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terça-feira, 15 de maio de 2007

Os limites provisórios (Carlos Willian Leite)



e pastam em nós os rebanhos


escondidos à sombra de nós mesmos


à superfície enferrujada das pálpebras


dos anos


onde noturnas pequenas aves


ciscam o mármore dos relâmpagos





fátua fauna de árvores e homens


de pássaros que conduzem


os ventos


sobre as fibras secas do coração






velhas caves de silêncio e palha


de um rio que não volta à nascente


mesmo carregado nos ombros


nos escombros áridos dessa solidão






cai à tarde em alarido


o relógio ainda sonolento pari horas






e os homens envelhecem nas margens da tarde


no fundo do corpo onde a morte mora






sei


porque a mim mesmo ensinei


o surdo alfabeto da sorte:






morrer é ficar encantado


entre a corda


o abismo


e as sobras


que sobram da morte






outros homens amaram a madrugada


jogaram dados com seus mortos






naqueles dias


o tempo era um bêbado


encostado nos muros






por ele


sonharam licores e conhaques






e vagaram na mesma insônia dos copos










mas não escavarei o coração estrangeiro


quando a vida passar pela janela


carregando seus olhos






a vida sempre passa pela janela


viajando segredos e homens


perdidos


pendurados entre as farpas dos varais.






II






eram vaga-lumes os sonâmbulos da cidade


o quarto era calabouço






os homens arrastavam-se nos campos de centeio


e soavam tambores


e tinham a cor do fogo e dos dias










um grito:


o silêncio apunhalado na tarde






o rito:


um louco de chapéu engraçado


furou os olhos de deus






e deus agora está cego e clama nomes e auroras






* holden, holden, holden caulfield...


olha o teu abismo de apanhar homens






mas não deixa que teus olhos


ceguem outros olhos






e clama


e chora






o instante é trágico, um verbo de uvas negras


os segredos são dardos e picam o coração dos homens






sei


porque a mim mesmo ensinei


a suicida ceifa dos dias


essa ampulheta que teima


em prosseguir


quando um homem desce ao Hades


e bebe o elixir dos profanos


nos idos de sua lida






alguma parte em si fica poeta


pelo resto da vida






o poema é navalha que corta e consola


o poeta um maestro de facas

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