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domingo, 13 de maio de 2007

As infinitas pernas de Wellington (Nilto Maciel)



Reprodução caricatura de James Gillray mostra Napoleão (D) disputando o mundo com o general inglês William Pitt


Era anão. Sujeitinho do tamanho de um dedo de homem comum. E comandava milhares de outros seres feitos à sua imagem e semelhança. Valentes soldados.

Sempre vitorioso, esse general de alguns centímetros tinha mania de grandeza. Sonhava conquistar o mundo. Tornar-se o rei da Terra.
Porém, chegou o dia de enfrentar um exército de gigantes. Homens enormes, do tamanho dos comuns. E o general anão se pôs a pensar? Que estratégia havia de usar contra os tais gigantes? Fez cálculos, desenhou figuras, anotou nomes e números.

Ao cabo de mil planos mirabolantes, decidiu-se pelo mais ousado: avançar e chegar ao inimigo.

Muitos de seus soldados seriam esmagados pelas botas contrárias. Feito formigas. Em compensação, milhares se salvariam. E escalariam o couro dos calçados. Atingiriam a perna, todo o corpo. Com as baionetas envenenadas, picariam a pele goliarda.

Estratégia de gênio!

Dada a ordem de atacar, o infinitesimal exército avançou. À frente marchou o genial estrategista.

De longe ainda pôde avistar a cara do comandante inimigo. Porém, à medida que avançavam um para o outro, ia deixando de ver partes do corpo gigante. Até enxergar apenas uma enorme bota.

Preocupado com o próprio destino, não teve a oportunidade de constatar a realização integral de seu plano. Milhares de anões esmagados pelas botas gigantes. E outros milhares agarrados ao couro dos calçados.

Ao atingir o topo da bota inimiga, o general anão escorregou. Por sorte caiu para dentro do calçado. Refez-se do susto, agarrou-se aos pêlos da nobre perna. E dela não mais se afastou.

À altura do joelho, pensou dar a primeira alfinetada. Sentia muito calor e cansaço. Urgia pôr termo àquilo. Não, necessitava atingir a cabeça do homem. Daria apenas uma picada mortal.

E subiu mais e mais.

Alcançada a metade da coxa, ouviu um fragor, seguido de insuportável odor. Apavorado, ainda tentou levar as mãos ao nariz. E escorregou pela segunda vez.

Caía, caía, uma queda eterna. Como se as pernas do duque de Wellington fossem infinitas.

E Napoleão Bonaparte acordou, tentando agarrar-se a nada.
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