superpolicial metralhava bandidos como a dona-de-casa mata moscas com spray. E nada o impressionava. Aquilo parecia filmes de noites passadas. Olhou para o jornal, fez menção de agarrá-lo, mas preferiu desligar a televisão. Exatamente quando uma rajada de tiros estraçalhava a cara de um bandido.

Foi à geladeira e bebeu suco de uva. Os invejosos da repartição não o trataram sequer por senhor. Teve vontade de dar gritos. Exigir respeito. Ora, subalternos deviam chamar chefe de doutor. Pelo menos de senhor. Nada de intimidades. Não, não podia exigir nada. Afinal, não era mais o chefe. Uma vergonha!

Sentou-se na beira da cama, pensou em rezar, olhou de viés para a mulher gorda que roncava, deitou-se bem devagar. Quem seria o seu substituto? Talvez um velhote qualquer, desses de bigodes e óculos bifocais. Nomeado exclusivamente com o propósito de infernizar sua vida. Desmoralizá-lo perante os funcionários. “Salazar, faça isso, faça aquilo”. Aos gritos. Como ele fizera durante tanto tempo.

No entanto, o sono chegou. E Salazar se viu pequeno, raquítico, quase anão, a servir café a todos. Especialmente à jovem e terna Rosa, sua substituta na chefia do departamento.
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