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segunda-feira, 12 de março de 2007

Um menino chamado Jesus (Valéria Nogueira Eik)


A carroça vinha carregada de sal grosso, açúcar mascavo, garrafas de pinga da boa, encomendas de toda sorte, e de quebra, dois porcos que grunhiam sob um calor de quarenta graus.
Antero segurava as rédeas com as mãos calejadas e seu corpo sacolejava, indolente, seguindo o ritmo da carroça.
O sono turvava a sua visão da estrada e do céu muito azul, sem nuvens, mas era impossível dormir; qualquer descuido seria recompensado por dentadas dos porcos que já andavam inquietos com o calor.
E o sol inclemente cozinhava os seus miolos, apesar do chapéu de palha encardido a lhe cobrir a cabeça.
Era certo que ganhava dinheiro com as viagens, e juntava centavo por centavo para comprar um pedaço de terra, construir um rancho e encher a Matilde de filhos, todos homens.
Mulher bonita essa Matilde. Bonita e prendada. E cobiçada pelos peões da vila e até da cidade.
Mas ela gostava era dele, Antero, o carroceiro fogoso, de pernas e braços vigorosos, sempre pronto para mais um beijo, mais uma carícia e mais alguma ousadia que Matilde consentisse.
Ela, porém, não permitia nada além de afagos que prometiam e não cumpriam, deixando o moço em desespero, quase a ponto de desonrar a noiva ali mesmo, à sombra das bananeiras.
Insistia, tentava, pedia, implorava.
Chegava a se zangar e ameaçava romper o compromisso, mas Matilde ria e desandava para casa, deixando no ar um cheiro de cio, e levando consigo a certeza de que seu homem estava preso e enfeitiçado.
Com o desejo à flor da pele e dos pelos, saltando pelos olhos e pelos poros, Antero seguia rumo ao puteiro e chamava a Luzinete, ou a Marinete, ou até mesmo a Ivete.
Tirava a roupa aos trancos, saltava sobre a escolhida, sussurrava “Matilde, Matilde”, e em segundos urrava e despejava o seu abundante prazer sobre a puta, sobre o lençol, sobre a frustração.
Saía do prostíbulo com uma sensação de vazio, de tristeza, de ter perdido tempo e dinheiro.
E se atirava em mais uma viagem para apressar o dia em que jogaria Matilde no leito e arrancaria dela todas as safadezas tão esperadas.
Comprou o tal pedaço de terra e construiu um barraco.
Matilde fez cara de pouco caso. Queria mais. Queria uma casa branquinha, com jardim na frente, horta nos fundos, e até um fogão a gás.
E lá se foi Antero ganhar estrada e correr trecho.
Parecia nunca alcançar o sonho, que ria e fugia, fazendo jogo, fazendo manha, como Matilde.
Quando voltou, a noiva estava diferente. Carinhosa, ela permitiu afagos e ousadias. E ali mesmo, entre as bananeiras, Antero comeu seu sonho, arrotou gemidos e palitou a felicidade.
Pediu a mão de Matilde ao velho Juvêncio. E depois do sim, e depois do casório, e depois da festa singela, levou a esposa para o barraco, e no leito se alimentou de safadezas por muitas horas, por muitos dias, sem querer outra vida que não fosse aquela.
Mas Matilde queria a casa branquinha, queria o jardim e queria a horta, e não abria mão do fogão a gás. Fazia muxoxos, fazia birra e passou a recusar todo aquele despudor. E Antero não teve outro jeito senão atrelar o cavalo à carroça e pegar a estrada novamente.
Com o coração apertado dentro do peito e o chapéu de palha enfiado na cabeça, lá se foi o homem em busca dos sonhos da esposa.
Ao retornar, depois de poucas semanas, deu de cara com uma barriga crescida e soube que ia ser pai.
– Vai ser o primeiro de muitos moleques, Matilde. O primeiro!
Ela sorriu sem vontade, num tom amarelado e não disse palavra.
De noite, no leito, Antero puxou a mulher para si, cheio de desejo, mas ela não quis. E ela nunca mais permitiu aqueles descaramentos. Estava em estado de graça, de espera, como se fosse uma santa ou mesmo a Virgem Maria.
E o dinheiro para comprar o fogão foi jogado no puteiro, ora com a Marinete, ora com a Ivete, ora com a Luzinete.
Mas Antero queria Matilde, e ali mesmo, em meio às putas, gritava o seu desejo pela esposa que agora era uma santa.
As meninas da casa riam e riam.
– Santa só no céu, bobinho!
E tratavam de fazer toda a sorte de safadezas para alegrar o pobre homem e ganhar os seus tostões.
Passou-se um mês, passaram-se mais alguns poucos meses, e o menino, o filho homem do Antero, veio ao mundo.
Não tinha os traços fortes da mãe e nem a cabeleira ruiva do pai. Era muito branquinho e tinha os olhos mais azuis que os de Jesus Cristo.
Antero olhou e entendeu. E no mesmo instante sorriu para Matilde e disse:
– Vai se chamar Jesus, minha santa. O nosso menino Jesus!
De volta ao casebre, Antero cobriu mãe e filho de mimos. Parecia alegre, parecia feliz.
E quando achou que já era tempo, puxou Matilde para si, cheio de desejo, querendo safadezas, e escutou a recusa.
Um sorriso gelado e cruel saltou da boca crispada.
Não tinha a menor importância se nenhum anjo a visitara.
E muito menos se o pequeno Jesus nem era o outro filho de Deus e muito menos seu.
Matilde era sua.
E seria sua todas as vezes que ele quisesse e da forma como bem entendesse.
E quando se fartasse, enjoasse e até enojasse, teria a Luzinete, a Marinete, e a Ivete, as meninas do puteiro, as Marias Madalenas da vida, desavergonhadas, descaradas, verdadeiras.

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*Valéria Nogueira Eik edita a revista eletrônica Conexão Maringá.
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