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sábado, 26 de maio de 2007

Aqui, do meu quarto (Dimas Carvalho)




Moramos todos nós nesta casa, cada um no seu quarto, a família toda. Não sei precisamente quantos somos, porque nunca nos vemos; na verdade, nenhum de nós sai de seus aposentos. A comida é entregue no quarto no momento em que o lixo diário é recolhido. Também não se vê quem entrega a comida e recolhe o lixo. Mas, embora passando os dias trancado aqui, viajo pelo mundo todo. Ultimamente estive em Camberra, depois passei pelo Texas, Espanha, a Patagônia e a Cidade do Cairo.
Um dos meus passeios favoritos é à Escandinávia. Adoro as paisagens geladas, os meses sem sol. Lá, cavalgo os grandes rinocerontes rosados, passeio pelos imensos túneis do metrô secreto que liga o Pólo Norte a Londres e Nova Iorque. Quando baixam os discos-voadores, sou o primeiro a recepcioná-los. Algumas vezes viajo de submarino. Desço a profundidades abissais, sete, oito mil metros, e lá converso longamente com polvos gigantescos, peixes cegos, corais borbulhantes, vulcões e harpias. Os seres das profundezas possuem um admirável senso de humor, e é um espetáculo edificante ver como eles praticam um canibalismo filosófico e estóico, do qual não estão ausentes o suicídio e as torturas mais sutis e pavorosas. Delicio-me com a delicadeza dos seus poetas, pintores e artesãos, sem dúvida alguma os melhores do globo, injustamente condenados, pela imensidão das águas oceânicas, a um ostracismo e a um desconhecimento por parte do público que só podemos classificar como absolutamente deploráveis.

Também costumo navegar para outras galáxias, embora na maioria dos casos, por pura preguiça, não ultrapasse as fronteiras do sistema solar. Gosto de passear principalmente nos anéis de Saturno e no nebuloso Netuno, planeta da minha predileção, pois lá não se encontram cobradores, parentes e cantores de rap, não necessariamente nesta ordem. E como é bom cavalgar os hipocampos de Júpiter, deslizando pelas paisagens veludosas que se estendem por milhares de quilômetros. Isso sem falar nos mergulhos entre as nuvens de Vênus, que rendem horas de êxtase contínuo, esqui privilegiado de prazeres conspícuos.

Voltando a minha casa, descanso por semanas ou meses seguidos. Hiberno. Escrevo longas cartas sem destinatários, ao mesmo tempo em que recebo correspondência de pessoas que vivem no futuro e que se comunicam comigo usando não sei que espécie de artifícios. Promovo grandes banquetes, e alguns dos meus convivas mais freqüentes são Napoleão Bonaparte e Leonardo da Vinci. Aristóteles aparece de vez em quando, apesar de estar ultimamente muito ocupado, escrevendo um tratado sobre as moscas azuis da Mandchúria. Mas tenho o maior cuidado de não convidar para a mesma festa Joana D’Arc e Alexandre II, pois eles simplesmente se detestam, e já tive muito trabalho em uma ocasião em que o serviço de cerimonial falhou, havendo um desagradabilíssimo encontro dos dois. Afora isso, os banquetes são um verdadeiro sucesso, e até inimigos figadais, Churchill e Hitler, por exemplo, se comportam exemplarmente, mesmo quando por acaso sentam lado a lado. Só não consegui ainda entender é como cabem neste pequeno cubículo em que vegeto 200, 300, 500 pessoas, sem contar os músicos e os garçons, que, como todos sabem, são duas espécies animais bastante agitadas, e que por este motivo ocupam um espaço desproporcional às suas funções e utilidades.

Outro dia, resolvi testar as minhas capacidades. Comecei por comer: ingeri 200 litros de gasolina, oito tortas, três queijos médios, seis pizzas-família, dez quilos de cavala, doze quilos de capim-mimoso. Depois corri setecentas léguas sem parar, tocando um trumpete que ganhei no último Natal, presente de um urso panda amigo meu que mora na Criméia. Não contente, nadei durante 50 dias, sem comer nem beber, fazendo a circunavegação da África quatro vezes, e ainda falam que Vasco da Gama é o tal. Para encerrar este meu período de férias atlético-olímpicas, encerrei-me no túmulo de Nabucodonosor, onde vivi por oitocentos dias alimentando-me com hidromel, formigas e gafanhotos que me eram trazidos por carruagens de fogo puxadas por dragões alados. Só saí de lá quando a grande águia rodou sobre mim por setenta vezes, e todos os leões da Báctria começaram a urrar em uníssono. Feito isso, arranquei as montanhas do Cáucaso para fazer com elas a casa de morada do meu coelho de estimação, que reside na hospitaleira cidade de Jamestown, para onde enviei, via telex, todos os utensílios necessários à sua boa acomodação.

Agora estou ouvindo barulho nos outros quartos. De cada lado vem um som diferente: são fanfarras, músicas sacras, tinir de metais, descargas de banheiros, trombetas, cristais que se partem, buzinas, silvos de trens, roncos de avião, sinfonias fragmentadas, grunhir de porcos, patadas, coices, miados, uivos, choques de caminhões em alta velocidade, ambulâncias, explosões nucleares, trinados de pássaros, alto-falantes, zumbido de insetos, troar de canhões, gritos, ruídos de portas e janelas que se fecham com violência, pneus que freiam, apitos, fragor de ondas, chuva caindo, relâmpagos e trovões. Em cada quarto desta maldita casa acontecem mil coisas diferentes a cada momento, e em cada um deles, eu sei, há um maluco escrevendo suas fantasias mais delirantes, e, o que é bem pior, o relato de coisas verdadeiras que vemos, ouvimos e sabemos e que, se as ousássemos contar, seriam tachadas de fantasias e mentiras desvairadas. Mas será que eles todos são realmente e totalmente malucos?
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