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domingo, 20 de maio de 2007

Bicho amarrado para morrer (Nilto Maciel)















Prisioneiro dos tupinambás, Hans aguardava cristãmente a morte. Lembrava-se perfeitamente de tudo, desde sua captura, naquela fatídica manhã de 1554. A chegada à aldeia, a recepção, a festa. Mulheres e crianças o esbofetearam. Cortaram-lhe sobrancelhas e barba. E o amarraram pelo pescoço, como se fosse bicho. Sentira-se espiritualmente aniquilado. Reles vivente. À espera do golpe mortal. Para depois ser esquartejado, assado e comido pelos canibais.

No entanto, logo lhe trouxeram alimentos e, mais tarde, uma jovem índia. Comesse e engordasse. E fizesse da indiazinha sua mulher.

O alemão se recusava a comer aquelas porcarias e não queria a companhia da fêmea. Arrependia-se da viagem ao Brasil. Antes tivesse ido à Índia. Ou estacionado em Lisboa. E chorava, tremia de terror, rezava. Pois vira muitas cabeças de gente espetadas. De homens devorados por seus carcereiros.

Que Deus o livrasse daquela tortura, de tão terrível destino. Não podia escapar à morte, bem sabia, pois mortal nascera. Porém queria morrer em sua terra, junto a seus parentes e de morte natural.

Deitado na rede, Hans pedia o socorro divino. Só o Pai Eterno o salvaria.

Súbito ouviu um farfalhar de ventos e se pôs atento. Talvez uma tempestade. Depois um clarão, como de relâmpago. Olhou para o céu. Nuvens brancas passavam. Soergueu-se e, com grande espanto, viu um vulto descer ao chão. Um velho de longas barbas alvadias e imaculadas vestes.

— Eu sou o Salvador a quem chamaste, meu filho.

Maravilhado, Hans sorria, olhos fitos no ancião.

— Vim para te salvar.

E o Onipotente alisava os cabelos sujos do europeu. Ninguém o mataria. Num minuto estariam na Alemanha. Todo o Atlântico não media um passo.

Tanto barulho só podia ter despertado a indiada. E logo uma dezena de selvagens invadiu a cabana onde o pobre Hans dormia. Quem era o velho?

— Ele é deus, ó brutos!

E o alemão, rindo, se dizia salvo. Fossem os bárbaros matar e comer animais. Nunca o matariam. Seu deus viera salvá-lo. Brevemente estaria do outro lado do mundo. Onde imperavam a lei de Deus, a Justiça, a Civilização. Ficassem com o Diabo e a Barbárie.

Os índios, porém, não deram ouvidos a Hans. Agarraram o velho de barbas brancas e o amarraram com cordas. Agora havia dois escravos e a comilança seria farta. Fariam uma festa espetacular.

Não tardou, foram os dois conduzidos ao centro da aldeia, onde toda a tribo cantava e dançava.

Estupefato, o europeu não reagia. E se deixava conduzir ao holocausto. Não passava mesmo de bicho amarrado para morrer. Ele e seu Deus. Repetição da história de Jesus.

Só restava esperar o desfecho de sua pobre vida. Um golpe de clava na nuca, os miolos saltando longe, o esquartejamento, a fogueira. Depois as bocas famintas em suas carnes.

E o velhinho? Nada faria para livrá-lo do suplício? Pois também lhe cortavam a barba e riam estrepitosamente.

Não, não aguardaria passivamente a morte. Não custava nada tentar uma fuga. Afinal, até Deus o abandonara. Mas coitado do velho, também condenado à morte! E tentava escapar, embora amarrado pelo pescoço. Os selvagens, porém, o perseguiam e pegavam.

— És nosso bicho, como nosso bicho é o teu velhinho.

E se preparavam para o sacrifício. Bebiam, pintavam os prisioneiros, cantavam e dançavam. Um dos homens segurava a clava com que iria matar Hans e o ancião.

Nesse momento Hans Staden acordou, aos berros.
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