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quarta-feira, 30 de maio de 2007

O afeto que se encerra (Ilídio Soares)

(Toulouse Lautrec)

Eu só quero lhe perguntar como é mesmo que eu durmo, como é a ponta da minha língua, a mesa, a mesa que eu lhe ofereço o café, o pão e a manteiga. Se eu bebo vodka, disso você lembra, mas quando digo que o seu tesão não me fura mais o ventre, ah isso é provocação. Você me faz parecer um pedaço de velha, uma filha de Maria, destroços de roupas atiradas sobre uma poltrona nauseada e azeda. Achando-me única, na verdade sou sua melhor invenção pra se livrar das beatas abnegadas por uma tal de paixão. Mas deixa eu lhe falar, o que entristece são os doentes, os suicidas, os atropelados pelos carros e toda uma coleção de insetos esvoaçando sobre as feridas em obstinada putrefação. Eu, meu querido, eu sou apenas o desvio do seu olhar, a sua cordialidade sem receio de ficar idiota e impassível. A certeza que não se enganou de quarto e saiu desembestado agarrando a hóspede pelo cabelo. Eu sou isso, sim senhor. A esposa que não se confunde com a cunhada, o cumprimento da madame com donaire de vadia, e que você insiste confundir com a mãezinha enervada esperando por você no alto da escada.

Rodrigo de ar sonolento, Rodrigo debruçado no colo e satisfeito por um pratinho de farelos. Não foi por esse que eu me insinuei, encostando-o numa parede e escorregando meus lábios sem esperar resposta. Que me levava para uma cantina e pedia mais vinho enquanto apalpava minhas coxas, todas as minhas beiradas num jeans apertado e com os odores de salames e queijos incorporando-se a iniciação. Queria esse e já não conto mais; com seu definido perfil de homem normal, homem até por detrás dos gestos, mas que hoje só mete medo quando resolve não meter mais nada além de um débil nervo irrecuperável. Desligado de tudo, ao alcance de qualquer mão que resolva lhe arrebatar por costume ou ameaça, o Rodrigo que não sabe pedir socorro e se sente mais confortável próximo de si mesmo.

Antes eu não sabia, mas agora eu sei que você está morrendo, devagar e enroscado na disciplina fetal dos seus dias longos e oleosos de silêncio. Inúmeras vezes tentei deflagrar-lhe uma insônia, mas você deita e dorme esquecendo-se como é que eu durmo, ou se eu durmo mesmo quando recosto no travesseiro. Esse horror de ir para a cama me acostumando a não queimar mais, não umedecer mais, não ser recolhida de sua insistente estranheza me faz correr a mente sobre algo também sem pressa pra se desvencilhar, sem direção pra embarcar, iminente e incontornável e sem nome pra configurar um rosto inesquecível e doravante inescamoteável, o de um Rodrigo que minha boca não alcança mais.
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