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quinta-feira, 24 de maio de 2007

O cálice dos desesperados (Luciano Bonfim)


(Gregor Samsa, na visão de Christophe Huet)


“Cada vez mais silenciosos e se entendendo quase inconscientemente através de olhares, pensaram que já era tempo de procurar um bom marido para ela. E pareceu-lhes como que uma confirmação dos seus novos sonhos e boas intenções quando, no fim da viagem, a irmã se levantou em primeiro lugar e espreguiçou o corpo jovem”. Kafka – A Metamorfose. Tradução : Modesto Carone

Como todos sabem, o médico e o serralheiro não foram localizados.

O gerente, pela sua lealdade e empenho em resolver o caso, fora promovido, tendo direito a um intervalo de duas horas para o almoço e folga aos domingos. Para a vaga que ficara ociosa, investido de seus novos poderes, contratou de imediato o seu cunhado, há oito meses desempregado e vivendo de sua amizade. 

A primeira criada, a que presenciou o espanto da família e o escândalo do mundo, não suportando tamanha nova realidade, após pedir demissão, passou a ser vista pelas ruas bebendo conhaque e falando sozinha – os ouvintes, simultaneamente, estranhavam e riam daquela senhora que mudara de maneira tão repentina o seu comportamento.

As provisões em dinheiro economizadas nos últimos cinco anos, se bem regradas, agüentariam alguns meses – tendo a família que se acostumar a uma vida modesta. Ao fim deste período, mesmo agindo moderadamente, refletiram, teriam que conseguir trabalho para puderem suportar as despesas domésticas. A mãe teria que vencer a sua falta de ar e empenhar-se em realizar pequenos serviços. O pai retomando velhos contatos, retornaria às suas atividades no comércio. A irmã ingressaria no magistério, e quem sabe um dia não poderia conseguir uma bolsa de estudos e de fato ingressar num conservatório, aperfeiçoar-se no violino e enfim realizar o recital no natal, tão sonhado pelo irmão.

Ele não conseguia mais entender o que os seus familiares conversavam na sala, e desde o dia em que resolveram retirar os seus móveis e ferramentas do quarto, sentiu como se todas as dores do mundo o acariciassem.

Alugariam um dos cômodos da casa, enorme para eles, que haviam ido morar ali por insistência do filho. Assim fizeram.

Passaram, então, três distintos senhores, caixeiros viajantes assim como o filho, a compor o ambiente doméstico que perdera a sua característica familiar.

Com esta nova função adquirida, tiveram que contratar uma nova empregada. Esta estranhou o cuidado dedicado ao velho quarto próximo ao canto da sala, que, mesmo sendo utilizado apenas para guardar objetos em desuso, não era permitida a entrada de pessoas que não fossem da família.

Com o auxílio de um dos hóspedes, o que parecia ter mais autoridade e sempre provava a comida antes das refeições, ela resolveu elucidar o caso, mesmo às escondidas, e empenhou-se ao máximo em levar a cabo a empreitada. Até que um dia deparou-se com aquele monstro horrível, e sentiu mesmo uma imensa vontade de esmagá-lo. Sorte de ele ter recuado a tempo.

Na noite anterior, os pais falavam de seus esforços e faziam planos para eles e para a educação da irmã, – nem mesmo a pior catástrofe ou guerra, irá nos separar, juraram. Antes de dormir, a irmã passou pelo seu quarto, e desejou-lhe boa-noite, não obtendo resposta. Acreditou que já dormira, haja vista ter que viajar bem cedo na manhã seguinte.

A mãe adormecera na cama. O pai ainda teimava em roncar no sofá.

Aquela noite, em especial, dormiram acreditando que o mundo não lhes apresentaria peripécias.

Para ele, neste sentido, nada se confirmara, desde aquela manhã em que, depois de uma longa noite de pesadelos recrudescentes, viu-se acordar metamorfoseado em um terrível inseto.

Crateús, inverno de 2004.
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