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terça-feira, 10 de abril de 2007

Ecce homo sapiens (Nilto Maciel)




Aos trinta anos de idade, Giovanni Cristofori já havia publicado três importantes obras: A vida do homem de Pequim, O homem de Piltdown e Como surgiram os prossímios. A seguir, se voltou para o Brasil, e leu Roquete Pinto, Artur Ramos e Gilberto Freyre. Quis conhecer os índios, a Amazônia, Sete Cidades, São Raimundo Nonato, cavernas, sítios arqueológicos, etc. Aconselharam-no a instalar-se no Rio de Janeiro. Poderia escrever A mulher de Ipanema. Sociólogos indicaram-lhe Recife, onde encontraria o autor de Casa Grande e Senzala. No entanto, aportou em Fortaleza, e, no dia seguinte, rumou até Palma. Apresentou-se às autoridades e falou de seus interesses científicos. O prefeito se mostrou surpreso: desconhecia cavernas nos arredores da cidade. Talvez o italiano encontrasse pequenas grutas, algumas cobras e, no final, a morte.

Giovanni se vestia com simplicidade, trazia barbas longas e falava o tempo todo em homo erectus, homo habilis e homo sapiens. O padre não tirava da boca o nome de Pio XII, e, como querendo ser amável com o visitante, vez por outra recitava o nome do soberano pontífice: Eugenio Pacelli.

Dias e dias metido nos sítios, Giovanni não encontrou nenhuma caverna e muito menos utensílios, ferramentas e crânios da era pré-colombiana. No entanto, não desistia de achar vestígios do homo sapiens de Palma. E perdia horas seguidas em discussões com o padre Ponce. O homem-macaco ereto, com mais de quinhentos mil anos... O sacerdote se enfurecia e mostrava ao cientista versos retumbantes, Adão rimando com trovão; Eva, com treva.

Estando um dia num sítio a escavar o chão, viu-se o italiano cercado de soldados. “A quem buscais?” Os policiais empunharam as armas e gritaram: “Buscamos ao herege”. E o algemaram.

Conduzido à presença do delegado, o cientista quis saber o motivo de seu aprisionamento. Ora, então não cometia crime quem invadia propriedade alheia e no seu chão buscava ouro? Giovanni riu. Não, não catava ouro, mas vestígios do homo sapiens. A autoridade gargalhou. Existia o homem-sapo? Um dos soldados deu uma bofetada no estrangeiro. “É assim que falas ao tenente?”

Após horas de diálogo, concluiu o delegado não dever conservar preso o italiano. O Código Penal não se referia ao homo sapiens. Talvez se tratasse apenas de heresia. E ordenou fosse o réu conduzido à presença do padre Ponce.

Diante da igreja, centenas de católicos gritavam, cantavam e rezavam. Também no interior do templo não cabia mais ninguém. O sacerdote subiu ao púlpito, benzeu-se e abençoou os fiéis: Dominus vobiscum. A seguir, mudou o tom da voz e perguntou à multidão: “Que acusação fazeis a este homem?” O povo respondeu a uma só voz: “Ele é um herege”. O padre desceu da tribuna e se dirigiu a Giovanni: “És tu um herege? Que fizeste?”

O interrogatório se completou com palavras obscuras para a grei cristã: Homo erectus, errare humanum est, homo habilis, habemus confitentem reum, homo sapiens, sapienti sat. E o sacerdote se voltou para os fiéis: “Eu não acho nele crime algum”. A plebe se enfureceu, ululou e exigiu a punição do cientista. Rendido, o padre Ponce se retirou. E logo apareceu na cabeça do estrangeiro uma coroa de espinhos.

A santa missa, no entanto, precisava ser rezada. Então o sacerdote caminhou até o altar, levou o rosto à taça de vinho e aspirou seu aroma. A seguir, introduziu os dedos no vaso sagrado e repetiu: “Eu não acho nele crime algum. No entanto, eu o entrego a vocês. Ecce homo”.
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